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Jamil Chade

Enfrentamos uma pandemia: devemos atacar o vírus, não pessoas vulneráveis

Cientista-chefe da OMS, Soumya Swaminathan, durante entrevista coletiva em Genebra - Reprodução
Cientista-chefe da OMS, Soumya Swaminathan, durante entrevista coletiva em Genebra Imagem: Reprodução
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

13/10/2020 12h30

Por Soumya Swaminathan, cientista-chefe da OMS (Organização Mundial da Saúde)

Enquanto a luta para conter a covid-19 continua em todo o mundo e o esgotamento causado pela pandemia cresce, vozes estão sendo ouvidas clamando pela chamada "imunidade coletiva", argumentando que isto pode ser alcançado através da "proteção seletiva".

Tal estratégia envolveria a reabertura completa de nossas sociedades e a "blindagem" dos idosos e daqueles com outras doenças, a fim de alcançar tal imunidade coletiva durante os próximos seis meses, enquanto se aguarda uma vacina.

Isso pode parecer muito simples, mas os fatos provam o contrário.

Em primeiro lugar, a imunidade do rebanho pode ser obtida pela administração de uma vacina para proteger as pessoas contra um vírus, não expondo-as a ele.

Por exemplo, para atingir a imunidade do rebanho contra o sarampo, cerca de 95% das pessoas precisam ser vacinadas. Uma vez imunizadas, elas atuam como um escudo protetor para impedir a circulação do vírus e infectar os 5% restantes da população não vacinada.

Seria preciso vacinar 5 bilhões de pessoas para se falar em imunidade de rebanho

Em segundo lugar, nossos níveis de imunidade ainda estão longe daqueles necessários para impedir a transmissão da covid-19. Dados de estudos indicam que menos de 10% da população mundial tem mostrado sinais de infecção. Em outras palavras, a grande maioria das pessoas ainda é vulnerável ao vírus SARS-CoV2.

Estima-se que, para obter imunidade em massa contra este vírus até que uma vacina esteja disponível, 60-70% da população mundial (mais de 5 bilhões de pessoas) teria que ser infectada, o que pode levar anos.

Além disso, como já aconteceu com outros coronavírus, a reinfecção não pode ser descartada; de fato, já aconteceu. Em outras palavras, a população pode estar repetidamente exposta à doença.

Colapso hospitalar e falta de informações sobre síndrome pós-covid-19

Em terceiro lugar, se permitirmos que o vírus se propague sem controle pela população, as consequências para as sociedades e sistemas de saúde serão devastadoras. O número de pessoas que ficariam gravemente doentes e morreriam seria imenso, os hospitais ficariam superlotados devido ao afluxo de pacientes — especialmente agora, no hemisfério norte, a estação da gripe está começando — e o número esmagador de pessoas que precisariam de cuidados de saúde causaria uma enorme devastação nas comunidades.

Por outro lado, não sabemos quantas pessoas sofrerão os efeitos debilitantes da síndrome pós-covid-19 (ou seja, a forma crônica da doença), e por quanto tempo. Muitas pessoas relatam fadiga persistente e prolongada, dor de cabeça, entorpecimento e dificuldades respiratórias.

Além disso, não podemos esquecer que outros sintomas graves da covid-19 foram relatados, tais como limitações físicas e cognitivas, distúrbios psiquiátricos e envolvimento dos pulmões, do coração e do cérebro.

Foco em medidas de combate ao vírus

Em quarto lugar, é um erro pensar que este vírus só afeta seriamente as pessoas mais velhas e as que estão doentes. Dados de pesquisa indicam que a mortalidade aumenta acentuadamente com a idade, mas também que muitos jovens sem doenças subjacentes ficaram gravemente doentes e morreram. Por exemplo, no auge do surto na Itália, 15% dos pacientes admitidos em terapia intensiva tinham menos de 50 anos de idade.

Finalmente, me pergunto como a chamada "proteção direcionada" poderia ser aplicada na prática. Atualmente, os governos são recomendados a proteger os grupos de maior risco, como parte de uma série de medidas de saúde pública cuja eficácia depende de sua implementação simultânea. Selecionar uma única intervenção, independentemente das características da transmissão local, seria uma decisão irresponsável, ineficaz e letal.

Como o diretor-geral da OMS declarou, não se trata de escolher entre deixar o vírus circular livremente e paralisar nossas sociedades. Este vírus é transmitido principalmente entre pessoas que têm contato próximo com ele e causa surtos que podem ser controlados através da aplicação de medidas específicas.

Em vez de desperdiçar recursos inestimáveis, impondo medidas discriminatórias aos grupos de maior risco, deveríamos nos concentrar no combate ao vírus.

Com controle em nível local, não é necessário confinar um país inteiro

Se os testes de triagem e rastreamento de contato forem realizados com rigor, podemos saber com bastante precisão onde o vírus está circulando e tratá-lo com medidas de saúde pública, como isolamento de casos e quarentena de contato. Estas são medidas comprovadas com as quais todos estamos familiarizados e cuja eficácia já foi demonstrada.

Ao adaptar as intervenções ao contexto local e visando grupos de casos, não é necessário confinar um país inteiro sem levar em conta as variações de transmissão dentro da comunidade.

Também podemos reduzir a morbidez e a mortalidade da covid-19 informando as pessoas como elas podem se proteger e proteger seus entes queridos. Temos visto esta estratégia funcionar em muitos países.

É um trabalho árduo, mas agora temos novas ferramentas que são mais eficazes do que aquelas disponíveis nove anos atrás.

Informação e atendimento de saúde de qualidade

Por exemplo, muitos países têm profissionais de saúde melhor treinados e equipados, e nós temos melhores tratamentos e ferramentas de diagnóstico e aplicações digitais que nos ajudam a informar os pacientes e encontrar contatos de casos.

Em todo o mundo, os governos devem agir de forma decisiva para interromper a transmissão, reduzir a mortalidade e capacitar seus cidadãos a agir para se proteger.

As autoridades de saúde pública devem entrar em diálogo com as comunidades que servem para aprender sobre os obstáculos e restrições que enfrentam e para tentar enfrentá-los.

Os governos devem fortalecer seus sistemas de saúde para atender a todas as necessidades de saúde e investir no desenvolvimento de ferramentas de diagnóstico, tratamentos e vacinas para nos ajudar a acabar com esta pandemia.

Existem atualmente mais de 200 vacinas candidatas, várias das quais estão nas etapas finais dos ensaios clínicos.

No próximo ano, poderemos ter um fornecimento limitado de uma vacina SARS-Cov 2 eficaz. Naquele momento, poderemos considerar se é seguro e realista fazer um esforço para alcançar a imunidade em massa.

Por enquanto, devemos ser mais espertos que o vírus para entender como e onde ele se espalha e fechar todas as portas para ele.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL