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Jamil Chade

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Rússia veta ação da ONU contra a guerra; Brasil vota ao lado dos EUA

Reunião do Conselho de Segurança da ONU faz um minuto de siêncio pela Ucrânia antes de votar resolução sobre o ataque da Rússia ao país  - CARLO ALLEGRI/REUTERS
Reunião do Conselho de Segurança da ONU faz um minuto de siêncio pela Ucrânia antes de votar resolução sobre o ataque da Rússia ao país Imagem: CARLO ALLEGRI/REUTERS
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

25/02/2022 19h50

Resumo da notícia

  • Depois de hesitação, o governo brasileiro toma postura dura contra Moscou e alerta que "linha foi cruzada"
  • Itamaraty, porém, ainda insiste que não há alternativa à negociação e pede que haja espaço para diálogo

O Brasil votou contra a Rússia no Conselho de Segurança da ONU, num esforço de reposicionar o país diante dos ataques contra a Ucrânia e a pior crise de segurança internacional em décadas. A decisão do Itamaraty de apoiar a resolução apresentada pelo governo dos EUA ocorreu depois de dias de indefinição no Palácio do Planalto sobre como o Brasil se posicionaria, principalmente após Jair Bolsonaro ser recebido por Vladimir Putin, um dos poucos líderes internacionais a abrir suas portas ao brasileiro.

O voto ainda foi seguido por um discurso duro e inédito por parte do governo brasileiro, sugerindo uma mudança na postura do país em relação aos atos russos na Ucrânia.

A guerra, de fato, abriu uma crise dentro do governo sobre quem teria o papel de formular a política externa brasileira. A ala mais radical do bolsonarismo estava incomodada com a postura do Itamaraty.

Veto russo impede aprovação e abre críticas

Com o Conselho sendo presidido pela Rússia neste momento e com o poder de veto do Kremlin, a resolução não foi aprovada e Moscou impediu que uma decisão fosse adotada. O resultado terminou com onze votos a favor e um voto contra, o da Rússia. China, Índia e Emirados Árabes Unidos se abstiveram.

Na resolução, a Rússia era colocada como a responsável pela crise e sua operação foi classificada como "ato de agressão". O documento condenava a agressão e a reafirmava a soberania da Ucrânia. A resolução ainda demandava a Rússia a imediatamente retirar forças do território ucraniano.

Mas a atitude do governo russo de impedir a aprovação do texto abriu uma onda de críticas por parte de países que acusaram o Kremlin de abusar de seu veto. Brasil e outros ainda alertaram sobre o risco de que o Conselho de Segurança caia em uma profunda irrelevância.

Troca de farpas

O encontro ainda foi marcado por uma intensa troca de farpas entre governos. Para a delegação russa, o documento submetido à votação não era equilibrado e um país como os EUA, com vários episódios de invasões de territórios, "não estava em posição de dar aulas de moral".

Segundo Moscou, é o governo de Kiev quem ataca populações do Leste do país, promove um golpe de estado, viola acordos de Minsk e dá apoio para que milícias neonazistas ataquem civis. Num discurso ofensivo, a diplomacia russa acusou o Ocidente e a imprensa de manipulação e denunciou as forças ucranianas de estarem supostamente usando a população civil como escudo humano.

Por mais de duas horas, o Conselho em Nova Iorque se transformou num local de pressão internacional contra a Rússia e de tensão.

A delegação ucraniana criticou o que chamou de "táticas nazistas" por parte do governo de Vladimir Putin, enquanto pediu um minuto de silêncio pelas vítimas e pela "salvação" do embaixador russo na sala. "Vocês estão loucos?", criticou o diplomata, alertando para o caráter "diabólico" de Moscou.

O discurso americano também mostrou a dimensão do mal-estar. "Foi a escolha da Rússia invadir seu vizinho e violar a Carta da ONU", disse a embaixadora dos EUA, Linda Thomas-Greenfield. Segundo ela, o ataque "ameaça nosso sistema internacional e temos a obrigação solene de não virar o rosto".

"A história nos julgará por ações ou por falta de ação", alertou a embaixadora. "Esse é um voto simples. Vote sim para defender a Carta da ONU, o direito à soberania de qualquer país e se a Rússia deve ser responsabilizada por ações", disse. Para ela, um voto negativo ou abstenção significa não apoiar a Carta da ONU.

Gabão, México, França, Albânia e Reino Unido também apoiaram o texto. "Há uma violação clara da Carta da ONU e uma agressão", disse a delegação mexicana. "Sofremos quatro invasões. Duas pela França e duas pelos EUA. Só uma delas gerou a perda de metade de nosso território", lembraram os latino-americanos.

Visivelmente decepcionado pelo resultado da votação, o secretário-geral da ONU, Antônio Guterres, destacou como nesta sexta-feira (25) sua entidade fracassou em atingir seu mandato. Mas ele insistiu em apelar para que as tropas russas "retornem para suas casernas".

Brasil diz que "linha foi cruzada", mas negociou espaço para diálogo

Em um discurso duro contra a Rússia, o embaixador do Brasil na ONU, Ronaldo Costa Filho, alertou que o mundo vive um momento "sem precedentes" e uma "violação da Carta da ONU". Segundo ele, o Brasil está "profundamente preocupado" com a operação militar russa e alertou que "uma linha foi cruzada".

O Itamaraty ainda rejeitou a tese dos russos de que sua ação teria, como argumento, a necessidade de garantir um equilíbrio de segurança na ONU diante da expansão da Otan. Para Costa Filho, isso "não dá direito de ameaçar outro estado".

Mapa Otan - Arte/UOL - Arte/UOL
Imagem: Arte/UOL

Diante do veto da Rússia ao texto, o embaixador brasileiro "lamentou" o fato de que o Conselho não pode reagir a uma violação.

O Itamaraty, porém, insistiu que o apoio à resolução e pedir a retirada das tropas não podem ser os pontos finais do trabalho do Conselho. Segundo o embaixador, na negociação do texto, o Brasil tentou incluir uma linguagem que estabelecesse um "equilíbrio", justamente para dar espaço para o diálogo.

Para o embaixador brasileiro, ameaças e força não funcionarão. "Não há alternativa à negociação", insistiu.

Ao explicar a posição do Itamaraty, ele indicou que o Brasil trabalhou a favor de um texto que permitisse um diálogo, enquanto também mandasse um "recado forte" de defesa dos princípios do direito internacional.

Segundo Costa Filho, ao incluir no texto o termo "ato de agressão", a resolução mostrou como a situação atual é grave. Mas ele alertou sobre o risco de que o mesmo termo não seja usado em outras ocasiões.

"Poderia ter sido um texto de mais reconciliação", lamentou o diplomata. Para ele, o risco agora é de uma marginalização do Conselho de Segurança da ONU. "A paralisia poderia levar à sua irrelevância, justamente quando mais precisamos dele", completou.

Brasil estava sob pressão

Ainda que o Brasil tenha apoiado o texto, as dúvidas persistiam sobre como o governo Bolsonaro agiria. Antes da votação, o secretário de Estado norte-americano, Antony Blinken, telefonou ao chanceler Carlos França para pedir o apoio do Brasil ao projeto.

A Casa Branca já havia criticado publicamente o governo Bolsonaro por seu comportamento diante de Putin e o silêncio do presidente nas primeiras horas da guerra deixou a comunidade internacional preocupada.

Nesta sexta-feira, embaixadores europeus também foram até o Itamaraty, pressionar por um esclarecimento por parte do governo sobre sua postura na resolução na ONU.

Na noite de quinta-feira (24), o chefe da diplomacia brasileira conversou com Bolsonaro e explicou que a posição do país era insustentável e ameaçava isolar ainda mais o governo.

Nas últimas semanas, conforme o UOL revelou há dez dias, o governo brasileiro vinha adotando uma ginástica diplomática para manter uma relação positiva tanto com os russos como com o Ocidente. Na declaração emitida pelo Itamaraty, na quinta-feira, o governo evitou condenar Vladimir Putin. Mas indicou que havia uma violação clara dos princípios da ONU.

Nem todos no governo, porém, adotam a mesma postura. Bolsonaro vem resistindo a fazer críticas diretas ao presidente Putin, inclusive desqualificando comentários do vice-presidente, Hamilton Mourão, contra o russo.

Mas, diante de uma resolução e da exigência de um voto brasileiro, o Itamaraty convenceu o Executivo de que as atitudes de Putin violaram o direito internacional e a Carta da ONU.

A postura de hesitação de Bolsonaro ocorre depois de uma viagem para Moscou na qual ele conseguiu ser recebido por um líder internacional de peso. Já antes da ida ao Kremlin, o governo adotou uma atitude de evitar criticar o russo, sem romper totalmente com americanos e europeus.