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Josmar Jozino

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Polícia Civil investiga imagens de ação de PMs da Rota que deixou 2 mortos

Imagens gravadas em rua de SP mostram PMs da Rota ao lado de carro parado em ação que resultou na morte de dois suspeitos - Reprodução
Imagens gravadas em rua de SP mostram PMs da Rota ao lado de carro parado em ação que resultou na morte de dois suspeitos Imagem: Reprodução
Josmar Jozino

Sobre o Autor - Josmar Jozino é jornalista desde 1985. Autor de quatro livros, sendo três sobre crime organizado entre eles, "Cobras e Lagartos", obra referência sobre a facção criminosa PCC que recebeu menção honrosa do Prêmio Jornalístico Vladimir Herzog em 2005

Colunista do UOL

27/04/2021 04h00

O DHPP (Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa), da Polícia Civil, analisa imagens feitas com telefone celular por moradores da rua Simões Borges, na Vila Maria, zona norte de SP, onde dois homens foram mortos em suposto tiroteio com policiais militares da Rota (Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar).

As imagens, às quais o UOL teve acesso, mostram um homem aparentemente já dominado, ajoelhado e com as mãos para trás na calçada, na altura do número 396 da rua. Ao lado dele aparece um policial militar agachado, como se estivesse procurando algo no chão. Em seguida uma viatura da Rota chega e estaciona no local.

Investigadores do DHPP querem saber se o homem ajoelhado era Everton da Costa Campos, 41 anos, um dos mortos na ação. Ele morreu durante cirurgia no Hospital Municipal Vereador José Storopolli, na Vila Maria.

O Departamento de Homicídios apura se Everton foi baleado dentro de um Kia Sportage ou quando já tinha desembarcado do veículo, e também quanto tempo esperou até ser socorrido.

O veículo era dirigido por Douglas Nestor de França, 41 anos. Ele morreu sentado no banco do motorista. Testemunhas disseram ter visto o corpo dele na calçada antes da chegada da perícia. Segundo a Polícia Civil, Douglas já foi condenado por tráfico de drogas e Everton processado por furto.

Os PMs da Rota alegam que foram abordar o Kia Sportage ocupado por dois indivíduos armados e foram recebidos a tiros. Os policiais disseram que revidaram.

Segundo versão dos PMs, Douglas portava um fuzil Colt calibre 223 com 59 cartuchos intactos, uma pistola calibre 380 com 12 projéteis íntegros e levava no carro uma mochila com 20 tijolos de maconha. Os PMs acrescentaram que Everton estava com revólver calibre 38 com seis cápsulas não deflagradas.

Moradores da rua Simões Borges ouviram barulho de tiros e saíram à janela. Alguns fizeram filmagens com o telefone celular. Everton morava perto da rua onde foi baleado. Há informações de que ele chegou a gritar pedindo ajuda e implorando para não ser socorrido pelos PMs da Rota.

O Kia Sportage tinha rastreador. Documentos aos quais o UOL teve acesso mostram que o veículo trafegava a 27 km/h às 18h38min09s quando entrou na rua Simões Borges. Segundo investigadores, a velocidade lenta sinaliza que não houve perseguição policial.

No boletim de ocorrência registrado pelo DHPP consta que o fato aconteceu às 18h40 e que a mensagem de assessoramento à Divisão de Homicídios chegou às 23h57, pouco mais de cinco horas após o ocorrido. Uma equipe de policiais civis saiu do DHPP à 0h10 do dia 8 de abril, chegou no local à 0h20 e encerrou os trabalhos às 2h10.

Nas gravações feitas por telefone celular, moradores do bairro comentam com pessoas próximas que o motorista foi baleado e perdeu o controle da direção do Kia Sportage, que bateu contra o muro de uma residência.

Pessoas ligadas a Douglas afirmaram à reportagem que ele tinha uma agência de veículos na avenida Curuçá, voltava do trabalho e dava uma carona para Everton, funcionário dele, cuja função era lavar e limpar os carros.

Procurada pelo UOL, a Polícia Militar afirmou que o "suspeito mencionado se rendeu" e "já estava ferido em virtude do confronto" que teve com os policiais. "Ao ser socorrido, encontrava-se consciente e faleceu após seis horas dos acontecimentos", afirmou a PM por meio de nota.

Câmeras no uniforme

No ano passado, policiais militares da Rota se envolveram em outra ocorrência semelhante na também Vila Maria. Um veículo foi abordado e um homem morreu em suposto tiroteio.

O caso aconteceu no dia 23 de setembro na avenida Benedito Estevão dos Santos. PMs da Rota disseram que realizavam uma operação no bairro para apurar denúncia anônima de transporte de drogas e armas por um integrante do PCC (Primeiro Comando da Capital).

Os PMs afirmaram ao DHPP que avistaram um Hyundai HB-20 na referida avenida, deram sinal para o motorista parar, mas ele passou a atirar contra os policiais, que revidaram com tiros de metralhadora e pistolas.

Segundo os PMs, no veículo havia um fuzil calibre 553, uma pistola calibre 40 e 11 tijolos de cocaína. O homem morto foi identificado como Adauri Bueno, 49 anos. Ele já respondeu a processo por formação de quadrilha junto com líderes do PCC.

Ocorrências da Rota como essas duas registradas na Vila Maria só deixarão de ser cercadas por dúvidas a partir do próximo mês, quando os homens da tropa mais letal da Polícia Militar passarão a usar câmeras de monitoramento acopladas à farda.

A Polícia Militar vai receber 2.500 aparelhos. Os equipamentos devem gravar imagens e áudios durante 12 horas seguidas. O período corresponde ao turno de cada policial no patrulhamento ostensivo ou preventivo.

Para Rafael Alcadipani, professor de gestão pública da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo, as câmeras são bem-vindas, mas não resolverão o problema da letalidade.

É necessário acabar com a cultura do confronto. As câmeras trarão transparência e maior efetividade da atividade policial. É bom que se tenha. Mas não resolverão todos problemas. Precisamos de uma polícia técnica, que aja na legalidade, para ter justiça"
Rafael Alcadipani, professor da FGV-SP

Por meio de nota, a PM diz que o objetivo principal das câmeras é "justamente o poder dissuasório que ela exerce aos cidadãos que, ao saberem que estão sendo filmados, são mais solícitos e obedecem as ordens legais emanadas pelos agentes da lei".

"Também será importante para que o policial atente ao cumprimento exato dos protocolos da instituição", diz a Polícia Militar.