PUBLICIDADE
Topo

Josmar Jozino

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Comparsa de Marcola, Fuminho participa de 1ª audiência 21 anos após fuga

Josmar Jozino

Sobre o Autor - Josmar Jozino é jornalista desde 1985. Autor de quatro livros, sendo três sobre crime organizado entre eles, "Cobras e Lagartos", obra referência sobre a facção criminosa PCC que recebeu menção honrosa do Prêmio Jornalístico Vladimir Herzog em 2005

Colunista do UOL

11/05/2021 04h00Atualizada em 11/05/2021 07h39

O preso Gilberto Aparecido dos Santos, 50, o Fuminho, braço direito de Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola, 53, tido como principal líder do PCC (Primeiro Comando da Capital), participou no mês passado de audiência judicial pela primeira vez depois de ter ficado 21 anos foragido.

Por causa de problemas técnicos na sala de videoconferência da Penitenciária Federal de Catanduvas, no Paraná, onde Fuminho está detido desde abril do ano passado, o preso teve de acompanhar a audiência em uma cela improvisada como sala, sob protesto do defensor dele.

Era uma audiência de instrução no processo sobre os assassinatos de Rogério Jeremias de Simone, o Gegê do Mangue, e Fabiano Alves de Souza, o Paca, mortos a tiros em fevereiro de 2018 em uma aldeia indígena de Aquiraz, na região metropolitana de Fortaleza, no Ceará.

Investigações da Polícia Federal e da Polícia Civil do Ceará apontaram que Fuminho foi o mandante do duplo homicídio. Desde que fugiu da Casa de Detenção, no Carandiru, zona norte de São Paulo, o prisioneiro jamais havia participado de audiência judicial.

Fuminho nem se lembrava mais como era um interrogatório ou uma sessão judicial com depoimentos de testemunhas de defesa e de acusação. E também não tinha ideia de como funcionavam as audiências virtuais nos presídios federais.

O prisioneiro vestia camiseta azul, cor do uniforme da penitenciária, com a inscrição "interno". Ele também usava uma máscara de proteção por causa da pandemia de covid-19. Fuminho estava sem algemas e permaneceu boa parte do tempo sentado, com os braços cruzados, ao lado de seu defensor.

Em certa ocasião, ele deixou os óculos de lado. Inconformado com a realização da videoconferência em uma cela com grades — que considerou apertada e abafada —, o defensor de Fuminho reclamou ao colegiado de juízes e chegou até a se levantar da cadeira para mostrar o local aos magistrados.

Tudo isso era novidade para Fuminho. Pelo menos até o dia 14 do mês passado, quando participou pela primeira vez, como presidiário, da videoconferência. Da cela onde estava, ele pode ver outros réus no mesmo processo, como André Luiz da Cosa Lopes, o Andrezinho da Baixada, e Carlenito Pereira Maltas.

Ambos participaram da audiência da Penitenciária Federal de Brasília. No Presídio Federal de Campo Grande (MS), acompanhava tudo atentamente o piloto de helicóptero Felipe Ramos Morais, 34. Foi ele quem transportou Gegê do Mangue e Paca no chamado voo da morte.

O UOL teve acesso, no mês passado, aos vídeos da audiência. Participaram da sessão um colegiado de juízes do Tribunal de Justiça do Ceará e promotores de Justiça. Os presos não prestaram depoimento e foram assistidos por seus respectivos advogados.

O piloto Felipe, autor de delação premiada contra os integrantes do PCC foi solto dias depois da audiência. Graças à colaboração dele, a Polícia Federal desarticulou o maior braço financeiro do PCC, em várias operações deflagradas, e prendeu dezenas de pessoas. Ele é considerado o inimigo número um da facção criminosa.

Na audiência de instrução só depuserem policiais que participaram direta ou indiretamente das investigações das mortes de Gegê do Mangue e Paca. Os réus deverão prestar depoimento — também virtual — durante três dias na primeira semana do mês que vem.

Os advogados dos réus pediram a revogação da prisão preventiva dos acusados, alegando que não há provas contra os mesmos e que os elementos que os ligam à suposta trama criminosa são três denúncias anônimas e uma delação não homologada feita pelo piloto Felipe.

Gilberto Aparecido dos Santos foi preso em 13 de abril do ano passado na Cidade de Maputo, em Moçambique, na África. Ele foi capturado por agentes da Interpol (Polícia Internacional) e DEA (Drug Enforcement Administration), órgão da Polícia Federal do Departamento de Justiça dos Estados Unidos, responsável pelo combate ao narcotráfico.

Fuminho estava em um hotel, em companhia de dois nigerianos, quando foi surpreendido pelos policiais. Segundo a Polícia Federal brasileira, com ele foram apreendidos 100 g de maconha, moedas estrangeiras, 15 aparelhos de telefone celular e um documento falso. O preso é acusado de ser um dos maiores exportadores de cocaína para a Europa e responde a processo por tráfico de drogas em São Paulo.