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Uma iniciativa do UOL para checagem e esclarecimento de fatos


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Em CPI, Wajngarten omite campanha contra isolamento e contradiz entrevista

12.mai.2021 - UOL Confere: Fábio Wajngarten, ex-chefe da Secom, depõe na CPI da Covid no Senado - Edilson Rodrigues/Agência Senado
12.mai.2021 - UOL Confere: Fábio Wajngarten, ex-chefe da Secom, depõe na CPI da Covid no Senado Imagem: Edilson Rodrigues/Agência Senado

Bernardo Barbosa, Beatriz Montesanti e Vitor Pamplona

Do UOL e colaboração para o UOL, em São Paulo

12/05/2021 12h25Atualizada em 12/05/2021 19h18

Em depoimento à CPI da Covid no Senado hoje (12), Fábio Wajngarten, ex-chefe da Secom (Secretaria de Comunicação da Presidência da República), omitiu que o governo federal fez uma campanha de comunicação contrária ao isolamento social. Além disso, o ex-secretário contradisse sua própria entrevista à revista "Veja" na qual avaliou que houve incompetência no Ministério da Saúde sob a gestão de Eduardo Pazuello.

O UOL Confere checou as principais declarações de Wajngarten à CPI. Veja a seguir:

Ex-secretário contradiz fala sobre gestão de Pazuello

A revista [Veja] não diz isso, e eu não chamei [Pazuello de incompetente]. Basta ler a revista. Não chamei.
Fábio Wajngarten na CPI da Covid

Em entrevista publicada pela revista "Veja" no fim de abril, Wajngarten de fato não cita Pazuello nominalmente como "incompentente", mas culpa a gestão dele no Ministério da Saúde por não ter fechado um acordo para a compra de vacinas da Pfizer ainda em meados de 2020.

Perguntado pela revista sobre o que explicava o acordo não ter ocorrido no segundo semestre de 2020, Wajngarten respondeu: "Incompetência e ineficiência." Questionado em seguida se estava se referindo a Pazuello, o ex-secretário declarou: "Estou me referindo à equipe que gerenciava o Ministério da Saúde nesse período."

À tarde, Wajngarten voltou a ser questionado sobre a entrevista e negou ter dito a "Veja" que Pazuello era incompetente. Com isso, a revista divulgou um trecho do áudio da entrevista no qual, segundo a publicação, Wajngarten foi perguntado se teria havido incompetência ou negligência do governo, particularmente do Ministério da Saúde, em relação à compra das vacinas da Pfizer. Wajngarten responde: "Incompetência, incompetência". O áudio não traz o contexto completo da pergunta.

Pazuello foi ministro da Saúde interino entre maio e setembro de 2020, quando foi efetivado no cargo. Ele deixou o cargo em março.

O primeiro contrato para a compra de vacinas da Pfizer para a covid-19 só foi fechado pelo governo federal em março deste ano.

Wajngarten omite campanha contra isolamento social

Nós tivemos, em todos os meses, desde fevereiro de 2020, campanhas informativas, campanhas educativas, campanhas publicitárias, totalizando 11, sendo quatro da Secom e sete do Ministério da Saúde.
Fábio Wajngarten na CPI da Covid

Ao relacionar as campanhas mês a mês na CPI da Covid, o ex-chefe da Secom declarou que em março de 2020 foi realizada apenas uma campanha do Ministério da Saúde sobre "medidas de prevenção, informações e sintomas, protocolos e orientações".

Wajngarten não citou, no entanto, a campanha "O Brasil não pode parar", produzida pelo governo federal naquele mês. A ação publicitária criticava medidas de isolamento social como estratégia de combate à covid e chegou a ser suspensa pela Justiça Federal do Rio de Janeiro.

Além disso, segundo reportagem do jornal "O Globo", a própria Secom reconheceu, em documento enviado à Casa Civil em abril, as peças publicitárias sobre covid-19 produzidas pelo órgão focaram mais ações do governo do que medidas de orientação ou prevenção contra a covid.

Segundo a descrição do órgão, seis campanhas tiveram como objetivo principal divulgar medidas do governo, quatro foram sobre práticas de prevenção e para informar sobre a vacinação, e duas divulgaram serviços ligados à pandemia — um aplicativo do SUS e um programa de convocação de estudantes de medicina.

Um relatório do TCU (Tribunal de Contas da União) de dezembro do ano passado já havia apontado que o governo federal gastou mais recursos com campanhas de divulgação de medidas econômicas do que em ações informativas sobre combate e prevenção da covid-19, mostrou a Folha.

De acordo com o TCU, dos R$ 83,6 milhões gastos até então em campanhas publicitárias com foco na pandemia, apenas R$ 800 mil tinham sido usados para divulgar informações sobre o coronavírus.

Campanha contra isolamento foi veiculada em perfil do governo

Em nenhum momento, ela [a campanha 'O Brasil não pode parar'] foi autorizada (...) e circulou no grupo do Whatsapp de ministros. (...) Ela não chegou a ser veiculada.
Fábio Wajngarten na CPI da Covid

Ao contrário do que afirmou Wajngarten, posts da campanha com o slogan "O Brasil não pode parar" foram publicados nos perfis oficiais da Secom no Twitter e no Instagram em 24 de março de 2020, mas foram apagados poucos dias depois.

O conteúdo criticava medidas de isolamento social e incentivava o retorno ao trabalho, contrariando recomendações de especialistas, a orientação da OMS (Organização Mundial de Saúde) e medidas adotadas por prefeituras e governos estaduais.

Os posts foram apagados depois que a ação publicitária teve repercussão judicial negativa — a juíza Laura Bastos Carvalho, da Justiça Federal do Rio de Janeiro, proibiu o governo de divulgar a campanha. Imagens das publicações, porém, ainda circulam na internet.

Um vídeo da campanha, com a logomarca oficial do governo federal ao fim, também foi divulgado no Facebook pelo senador Flavio Bolsonaro (Republicanos-RJ), filho do presidente Jair Bolsonaro. Até esta quarta-feira, o vídeo seguia no ar no perfil oficial do senador na rede social.

Segundo comunicado divulgado pela Secom após a peça começar a circular em outras redes, como o WhatsApp, tratava-se de vídeo "produzido em caráter experimental, portanto, a custo zero e sem avaliação e aprovação da Secom". Na nota, a secretaria reiterou que não gastou dinheiro público na elaboração da campanha.

De acordo com reportagem da agência Reuters, reproduzida pelo UOL, a ação teria custado R$ 4,9 milhões e foi encomendada pelo Palácio do Planalto sem consulta ao Ministério da Saúde.

Wajngarten se contradiz sobre conversas com Pfizer

Nunca, nunca participei de negociação [sobre vacinas], senador.
Fábio Wajngarten na CPI da Covid

Na entrevista para "Veja", Wajngarten afirmou que teve conversas com diretores da Pfizer sobre a compra da vacina para covid-19. O ex-secretário não só disse ter se colocado "à disposição para negociar com a empresa", como declarou que abriu as portas do Palácio do Planalto para a farmacêutica. Depois disso, afirmou Wajngarten, "as negociações avançaram muito".

O ex-chefe da Secom também contradisse sua entrevista a "Veja" ao declarar na CPI que não houve nenhum aval do presidente Jair Bolsonaro para que atuasse em prol das vacinas. À revista, Wajngarten declarou: "Antevi os riscos da falta de vacina e mobilizei com o aval do presidente vários setores da sociedade."

Posts desmentem Wajngarten sobre seguir ciência

À medida que os tratamentos foram evoluindo, à medida que a ciência trouxe novidades e novas informações, a comunicação ficou paralela às informações de aprendizado da pandemia.
Fábio Wajngarten na CPI da Covid

Apesar de Wajngarten ter afirmado que a área de comunicação do governo seguiu as recomendações da ciência quanto aos tratamentos da covid-19, a Secom fez postagens em suas redes sociais incentivando o uso de medicamentos sem eficácia comprovada, como a cloroquina e a hidroxicloroquina, mesmo após a publicação de estudos que mostravam o contrário.

Ao longo de 2020, o órgão do governo defendeu em mais de uma ocasião em seu perfil no Twitter medicamentos sem eficácia ou o suposto "tratamento precoce" da Covid, inclusive com orientações para uso de cloroquina em crianças, gestantes e adolescentes diagnosticados (veja aqui, aqui, e aqui).

Desde o fim de abril, no entanto, estudos feitos com milhares de pessoas já apontavam a ineficácia da cloroquina contra o novo coronavírus.

Um dos primeiros foi uma revisão de uma pesquisa no Brasil, interrompida após a morte de 11 pacientes que tomaram o remédio. Os cientistas que participaram do estudo recomendaram que altas doses de cloroquina não deviam ser receitadas a pessoas com covid-19 em estágio grave.

Na mesma época, a FDA, órgão equivalente à Anvisa nos Estados Unidos, publicou um comunicado afirmando que "não há provas de que hidroxicloroquina e cloroquina sejam seguras ou eficazes para tratar e prevenir a Covid-19".

No começo de maio de 2020, duas grandes pesquisas — as maiores até então — já traziam dados robustos indicando a ineficácia dos medicamentos recomendados nas redes sociais da Secom.

Em 8 de maio, o UOL publicou reportagem sobre as conclusões de um estudo divulgado no dia anterior pelo periódico científico New England Journal of Medicine. A pesquisa, feita com mais de 1.376 pessoas e liderada por cientistas da Universidade Columbia (EUA), apontou que pacientes da covid-19 tratados com hidroxicloroquina não apresentaram resultados melhores do que aqueles que não receberam o medicamento.

Em 11 de maio, a revista Jama (Journal of the American Medical Association) publicou os resultados de outro estudo clínico, desta vez com 1.438 pacientes. Segundo a publicação, os cientistas não encontraram indícios de redução de mortalidade por covid-19 nas pessoas medicadas com hidroxicloroquina.

Wajngarten se contradiz sobre afastamento durante covid-19

É só para frisar aqui que, exatamente nesse período, era o mês de março [de 2020], mês em que eu estava totalmente ausente da Secom desde o começo.
Fábio Wajngarten na CPI da Covid

O ex-ministro alegou estar fora de suas funções no período em que a campanha denominada "O Brasil não pode parar" foi veiculada, em março de 2020, por ter sido diagnosticado com covid-19 e isolado em casa.

No entanto, em uma live feita com o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) no dia 14 daquele mês, Wajngarten disse estar trabalhando de casa, apesar da doença. Chegou a afirmar, inclusive, que seguia aprovando as campanhas do governo.

"Eu estou trabalhando normal, tenho feito call com ministros, com a Secom, tenho aprovado campanhas, conversado com os criativos das agências de publicidade. A vida segue", disse Wajngarten na transmissão.

Também na CPI, o ex-ministro disse não recordar se a campanha em questão era de autoria de sua pasta, embora a peça publicitária, em defesa da flexibilização do isolamento social, tenha sido veiculada nos meios oficiais do governo e depois apagada.

Wajngarten distorce histórico de Bolsonaro sobre vacinas

O presidente Bolsonaro sempre disse, senador, que compraria toda e qualquer vacina, uma vez autorizada pela Anvisa.
Fábio Wajngarten na CPI da Covid

Apesar de uma mudança recente de discurso, por reiteradas vezes Bolsonaro desacreditou a vacinação como forma de combate à covid-19, ironizando seus efeitos, defendendo a não obrigatoriedade da vacina em campanhas oficiais do governo e, inclusive, se recusando a ser vacinado.


Além disso, o governo é acusado de ter recusado ofertas de compras de imunizantes feitas tanto pelo Butantan como pela americana Pfizer. A demora na compra antecipada de vacinas, ainda em 2020, já foi apontada por profissionais da área de saúde como o maior erro que levou à demora na vacinação para covid-19 no Brasil.

Em março, em posicionamento contrário ao manifestado em outras ocasiões por Bolsonaro, o UOL mostrou que o governo havia incluído em seu cronograma pelo menos três imunizantes que, naquele momento, ainda não tinham sido aprovados pela Anvisa.

Imprensa noticiou interferências na Secom

Eu sempre tive toda a liberdade possível para comandar a Secretaria Especial de Comunicação, sem absolutamente nenhuma interferência de ninguém.
Fábio Wajngarten na CPI da Covid

Apesar de Wajngarten ter afastado uma eventual interferência do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) na Secom, a imprensa noticiou casos de ingerência do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e do vereador Carlos Bolsonaro, filho do presidente, na comunicação do governo, por meio da Secom, durante a gestão do ex-secretário.

Wajngarten assumiu a Secom no começo de abril de 2019. Naquele mesmo mês, depois de um comercial do Banco do Brasil que falava de diversidade racial e sexual, Bolsonaro determinou que estatais deveriam submeter suas campanhas publicitárias à secretaria, noticiou a Folha. Carlos Bolsonaro atacou publicamente a comunicação do governo.

Em maio do ano passado, a Folha publicou que o Banco do Brasil desistiu de retirar anúncios de um site acusado de veicular fake news depois de uma reclamação de Carlos Bolsonaro. No Twitter, em 20 de maio de 2020, Wajngarten disse: "Nem toda a comunicação do que é público depende de nós, mas já estamos contornando a situação."

Hoje, o UOL publicou outra notícia que aponta para a influência de Carlos Bolsonaro na Secom, hoje chefiada por André de Sousa Costa. A informação é de que nomes ligados ao filho do presidente devem substituir indicados por Wajngarten. Na semana passada, o jornal "O Globo" noticiou que Carlos Bolsonaro assumiu a comunicação do pai em paralelo à CPI da Covid e, com isso, a Secom teria ficado inclusive sem informações sobre o presidente.

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