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Cotidiano

"Sempre foi assim", diz morador da Lapa (RJ) após aumento da violência

Hanrrikson de Andrade

Do UOL, no Rio

06/01/2014 06h00

Em 2013, os roubos nas ruas da Lapa e do entorno, no centro histórico do Rio de Janeiro, aumentaram mais de 50% em relação ao ano anterior, na comparação entre os meses de junho, julho, agosto e setembro. O indicador de roubo a transeunte --a exemplo do crime que vitimou o jovem Conrado Chaves da Paz, 19, assassinado quando voltava de uma festa na Lapa-- cresceu 57,14%.

Violência em áreas turísticas

  • Arte/UOL

    Veja os números de casos de furtos e roubos em bairros como Copacabana, Ipanema, Lapa e Santa Teresa

Para os moradores e comerciantes que trabalham no bairro, os sucessivos casos de violência não chegam a ser uma "novidade". Na visão do mestre de capoeira Jocimar Batista, que mora na Lapa há 23 anos, os delitos de rua sempre ocorreram com frequência nas ruas e esquinas do bairro, sem que o poder público tomasse alguma medida mais efetiva.

"A Lapa sempre foi assim. Agora está no noticiário, mas quando acontece algum crime aqui, todo mundo fica sabendo", disse ele. "Eu vejo pessoas sendo assaltadas aqui praticamente todos os dias. Isso não é uma novidade", completou o comerciante Ronaldo Serra, 45.

Em nota, a Secretaria de Estado de Segurança Pública informou que, a partir deste mês, serão inauguradas dez companhias destacadas da Polícia Militar a fim de reforçar o patrulhamento urbano. A PM está à espera da formatura de 600 recrutas.

VOCÊ LEMBRA?

Além disso, informou a Seseg, "a Polícia Civil formou este mês 1.114 inspetores e 135 delegados, que serão deslocados para as Delegacias de Homicídios da Baixada e Niterói e no recompletamento das delegacias distritais. Com essa medidas, a secretaria espera obter redução nos índices".

Em 2013, o acumulado de roubos de rua no quadrimestre foi de 755 ocorrências na delegacia da região (5ª DP), 258 a mais do que o acumulado do ano anterior. O indicador de roubo a transeunte passou de 336 ocorrências, de junho a setembro de 2012, para 528 casos no quadrimestre do ano passado. Já o indicador de roubo a celular aumentou 125,93% --de 27 para 61 casos. O indicador de furtos, por sua vez, apresentou redução de 6,9% --de 1.796 para 1.672.

O levantamento feito pelo UOL com base em dados do ISP (Instituto de Segurança Pública) mostra que a maior variação ocorreu em setembro de 2013, na comparação com o mesmo mês de 2012. Na categoria roubo a transeunte, a 5ª DP teve 93 ocorrências a mais; os roubos de rua, por sua vez, cresceram 123% --114 casos a mais.

  • Júlio César Guimarães/UOL

    Jocimar Batista afirma ser morador da Lapa há 23 anos. Segundo ele, o clima de insegurança sempre foi uma característica do bairro

Já o mês de julho foi o mais tranquilo na série histórica. Em comparação com o mesmo mês de 2012, houve reduções no número de roubo a transeunte (sete casos a menos), de roubos em geral (oito a menos), de furtos (29 a menos) e de boletins de ocorrência registrados na 5ª DP (69 a menos).

Para o cientista político e diretor do Iuperj (Instituto Universitário de Pesquisas do Rio), Geraldo Tadeu Monteiro, a Lapa é um bairro que apresenta demandas não só em relação ao policiamento, mas também quanto à assistência social.

"Quando você passa ali da Riachuelo e da área da Mem de Sá que concentra os bares e restaurantes, a Lapa é terra de ninguém. Tradicionalmente, a Lapa mistura prostituição, contravenção, consumo de drogas, entre outras coisas. A Lapa sempre teve essa característica. Não adianta só colocar policial na rua, esse esforço tem que vir acompanhado de um trabalho de assistência social, com a ação de vários órgãos", disse.

CALVÁRIO DO TURISTA

  • Eduardo Naddar/Agência O Globo

    3.jan.2014 Cerca de cem pessoas ficaram presas durante duas horas em um dos trens do Corcovado, na última sexta-feira (3). A composição apresentou um problema técnico

  • Néstor J. Beremblum/Brazil Phoo Press/Estadão Conteúdo

    3.jan.2014 Os turistas que visitam o Rio sofrem com a onda de forte calor na cidade. Na última sexta (3), a sensação térmica chegou a 50ºC,. As praias ficaram lotadas

  • Fernando Siqueira/AFP

    1.jan.2014 - Um tiroteio assustou os turistas que passavam pela avenida Nossa Senhora de Copacabana, a poucos minutos da queima de fogos do Réveillon em Copacabana

  • Márcia Foletto/Agência O Globo

    30.dez.2013 - Turistas enfrentam filas para pegar a van no Cosme Velho até o Corcovado, no Rio de Janeiro. O tempo de espera para as vans que levam até o ponto turístico era, em média, de duas horas

  • Agência O Dia/Conteúdo Estadão

    26.dez.2013 - Os espanhóis Cristian (camiseta vermelha) e Alejandro (verde) são resgatados após se perderem numa trilha da Floresta da Tijuca

  • Reprodução

    1.abr.2013 - Uma turista norte-americana foi estuprada dentro de uma van por três homens na frente do namorado da vítima. O caso ganhou repercussão internacional

Já o antropólogo Roberto Kant de Lima, da UFF (Universidade Federal Fluminense), afirmou ser mais complexa a análise dos números coletados pelo ISP, e que as variações não necessariamente significam que as áreas turísticas estão ou não mais violentas."Roubo a turista? Um monte de gente que eu conheço que foi roubada na Espanha, na França, em Nova York, em Paris. É o que mais tem", disse.

Monteiro afirmou considerar que há uma carência no policiamento ostensivo, o que está diretamente associado com o deslocamento de efetivo para as UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora) e a repressão ao tráfico de drogas.

"A UPP é um projeto importante. Ninguém discute isso. Mas não adianta direcionar a atenção exclusivamente para a favela. Com isso, diminui-se o policiamento ostensivo, e isso ocorre exatamente no momento em que o fluxo de turistas é cada vez maior. Cria-se um ambiente extremamente desfavorável a essa pequena criminalidade", afirmou.

"O problema está nos acessos e nas ruas de dentro. Na zona sul, por exemplo, você tem a polícia no calçadão. Na praia. Mas você pode ter mil pequenos arrastões que nunca vão ter a mesma atenção da imprensa e do Estado. São bandos de jovens que atacam uma determinada vítima considerada mais frágil. Às vezes não estão nem armados", completou.

Na visão do presidente do SindRio (Sindicato de Hotéis, Bares e Restaurantes do Rio), Pedro de Lamare, o aumento dos indicadores de criminalidade também está vinculado à política das UPPs, uma vez que o tráfico de drogas seria "asfixiado", segundo ele, fazendo com que criminosos buscassem outras formas de obter dinheiro.

"A sensação de segurança, vivida intensamente nos primeiros anos de implantação das UPPs, foi reduzida em 2013, como mostram as estatísticas. Nas áreas turísticas, essa sensação é ainda mais palpável, com furto de celulares e assaltos a pedestres e, também, a bares, restaurantes e albergues. Este aumento é consequência direta da ação policial nas comunidades. Com o tráfico asfixiado, a fonte de renda de algumas pessoas envolvidas com esta engrenagem precisou ser deslocada para outras áreas", disse.

Lamara afirma acreditar, porém, que o crescimento da criminalidade em bairros turísticos não vai "impactar na maneira como Rio vem sendo visto dentro do país e no exterior".

"Qualquer grande metrópole no mundo sofre com turistas tendo celulares e carteiras levados, além da prática de outros pequenos golpes. Com o Rio, que vem recebendo cada vez mais visitantes, não seria diferente, mas é preciso aumentar o policiamento nas áreas em épocas críticas, como Carnaval e Réveillon. É nos momentos de aglomeração que há mais casos e eles são mais simples de serem evitados", declarou.

O potiguar Felipi Marques, 23, e a namorada, Virginia Bezerra, 25, estiveram na Escadaria da Lapa, um dos principais cartões postais do bairro, em dezembro do ano passado. Marques, que já havia visitado a Lapa há dois anos, disse ter notado um aumento no número de policiais militares patrulhando o local.

ESCADARIA É UM DOS ALVOS PREFERENCIAIS DE CRIMINOSOS

  • Reprodução/Facebook

    As áreas definidas como as mais perigosas pela Secretaria de Segurança são as ruas Joaquim Silva, que está próxima aos Arcos da Lapa e à Escadaria da Lapa (foto) --também conhecida como Escadaria Selarón--, Mem de Sá --onde há intensa movimentação em razão do grande número de bares e restaurantes, Lavradio e Gomes Freire, além dos acessos a Santa Teresa pela rua do Riachuelo

"Hoje eu vi quatro PMs somente aqui na escadaria. (...) Um deles disse que a gente deveria ter cuidado porque o ambiente não está muito bom", disse ele.

  • Júlio César Guimarães/UOL

    O casal Filipi Marques e Virginia Bezerra saiu do Rio Grande do Norte para conhecer a tradicional Escadaria da Lapa. Eles ouviram de um policial militar que o ambiente "não estava muito bom", em referência aos recentes casos de violência

Operação Lapa Presente

Na última quarta-feira (1º), equipes formadas por policiais militares, guardas municipais, assistentes sociais e outros servidores públicos deram início à "Operação Lapa Presente". As ações ocorreram diariamente das 21h30 às 5h30. No primeiro dia, 35 pessoas foram presas por posse de entorpecentes, sendo que um dos detidos também foi flagrado portando arma branca. Além disso, 26 moradores de rua foram acolhidos.

De acordo com o comandante da Operação Lapa Presente, o major da PM Rodrigo Cereser --que também está à frente da Operação Lei Seca--, o modelo de patrulhamento permanente foi articulado para ser "uma resposta à escalada da criminalidade na Lapa". Também visa atender às demandas apresentadas por comerciantes em um encontro com o governador Sérgio Cabral (PMDB) em 6 de dezembro, no dia seguinte ao assassinato de Gérson Vaz, dono do Bar do Gérson, durante uma tentativa de assalto.

Veja a área de atuação da operação Lapa Presente

  • Arte/UOL

Trios formados por policiais militares, guardas municipais e agentes da Secretaria de Estado de Governo estão circulando pela Lapa e pelas ruas do centro a fim de evitar crimes como roubo a transeuntes e venda de drogas, entre outros. A ação dos trios é filmada e monitorada, assim como já ocorre durante as blitze da Lei Seca.

Gávea e Tijuca

Entre 2012 e 2013, as delegacias responsáveis pelas regiões da Gávea (15ª DP), da Tijuca e do Alto da Boa Vista (19ª DP) registraram aumento de 135% no indicador de roubo a celular. Também houve crescimento percentual do número de roubos (21,77%) 

Somadas, as distritais tiveram apenas 37 ocorrências entre junho e setembro de 2012. Já no quadrimestre de 2013, foram 87 casos. O perímetro atendido pelas duas delegacias inclui o Parque Nacional da Tijuca --onde estão a Pedra da Gávea, o Corcovado e a Floresta da Tijuca.

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