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Ex-advogada diz que delator da Lava Jato 'tinha medo de chegar a Cunha'

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A advogada Beatriz Catta Preta em entrevista ao "Jornal Nacional" sobre as ameaças que teria recebido de integrantes da CPI da Petrobras Imagem: Reprodução

Do UOL, em São Paulo

2015-07-30T21:07:17

2015-07-31T10:23:07

30/07/2015 21h07Atualizada em 31/07/2015 10h23

Beatriz Catta Preta, ex-advogada de nove delatores da Operação Lava Jato, disse em entrevista exibida nesta quinta-feira (30) no "Jornal Nacional", da TV Globo, que um de seus clientes, o empresário da Toyo Setal Júlio Camargo, tinha "medo de chegar" ao presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), em suas delações.

Beatriz, que deixou os casos envolvendo a Lava Jato no último dia 22 e foi convocada a depor na CPI da Petrobras, também afirmou que está deixando a profissão após receber "ameaças veladas" de integrantes da CPI. "Vamos dizer que aumentou essa pressão, essa tentativa de intimidação a mim e à minha família. Vem dos integrantes da CPI que votaram a favor da minha convocação", disse, sem citar nomes.

Ao ser questionada sobre a origem das pressões e ameaças e se achava que Cunha estava por trás delas, Beatriz disse acreditar que elas vinham "de integrantes da CPI", mas que "não podia afirmar" que o presidente da Câmara tinha envolvimento com elas.

Essas tentativas de perseguição teriam acontecido após a mudança nas declarações de Júlio Camargo à Justiça em regime de delação premiada. O lobista foi preso pela Polícia Federal no âmbito da Lava Jato e em maio deu depoimento dizendo que o intermediário das propinas pelo PMDB era Fernando Antonio Falcão Soares, o Fernando Baiano. Em julho, mudou a versão e disse que Baiano estava sendo pressionado por Cunha para pagamento de propina.

"O deputado Eduardo Cunha é conhecido como uma pessoa agressiva, mas confesso que comigo foi extremamente amistoso, dizendo que ele não tinha nada pessoal contra mim, mas que havia um débito meu com o Fernando e que ele era merecedor de US$ 5 milhões", afirmou Camargo em seu segundo depoimento.

A mudança no depoimento de Camargo ocorreu, segundo a advogada, por conta da "colaboração dele em assumir o risco de levar os fatos à Procuradoria". Todos os depoimentos prestados do lobista estariam, de acordo com a defensora, respaldados por dados, documentos e provas.

A advogada Beatriz Catta Preta recentemente deixou o Brasil e passou alguns dias em Miami (EUA), mas negou relação entre a viagem e as supostas ameaças. "Não estou morando em Miami, saí de férias. Viajo para lá sempre que meus filhos saem de férias", justificou.

Advogados da Lava Jato teriam soltado a informação de que a advogada recebeu R$ 20 milhões para defender seus clientes, o que ela nega. "É um número absurdo, não chega perto disso. O dinheiro veio via transferência bancária no Brasil, mediante nota fiscal e impostos recolhidos. Nunca recebi um centavo fora do país."

Foram clientes de Beatriz em acordos de delação premiada no âmbito da Lava Jato, além de Camargo, o ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa e cinco familiares seus, o ex-gerente da Petrobras Pedro Barusco e o executivo da empreiteira Toyo Setal Augusto Mendonça Neto.

Para seu futuro depoimento à CPI da Petrobras, Beatriz foi orientada pela OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) e pelo próprio presidente do STF (Supremo Tribunal Federal), Ricardo Lewandowski, a não falar sobre questões que envolvam sigilo profissional.

Outro lado

À reportagem do "Jornal Nacional", o advogado de Cunha, Antônio Fernando de Souza, disse que a entrevista da advogada traz "declarações que não fazem sentido e dão a impressão de coisa montada, já que Júlio Camargo já havia negado publicamente" o envolvimento de Cunha no esquema. Eduardo Cunha não quis falar com a reportagem.

O deputado Celso Pansera (PMDB-RJ), que apresentou a convocação de Beatriz à CPI da Petrobras, disse que o fez "dentro do seu direito de deputado e que ela não será intimidada" em sua participação. Disse também que é "ridículo" Beatriz acusar integrantes da CPI de intimidação.

O presidente da CPI da Petrobras, Hugo Motta (PMDB-PB), disse que a convocação foi uma "decisão suprapartidária que afasta a ideia de perseguição" à advogada.

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