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Política

Bolsonaro incita PM contra imprensa em dia de matérias sobre Flávio e Abin

Hanrrikson de Andrade

Do UOL, em Brasília

18/12/2020 11h38Atualizada em 18/12/2020 16h24

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) fez hoje ataques duros à imprensa e, durante uma formatura de policiais militares no Rio de Janeiro, colocou os policiais contra jornalistas. Na visão do governante, a mídia "defende canalhas" e "sempre estará contra" os agentes públicos de segurança.

Os ataques de Bolsonaro ocorrem no dia em que duas reportagens de revistas semanais trazem novos detalhes sobre a suposta ajuda da Abin (Agência Brasileira de Inteligência) à defesa do senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ), seu filho mais velho, no caso das "rachadinhas" na Alerj (Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro).

No aconselhamento aos policiais, Bolsonaro disse que "muitas vezes eles estarão sós" e "terão apenas Deus ao seu lado".

"E, assim sendo, se preparem cada vez mais. Simulem as operações que podem aparecer pela frente", disse ele durante a cerimônia de formatura. A solenidade ocorreu no CFAP (Centro de Formação e Aperfeiçoamento de Praças), em Sulacap, na zona oeste da capital fluminense.

Em uma fração de segundo, está em risco a sua vida, a de um cidadão de bem ou a de um canalha defendido pela imprensa brasileira. Não se esqueçam disso. Essa imprensa jamais estará do lado da verdade, da honra e da lei. Sempre estará contra vocês. Pense dessa forma para poder agir
presidente Jair Bolsonaro (sem partido)

Bolsonaro participou da agenda ao lado de Flávio, do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, e do atual governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro (PSC).

"Jamais a nossa democracia e a nossa liberdade serão ameaçadas por quem quer que seja. Os três poderes são independentes e harmônicos. Mas o maior poder é o do povo brasileiro. Povo esse ao qual eu devo lealdade absoluta", declarou Bolsonaro, que acusou a imprensa de fabricar fake news.

"Não esperemos com palavras gentis ou com gesto de amizade vencer o inimigo. Nós estamos vencendo. Nós venceremos. O Brasil será uma grande nação. E, para isso, contamos com o povo maravilhoso ao nosso lado. E a liberdade das mídias sociais, que essas sim trazem a verdade para vocês. A maior fábrica de fake news está na grande parte da imprensa brasileira. Isso é uma vergonha para o mundo."

Na semana passada, o governo do estado exonerou a tenente-coronel Gabryela Dantas do cargo de porta-voz depois que a PM publicou um vídeo nas redes sociais com ataques a um repórter dos jornais "Extra" e "O Globo". O material divulgado pelos canais oficiais da corporação rebatia uma matéria que, com dados oficiais da própria polícia, mostrou que houve aumento do consumo de munição no batalhão investigado pelas mortes das meninas Emily e Rebeca.

A então porta-voz qualificou o trabalho jornalístico como "covarde e inescrupuloso", entre outros adjetivos, além de citar o nome do profissional e incentivar o compartilhamento do vídeo. A fala dela provocou uma onda de ataques ao repórter. Diante da repercussão, Gabryela foi exonerada. No dia seguinte, no entanto, ela foi promovida a chefe do 23º BPM, batalhão localizado no Leblon, bairro da zona sul carioca.

Tom destoa dos últimos meses

O tom exaltado de Bolsonaro no discurso de hoje contrasta com a fase "paz e amor" que ele vinha mantendo desde que se aproximou do centrão, em março deste ano, e começou a se movimentar para articular a campanha à reeleição em 2022.

Depois de acumular vários episódios de atritos e troca de acusações durante o primeiro ano do mandato, em 2019, Bolsonaro vinha utilizando os palanques —sobretudo nas diversas viagens que fez pelo país neste ano— para falar de realizações do governo no decorrer da pandemia do coronavírus, exaltar algumas carreiras do serviço público (principalmente na área da segurança pública), entre outras estratégias.

Apesar da postura menos beligerante, houve sucessivos casos de ataques do presidente à imprensa durante o primeiro semestre —principalmente nas lives semanais, realizadas às quintas-feiras.

Levantamento da Fenaj (Federação Nacional dos Jornalistas) mostrou em julho deste ano que, até então, o presidente costumava fazer dez ataques por semana contra a imprensa, tanto a instituições quanto profissionais de comunicação.

Segundo a entidade, aconteceram 211 casos de descredibilização da imprensa até julho de 2020, com 32 ataques pessoais a profissionais e 2 ataques contra a Fenaj. "São quase dez ataques ao trabalho jornalístico por semana, neste ano", aponta o estudo.

Reportagem revela 'Abin paralela'

A incitação do presidente contra a imprensa acontece no mesmo dia em que a revista Época publicou uma entrevista com a advogada Luciana Pires, que representa Flávio Bolsonaro.

Na reportagem, ela afirma que recebeu da Abin recomendações na tentativa de anular um inquérito no qual o parlamentar é investigado por supostamente ter desviado dinheiro do salário de assessores quando era deputado estadual no Rio de Janeiro. À revista, Luciana disse que não seguiu os conselhos, por estarem fora de seu alcance.

Também hoje, a revista Crusoé publicou uma reportagem sobre o suposto auxílio da Abin. O texto diz que mensagens comprovam que foi Ramagem que encaminhou os relatórios com recomendações para Flávio, e que os textos foram preparados por uma unidade interna da Agência que atua paralelamente e é comandada por Marcelo Bormevet, segundo a revista amigo do vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos-RJ) e ex-integrante da equipe de segurança Jair Bolsonaro na campanha presidencial de 2018.

Apesar de a defesa de Flávio admitir a existência dos dois relatórios, a Abin e o GSI (Gabinete de Segurança Institucional) negam que o órgão tenha feito os documentos. O caso está em apuração em um inquérito aberto no STF (Supremo Tribunal Federal).

Após a publicação das duas matérias, a Abin divulgou nova nota hoje em que voltou a negar a autoria de qualquer relatório. "Nenhum documento, relatório ou informe de defesa em processo criminal foi transmitido por qualquer meio a parlamentar federal ou a sua defesa através do Diretor-Geral, Diretores, Coordenadores ou Assessores. A imputação por qualquer pessoa de vinculação dos supostos relatórios à ABIN ou ao Diretor-Geral é equivocada", disse a agência.

Errata: o texto foi atualizado
Diferentemente do publicado na primeira versão deste texto, o presidente Jair Bolsonaro afirmou que "os três Poderes são independentes e harmônicos", e não que "os três Poderes são independentes e anônimos". A informação foi corrigida.

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