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Tumulto, cloroquina, mira em estados: conheça a tropa bolsonarista em CPI

A tropa de choque de Bolsonaro na CPI da Covid no Senado tem uma missão: blindar o presidente - Arte/UOL
A tropa de choque de Bolsonaro na CPI da Covid no Senado tem uma missão: blindar o presidente Imagem: Arte/UOL

Luciana Amaral

Do UOL, em Brasília

22/05/2021 04h00

Em minoria na CPI da Covid, a tropa de choque do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) tem feito barulho ao, muitas vezes, endossar o uso da cloroquina no tratamento da covid-19 —medicamento sem eficácia comprovada contra a doença—, se médicos assim o indicarem.

Outro ponto crucial dos senadores governistas tem sido dividir a responsabilidade por supostos erros do Executivo federal com estados e municípios.

A tentativa é tirar o foco da CPI de cima de Bolsonaro, cujo governo tem sido o principal alvo de questionamentos. No entanto, revelações dão dor de cabeça aos soldados do capitão da reserva.

A Comissão Parlamentar de Inquérito no Senado conta com 18 membros, entre titulares e suplentes, dos quais sete estão aliados a Bolsonaro. Dentre os 11 titulares, porém, só quatro estão com o presidente.

Alguns governistas são mais atuantes, como Marcos Rogério (DEM-RO) e Luis Carlos Heinze (PP-RS). Outros menos, como Marcos do Val (Podemos-ES). Ainda assim, cada um tem a sua importância na formação do batalhão.

São eles:

  • Marcos Rogério (DEM-RO);
  • Luis Carlos Heinze (PP-RS);
  • Jorginho Mello (PL-SC);
  • Eduardo Girão (Podemos-CE);
  • Fernando Bezerra Coelho (MDB-PE);
  • Ciro Nogueira (PP-PI);
  • Marcos do Val (Podemos-ES).
Bolsonaro conta com o apoio da minoria dos membros da CPI: 7 dos 18 senadores - Arte/UOL - Arte/UOL
Bolsonaro conta com o apoio da minoria dos titulares da CPI: 4 dos 11 senadores
Imagem: Arte/UOL

Embora não seja integrante da CPI, um soldado fundamental é o filho "01" do presidente, o senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ).

Ficou sob sua responsabilidade ir para o confronto e xingar de "vagabundo" Renan Calheiros (MDB-AL), relator da comissão.

Pai do governador de Alagoas, Renan está cada vez mais em rota de colisão com Bolsonaro e tem questionado duramente depoentes na CPI.

O Planalto errou na articulação política ao não conseguir emplacar aliados como maioria e a tropa começou tímida, avaliam os próprios governistas sob reserva. Por isso, foi reforçada.

Quem é quem:

Flávio Bolsonaro, pronto para o ataque

27.abr.2021 - O senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ) tem usado uma tipoia após acidente de quadriciclo - Jefferson Rudy/Agência Senado - Jefferson Rudy/Agência Senado
27.abr.2021 - O senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ) tem usado uma tipoia após acidente de quadriciclo
Imagem: Jefferson Rudy/Agência Senado

Filho mais velho do presidente e um dos vice-líderes do governo no Congresso, Flávio não falou nas quatro primeiras oitivas da CPI. Quando surgiu ao microfone, no depoimento do ex-secretário de Comunicação da Presidência Fabio Wajngarten, marcado por tensões e ameaça de prisão, disparou críticas à politização da CPI e xingou Renan. O saldo? Confusão e reunião suspensa por alguns minutos.

Flávio tem aparecido especialmente quando o governo se sente muito atacado na CPI e busca resgatar o estilo do bolsonarismo mais radical para reforçar o apoio da base fiel. Sua atuação também tem servido à construção de discurso aproveitado pelo presidente.

Um dia após Flávio chamar Renan de "vagabundo", Bolsonaro ouviu coro de "Renan, vagabundo" em evento em Alagoas, terra do emedebista. De forma indireta, chamou o adversário de "vagabundo" e "picareta".

O coro de "Renan, vagabundo" também foi usado em ato pró-governo.

Marcos Rogério, um dos mais atuantes

Também vice-líder do governo, o senador tem sido um dos mais atuantes na tropa bolsonarista.

Na quinta (20), mostrou vídeos datados de março e abril de 2020 nos quais governadores de diferentes estados fazem comentários a respeito da prescrição de cloroquina e hidroxicloroquina como alternativa de enfrentamento à pandemia.

Sem o contexto devido, o material foi exibido com o intuito de afirmar que Bolsonaro não teria sido o único entusiasta do uso dos medicamentos.

Na fase inicial da pandemia, pesquisadores trabalhavam com a hipótese de que os fármacos poderiam proporcionar resposta eficiente contra a covid. Até o momento, porém, essa possibilidade não foi comprovada.

Além de ter desagradado oposicionistas, o ato causou repúdio até no DEM, que ressaltou que as posições do senador na CPI refletem seu pensamento como parlamentar, e não como partido. A publicação no Twitter, contudo, não foi mais encontrada pela reportagem.

O senador é um dos principais responsáveis por apresentar questões de ordem, instrumento usado para suscitar dúvidas e, extraoficialmente, obstruir os trabalhos.

O senador Luis Carlos Heinze (PP-RS) em fala na CPI da Covid - Leopoldo Silva/Agência Senado - Leopoldo Silva/Agência Senado
O senador Luis Carlos Heinze (PP-RS) em fala na CPI da Covid
Imagem: Leopoldo Silva/Agência Senado

Luis Carlos Heinze, escudeiro do "kit covid"

Ouviu "cloroquina", "tratamento precoce", "kit covid"? Provavelmente Heinze está na discussão.

Heinze é defensor árduo do chamado "kit covid" e alega haver indícios de fraudes em estudos que se opuseram à cloroquina para a covid-19, impactando decisão na mesma direção da Organização Mundial da Saúde. Ele até pediu investigação à Polícia Federal, informou.

Sua defesa do tratamento precoce e de medicamentos sem eficácia comprovada para a covid-19, fora argumentação sobre bilhões em verbas liberadas ao Amazonas, foram faíscas para bate-bocas.

Jorginho Mello, reforço na defesa do "kit covid"

Terceiro vice-líder do governo no Congresso que integra a tropa, Jorginho acompanha Heinze na defesa de medicamentos sem eficácia contra a covid-19 e costuma reforçar supostos resultados positivos em cidades que teriam aplicado o "kit covid", como Rancho Queimado e Chapecó. Não há dados oficiais que comprovem o êxito. Pelo contrário.

Ao lado de Eduardo Girão e Marcos Rogério, Jorginho entrou com ação no Supremo Tribunal Federal para barrar Renan como relator da CPI, sem sucesso.

O senador Eduardo Girão (Podemos-CE) se diz independente, mas é considerado como governista por colegas na CPI - Agência Diário - Agência Diário
O senador Eduardo Girão (Podemos-CE) se diz independente, mas é considerado como governista por colegas na CPI
Imagem: Agência Diário

Eduardo Girão, independente com pé (direito) na tropa

Embora se declare independente, Girão é visto mais como um aliado de Bolsonaro na comissão por colegas.

Quando o governo viu que não teria como evitar a instalação da CPI, atuou para apoiar pedido do senador que ampliava o escopo da investigação para abranger o uso de recursos da União repassados a estados e municípios.

Esse ponto é um dos mais levantados por Girão em seu tempo de fala. Seu foco na comissão é buscar compartilhar eventuais erros entre governadores e prefeitos, em especial a adversários de Bolsonaro.

Fernando Bezerra Coelho, escalado com a CPI em andamento

O líder do governo no Senado não era membro da CPI, mas foi escalado para compô-la após desgastes com o depoimento de Mandetta e o adiamento da fala de Eduardo Pazuello. Ficou no lugar de Zequinha Marinho (PSC-PA).

Suas intervenções costumam ser mais ponderadas e explorar falas dos depoentes como demonstrações de que Bolsonaro supostamente fez tudo o que pôde. Mesmo assim, já entrou em atrito com Renan e o vice da comissão, Randolfe Rodrigues (Rede-AP), entre outros.

Ciro Nogueira, líder do centrão no Senado e "ponte"

Informalmente, é o líder do centrão na Casa e atua como ponte dos governistas com a ala independente e oposicionista na tentativa de afagar ânimos.

Presidente nacional do PP, partido ao qual Bolsonaro cogita voltar, Nogueira costuma ser mais discreto do que a maioria dos colegas. Na eleição de 2018, Nogueira era aliado de Lula (PT) e uma reaproximação dos dois para 2022 não é descartada, no fim das contas.

Mesmo assim, argumenta que a CPI quer atingir o presidente e se envolveu em confusão com a bancada feminina.

Ele chamou a atenção ao protocolar requerimentos supostamente elaborados com a ajuda do Planalto e, sem demonstrar muito preparo, fazer pergunta a Mandetta que havia sido enviada ao ex-ministro, ao que parece, por engano pelo ministro das Comunicações, Fábio Faria.

Marcos do Val, repreendido pelo presidente da CPI

O senador atua como coadjuvante no dia a dia da comissão. Foi repreendido pelo presidente da CPI, Omar Aziz (PSD-AM), após declarar a utilização de remédios sem eficácia comprovada contra a covid-19.

O senador Marcos do Val (Podemos-ES) em fala na CPI da Covid - Edilson Rodrigues/Agência Senado - Edilson Rodrigues/Agência Senado
O senador Marcos do Val (Podemos-ES) em fala na CPI da Covid
Imagem: Edilson Rodrigues/Agência Senado

A CPI da Covid foi criada no Senado após determinação do Supremo. A comissão, formada por 11 senadores (maioria é independente ou de oposição), investiga ações e omissões do governo Bolsonaro na pandemia do coronavírus e repasses federais a estados e municípios. Tem prazo inicial (prorrogável) de 90 dias. Seu relatório final será enviado ao Ministério Público para eventuais criminalizações.