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Salvini é criticado por aliados após encontro com Bolsonaro na Itália

Bolsonaro ao lado de Matteo Salvini - Gabinete de Matteo Salvini/Via AFP
Bolsonaro ao lado de Matteo Salvini Imagem: Gabinete de Matteo Salvini/Via AFP

Weudson Ribeiro

Colaboração para o UOL, em Brasília

03/11/2021 14h55

Com a popularidade ameaçada por políticos ainda mais à sua direita, o líder do partido italiano de ultradireita Liga Norte, Matteo Salvini, tonou-se alvo de críticas de aliados no fim de semana, após se posicionar como o principal apoiador do presidente Jair Bolsonaro durante a visita do brasileiro ao país europeu.

Integrante da ala moderada da coalizão de centro-direita a que Salvini pertence, a deputada do Partido Democrata Pina Picierno categorizou o mandatário brasileiro como "atrasado e extremista" e cobrou um posicionamento de repúdio da Liga Norte ao encontro.

"A política internacional da Salvini parece se alinhar à dos direitistas mais atrasados e extremistas. A Liga Norte deveria esclarecer porque todos esses elementos não são compatíveis com uma força política que deveria mostrar responsabilidade do governo e se colocar no campo pró-europeu", disse Picierno.

"A presença de um chefe de Estado como Bolsonaro na Itália é indigesta e não deve ser aplaudida", diz Mario Perantoni, deputado do Movimento 5 Estrelas e presidente da Comissão de Justiça da Câmara italiana.

"É hora de Matteo decidir de que lado ele prefere estar", afirmou ministro da Economia italiano, Giancarlo Giorgetti, número dois da Liga Norte e principal adversário de Salvini dentro do partido.

O motivo das críticas: Bolsonaro e Salvini se reuniram no domingo para homenagear os 462 brasileiros que morreram na Segunda Guerra Mundial. No encontro, o italiano chegou a se desculpar pelos protestos que eclodiram nos últimos dias contra a presença do presidente brasileiro no país.

"Peço desculpas ao povo brasileiro representado por seu presidente pelas polêmicas, inclusive no momento de lembrança daqueles que perderam suas vidas defendendo nosso país e o libertando da ocupação nazista", lamentou o líder da Liga Norte, em entrevista. Questionado sobre a gestão de Bolsonaro na pandemia, Salvini afirmou que "a história decidirá" se Bolsonaro foi culpado ou não pelos nove crimes imputados a ele pela CPI da Covid no Senado.

Queda da popularidade

A aproximação de Salvini com Bolsonaro é vista como uma forma de o senador italiano recuperar sua popularidade entre os ultranacionalistas do país europeu, que podem ver o presidente brasileiro como um símbolo do domínio da linhagem italiana no resto do mundo.

Isso ocorre num momento em que a Liga Norte, partido mainstream mais à direita do espectro político na Itália, tem perdido espaço para o FdI (Irmãos da Itália), que se coloca como a mais tradicionalista das siglas. Com slogan de inspiração fascista "Deus, pátria e família", o FdI se aproxima cada vez mais da Liga Norte nas pesquisas de intenções de votos dos italianos.

A FdI se destaca por ser o único partido de oposição ao governo do premiê conservador Mario Draghi, que —desde que assumiu o cargo— conta com o apoio da esquerda tanto quanto com o da Liga Norte, de Salvini.

Pesquisa de Demos e Pi para o jornal La Repubblica mostrou que Salvini perdeu apoio entre os italianos nos últimos meses, caindo para o 8º lugar no ranking dos líderes mais apreciados, abaixo de Draghi, do ministro da Saúde Roberto Speranza e da líder do FdI, Giorgia Meloni.

Abuso de poder

Contrário à imigração, Salvini é acusado na Itália dos crimes de sequestro e abuso de poder. Em 2019, quando era ministro do Interior, o senador teria impedido o desembarque de 147 migrantes resgatados no Mar Mediterrâneo pela ONG Open Arms. Se for considerado culpado, Salvini pode ser condenado a até 15 anos de prisão.

O julgamento começou em 23 de outubro. O juiz Roberto Murgia anunciou que todas as testemunhas apresentadas pelas partes poderão prestar depoimento, incluindo o ator americano Richard Gere, que fez uma visita humanitária ao barco, e o ex-premiê italiano Giuseppe Conte. A próxima sessão deve ocorrer em 17 de dezembro.

Bannon, Salvini e a nova direita

Matteo Salvini integra um movimento político global que ganhou fôlego em 2016, depois da eleição do ex-presidente dos EUA Donald Trump. Naquela época, o ex-conselheiro de Casa Branca, Steve Bannon, começava a se relacionar de maneira próxima com o presidente Jair Bolsonaro e líderes da Europa, como o próprio Salvini.

"Bolsonaro e Salvini estão muito parecidos. Ambos falam de lei e ordem em seus países. São pessoas dinâmicas. Mais do que Trump, Bolsonaro e Salvini defendem a ideia de um Ocidente judaico-cristão, família tradicional, guerra contra o marxismo cultural... Lembre-se que esse movimento é populista, nacionalista e tradicionalista. E Bolsonaro e Salvini são seus melhores representantes", declarou Bannon.

Essa chamada "nova direita" política visa a desafiar o establishment político por meio de retóricas populistas e antiliberais, como as de Viktor Orbán na Hungria, Vladimir Putin na Rússia, Narendra Modi na Índia, Marine Le Pen na França, Geert Wilders na Holanda, e Rodrigo Duterte nas Filipinas.

Recentemente, a comissão da Câmara dos Deputados dos EUA que investiga a invasão ao Capitólio, em 6 de janeiro, aprovou, por unanimidade, relatório em que Bannon é acusado de desacato por ter supostamente se recusado a cooperar com o inquérito.

Para o comitê da Câmara, Bannon também pode ter tomado conhecimento prévio do ataque ao Capitólio: em 5 de janeiro, um dia antes da insurreição que deixou cinco mortos e 140 policiais feridos, Bannon falava em seu podcast, Bannon's War Room, que "o inferno explodiria" no dia seguinte, em que apoiadores de Trump invadiram a sede do Legislativo dos EUA.

No Brasil, a Polícia Federal monitora as ações de Bannon relacionadas às eleições no Brasil em 2022. Crítico do Supremo Tribunal Federal (STF) e do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Bannon constantemente levanta dúvidas quanto à segurança das urnas eletrônicas brasileiras.

A justificativa da PF é que os seguidores de Bolsonaro usam métodos de desinformação em redes sociais iguais aos que Bannon coordenava em favor de Trump quando era conselheiro sênior da Casa Branca.

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