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Carnaval de BH espanta o preconceito para quebrar recordes

Nereu Jr/UOL
Bloco Corte Devassa colore o viaduto de Santa Tereza, em BH Imagem: Nereu Jr/UOL

Miguel Arcanjo Prado

Colaboração para o UOL, em São Paulo

2019-02-07T04:00:00

07/02/2019 04h00

A recente retomada do Carnaval de rua de Belo Horizonte ganha mais força a cada ano. Neste, a festa promete bater seu recorde de público, com 590 blocos cadastrados em 700 desfiles, número que supera em 40% o do ano passado. 

Se em 2018 foi alcançado o histórico público de 3,8 milhões de pessoas, a Belotur, agência pública ligada à Prefeitura de Belo Horizonte e que gerencia o turismo e o Carnaval, espera em 2019 público 20% maior do que no ano passado. Isso faria a festa ultrapassar 4,5 milhões de pessoas neste ano. Todos são bem-vindos, menos o preconceito, seja ele qual for.

Se o antigo poder público na capital mineira chegou a reprimir o Carnaval de rua, nos últimos anos, a festa foi abraçada pelo atual prefeito da cidade, Alexandre Kalil (PHS), que afinou o discurso oficial da festa ao dos integrantes de seus maiores blocos e escolas de samba: o do respeito à diversidade. 

Neste ano o lema oficial da festa é "Carnaval de Rua de Belo Horizonte: É de Todo Mundo, É para Todo Mundo!". O tema agradou nomes importantes da folia mineira, como o cantor Marcelo Veronez, destaque do Carnaval de BH e que atua em blocos como Corte Devassa, Havayanas Usadas, Manjericão e Bloco da Calixto, este último comandado pela sambista Aline Calixto.

"Achei o tema genial, porque a gente [nos blocos] sempre disse isso. Esse tema veio da construção que os próprios blocos fizeram, de uma demanda que pedia isso, com o Carnaval se espalhando cada vez mais por todas as regiões da cidade", fala. "Em BH, acontece algo interessante: é o poder público que corre atrás do que os blocos estão propondo", avalia Veronez, que estreia na pré-folia deste ano o Baile do Prazer, com uma pegada de "frevo, maracatu, forró e marchinha onde cabe todo mundo".

Blocos para todos os gostos

A Belotur vai na mesma linha inclusiva e afirma que o Carnaval de BH é para todo tipo de folião. Além do tradicional desfile das escolas de samba e dos blocos caricatos, onde o samba é a tônica, há blocos que passam por todos os gostos e estilos de pessoas. 

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Foliã desfila no bloco Então Brilha, um dos maiores de BH Imagem: Nereu Jr/UOL

Assim, a comunidade afro é representada por nomes como o Afoxé Bandarerê ou Thirey Afoxé Ilê Odara -em uma reedição do bloco pioneiro da década de 1980. Amantes do jazz contam com o Jazz Bloco ou o Magnólia. Os nerds, geeks e adeptos do cosplay encontram seu lugar no Unidos da Estrela da Morte, no qual se destacam fantasias da saga de "Star Wars". 

O Blocão une os defensores dos animais, enquanto que o Beiço do Wando faz a alegria de quem curte a música brega. A comunidade LGBTQ+ tem espaço garantido no Alô Abacaxi ou no Garotas Solteiras, enquanto que os blocos Sagrada Profana e Bruta Flor exaltam o empoderamento feminino. Já os atores e atrizes se vestem como nos tempos do Império para desfilar na Corte Devassa. 

Os que amam a natureza, misturando-a às religiosidades afro e hindu se harmonizam no Pena de Pavão de Krishna. Já quem curte uma muvuca com ares baianos se joga nos gigantes Baianas Ozadas, Havayanas Usadas e Então, Brilha, com seu lema que diz "gente é pra brilhar", emprestado da canção de Caetano Veloso. 

Estrelas da MPB são celebradas também na festa mineira. Belchior é louvado no Volta Belchior, Gonzaguinha, no Lindo Bloco do Amor, enquanto que Tim Maia e Jorge Ben Jor dão o tom ao Chama o Síndico. A mineira Clara Nunes é lembrada no Filhos de Clara, e o Toca Raul vai na verve roqueira de Raul Seixas. Sertanejos não ficam desapontados e encontram seu lugar no É o Amô. 

A turma do rap e hip-hop se encontra no Carnarap, com foco na cultura da periferia e em sua resistência cultural. "O rap e o hip-hop nasceram da resistência, com origem de luta, como também é o Carnaval de Belo Horizonte", define a produtora Winy Mangabeiras. 

Outro bloco muito querido dos mineiros é o Todo Mundo Cabe no Mundo, comandado pelo artista Marcelo Xavier, que reúne pessoas com todos os tipos de deficiência. "Conhecemos muito bem o grande inimigo do ideal de inclusão social: o preconceito. Sabemos, também, da força de armas como a arte, o folclore, a alegria e o compartilhamento no combate a esse inimigo. O nosso Carnaval de BH tem essas armas", define o artista. 

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