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Politizado, Carnaval de BH fica gigante, mas ainda peca na estrutura

Miguel Arcanjo Prado

Colaboração para o UOL, em Belo Horizonte

06/03/2019 10h27

Esta Quarta-Feira de Cinzas (6) amanheceu com aquele clima de nostalgia em foliões purpurinados ainda sem coragem para enfrentar a dura realidade. Em Belo Horizonte, o Carnaval 2019 demonstrou a força de seu crescimento vertiginoso na última década, mas também deixou evidente que ainda falta estrutura para comportar o tamanho gigantesco da festa.

É preciso ressaltar o fato de a Prefeitura de Belo Horizonte ter abraçado a festa que reascendeu há uma década de forma espontânea, buscando organizar a folia, sem deixar de ressaltar seu caráter democrático, a começar da escolha do tema: "Carnaval de BH, é de todo mundo, é para todo mundo". Outro ponto positivo foi a ação do poder público para coibir situações de preconceito e desrespeito na folia mineira.

Ainda sem balanço oficial divulgado pela Belotur, órgão da Prefeitura de Belo Horizonte que cuida da folia, o UOL apurou que expectativa é que o público do Carnaval de BH 2019 fique na faixa de 4 milhões de pessoas curtindo a folia, nas festas e blocos. Os números oficiais devem ser informados nos próximos dias, já que o calendário oficial da festa oficialmente vai até o próximo domingo (10).

Se os comerciantes, ambulantes e redes hoteleira e gastronômica de Minas Gerais já celebram os lucros gerados pela festa, o Carnaval de BH ainda tem pontos a melhorar, sobretudo nas áreas de infraestrutura e de segurança.

A reportagem do UOL andou pela cidade durante o Carnaval de ônibus e de metrô, e constatou que o transporte público foi insuficiente para o tamanho da festa. Muitas linhas de ônibus, em vez de aumentarem os carros nas ruas, fizeram horário reduzido de "dia atípico" em pleno auge da folia. 

Por conta do centro tomado pelos blocos - a descentralização da festa já existe, mas ainda é tímida -, houve muita confusão e congestionamento no trânsito, um verdadeiro martírio nos dias de festa, sobretudo para quem precisou atravessar a região centro-sul da capital mineira, que ainda concentra a maioria dos blocos. 

Mesmo com o horário de atendimento estendido até 2h, o vagaroso metrô da capital mineira também não deu conta de atender a contento os foliões, com intervalos entre trens que superaram os dez minutos, o que gerou vagões extremamente lotados. 

À noite, a fila para entrar na Estação Central do metrô podia demorar mais de 40 minutos, com bilheterias insuficientes e dificuldade de acesso à entrada por conta das muitas barricadas montadas na praça da Estação.

Sem possibilidade de janelas abertas, o ar-condicionado dos ônibus do Move, sistema de transporte público da capital mineira, não deu conta de suportar os carros cheios, e os passageiros praticamente cozinhavam dentro do veículo ao longo do trajeto. A reportagem presenciou o desmaio de uma jovem dentro de um carro.

O Corpo de Bombeiros e o Samu atenderam, em balanço prévio, uma média de 135 ocorrências por dia de folia, a maioria provocada pelo excesso de álcool. 

O número de 1.300 garis se esforçou para deixar limpa a cidade, mas cumprir tal tarefa era realmente impossível diante dos milhões de foliões. O número de banheiros químicos também não foi suficiente, com muitos foliões urinando em qualquer canto, irritando, com razão, os moradores que ficaram com a entrada de suas casas e prédios com cheiro insuportável.

Outra questão observada foi a falta de policiamento, sobretudo na área central. Andar pela região do viaduto Santa Tereza, rua da Bahia ou praça da Estação à noite era uma aventura para apenas os muito corajosos. 

A reportagem presenciou por volta das 21h na noite de segunda (4) um "arrastão" na rua da Bahia esquina com Amazonas, com um grupo de dezenas de bandidos correndo pela rua, aterrorizando e roubando a população, que fugia em pânico. Não havia um só policial por perto. 

Se faltou policiamento no centro, parte da Polícia Militar pareceu preocupada em censurar os protestos políticos nos blocos de Carnaval, como ocorreu na sexta (1º) no desfile do Tchanzinho Zona Norte, o que fez o cantor Marcos Sandália e Meia lembrar no microfone "que ainda não estamos em uma ditadura" e que "a liberdade de expressão está prevista na Constituição". O fato repercutiu em todo o Brasil.

O porta-voz da PM chegou a confirmar a recomendação para que protestos políticos não fossem feitos nos blocos, usando a argumentação que isso poderia provocar violência. O UOL presenciou protestos políticos em todos os blocos que cobriu, e não viu violência ser provocada pelos discursos; pelo contrário, eles eram aplaudidos pelos foliões. O alvo preferencial foi o atual presidente Jair Bolsonaro (PSL), xingado constantemente nos blocos. "A polícia não tem de fazer censura prévia nos blocos. Ela só deve intervir se houver violência, o que não aconteceu", observou depois o artista.

A tal proibição da PMMG gerou reação do Ministério Público de Minas Gerais, que pediu que a liberdade de expressão artística e política prevista na Constituição fosse garantida no Carnaval. Após essa repercussão, nos últimos dias da folia, policiais evitaram censurar os blocos, observou o UOL. 

Tudo isso serviu apenas para impulsionar ainda mais a politização da festa belo-horizontina. Os artistas e foliões não cederam às ordens para que não gritassem contra o atual governo federal no microfone, mas aumentaram ainda mais o tom de Carnaval-protesto.

Altamente politizado desde sua retomada, quando surgiu para combater o ex-prefeito Márcio Lacerda (PSB) e sua proibição de festas nas ruas e praças da cidade, o Carnaval de rua de Belo Horizonte manteve seu viés político mesmo com o enorme crescimento e maior profissionalização dos blocos.

Um ponto positivo foi a maior presença de músicas feitas em Belo Horizonte na festa, cujo maior hit foi "Parado no Bailão", dos mineiros MC L da Vinte e MC Gury, cantado à exaustão. Se antes os blocos de Carnaval de BH pareciam descrentes em seu potencial musical, repetindo apenas velhos hits baianos dos anos 1990, agora parece haver uma preocupação em blocos e artistas da cidade em produzir suas próprias músicas e emplacar sucessos junto ao numeroso público. 

O discurso contra o assédio às mulheres foi repetido à exaustão nos blocos. Cada vez que algum movimento masculino estranho era observado, os blocos paravam e expulsavam os "machistas". Homofobia, racismo e transfobia também não foram tolerados nos blocos mineiros.

Foi muito comum este ano nos blocos de BH mulheres com os seios descobertos ou apenas com adesivos nos mamilos, exigindo o direito de ficar sem camisa tal qual os homens - isso, é claro, em meio a muitas fantasias criativas.

Os blocos, em sua ampla maioria, defenderam um discurso progressista, com falas e palavras de ordem em prol dos direitos de negros, mulheres, indígenas, comunidade LGBTQI+ e pelo respeito à natureza. Houve nos blocos forte condenação à Vale e ao crime ambiental em Brumadinho e Mariana, bastante lembrados, e também à Reforma da Previdência - um cartaz enorme no centro a classificou de "falta de humanidade".

Assim, com blocos para todos os gostos, inclusive para famílias completas, o gigante Carnaval de BH misturou na mesma dosagem discurso político e batuque, afinando ambos em um mesmo tom, aquele do enfrentamento do sistema vigente com corpos livres e em festa.

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