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Brigas políticas causam discórdia nos blocos de Belo Horizonte

Foliões lotam centro de BH durante o Carnaval de 2018 - Alexandre Guzanshe/Belotur/Divulgação
Foliões lotam centro de BH durante o Carnaval de 2018 Imagem: Alexandre Guzanshe/Belotur/Divulgação

Miguel Arcanjo Prado

Colaboração para o UOL, em São Paulo

21/02/2019 04h00

As últimas eleições deixaram feridas abertas entres integrantes de blocos do Carnaval de rua de Belo Horizonte. Enfrentamentos na internet que marcaram o período eleitoral seguem provocando discórdia em grupos virtuais e até mesmo bate-boca nos ensaios. 

"O Carnaval é uma festa popular da cidade, que pertence a todos", diz um músico mineiro que prefere manter o anonimato por temer represálias. "Estamos em uma democracia e é preciso respeitar o outro. Bloco de Carnaval não é partido político", defende. 

Outro artista da cidade fortemente ligado ao Carnaval faz a seguinte observação: "Acho que não faz sentido uma pessoa que nas eleições revelou preconceitos e um pensamento político altamente conservador querer agora seguir participando de um bloco carnavalesco de discurso que defenda o respeito a mulheres, negros e indígenas, a liberdade de ser o que se é no terreno da sexualidade e do gênero bem como a inclusão social", afirma. 

Ele ainda complementa: "Que essa pessoa fique em casa durante os dias de folia, curtindo sua 'família tradicional', e não venha estragar nossa festa com sua maldade e fascismo enrustido", alfineta. 

Mas Carnaval e política estão no mesmo barco? Pelo jeito, em Belo Horizonte, são coisas que se misturam, sim. A festa na capital mineira ressurgiu na última década justamente por conta do enfrentamento político entre jovens e artistas da cidade contra o então prefeito, Márcio Lacerda (PSB), e suas tão criticadas proibições de festas nas ruas e nas praças da capital mineira. 

O tempo passou, o Carnaval cresceu de forma surpreendente -neste ano, são esperadas mais de 4 milhões de pessoas- e foi assumido pela Prefeitura de Belo Horizonte, que hoje comanda a festa por meio de seu escritório de turismo e promoção, a Belotur. 

O atual prefeito de BH, Alexandre Kalil (PHS), não só abraça e defende a festa de rua como faz a prefeitura estampar o tema "Carnaval de Rua de BH: É de Todo Mundo, É para Todo Mundo". 

Há quem enxergue no slogan uma tentativa de acalmar os ânimos dos politizados foliões belo-horizontinos. Contudo, mesmo com o discurso oficial apaziguador, há integrantes de muitos blocos que querem expulsar foliões alinhados com pensamento político diferente do defendido pelo bloco, deixando as direções dos mesmos em situação complicada, conforme apurou o UOL

Uma antiga integrante de um dos maiores blocos da capital mineira, que também preferiu não se identificar "com medo de linchamento nas redes sociais", afirma: "Nosso bloco desde o começo sempre foi a favor da diversidade sexual, contra o racismo e a favor da luta das mulheres, dos índios, em prol da natureza e da liberdade de gênero. Quem pensa diferente está fazendo o que entre nós? Vai embora!", pede. 

Para a foliã que desfila "desde que Carnaval de rua não era moda, mas resistência", "não faz sentido o bloco continuar com pessoas que nas eleições passadas afirmaram nas redes que votariam justamente em quem fazia discurso contrário aos que defendemos nas ruas em tantos Carnavais". 

E conclui a conversa, dizendo: "O Carnaval de BH é de luta, sim, e vai continuar sendo, porque nossos corpos carnavalizados, livres e em festa são um ato político, pode escrever aí na sua reportagem". 

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