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Carlos Madeiro

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

'Está um silêncio aqui': os relatos de medo de quem ficou no Vale do Javari

Kora Kanamari vai reunir seu povo hoje para definir estratégias de segurança no Javari - Arquivo pessoal
Kora Kanamari vai reunir seu povo hoje para definir estratégias de segurança no Javari Imagem: Arquivo pessoal
Carlos Madeiro

Formado em jornalismo pela Universidade Federal de Alagoas e com especialização em gestão de conteúdo em jornalismo pela Universidade Mackenzie, Carlos Madeiro atua há 20 anos e escreve para o UOL desde 2009, participando de grandes coberturas e fazendo reportagens e análises sobre o Nordeste e o Norte do Brasil.

Colunista do UOL

20/06/2022 04h00

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Desde que os corpos do indigenista Bruno Pereira e do jornalista Dom Phillips foram levados para perícia em Brasília, na quinta-feira passada, a vida na cidade de Atalaia do Norte e na região do Vale do Javari, no Amazonas, vai retomando aos poucos a antiga rotina.

"A nossa situação volta à estaca zero, tudo como era antes", diz Kora Kanamari, um dos líderes do povo Tüküna, referindo-se à falta de proteção na região. Agora longe do foco da imprensa nacional e internacional, lideranças ouvidas pela coluna apontam para uma espécie de silêncio sombrio, marcado pelo medo dos povos que ficaram.

Aqui que todo mundo já saiu, está muito silêncio aqui. Ficaram só nós, indígenas, para pensar as nossas estratégias de proteção do território.
Kora Kanamari

A TI (Terra Indígena) do Vale do Javari é a segunda maior do país (atrás apenas da TI Ianomâmi, em Roraima). É também a que registra o maior número de povos isolados do mundo. A área, dizem as entidades, é invadida há anos por vários tipos de criminosos ambientais, especialmente próximo à fronteira com o Peru.

base - Lalo de Almeida/Folhapress - Lalo de Almeida/Folhapress
Base da Funai do rio Ituí, no Vale do Javari
Imagem: Lalo de Almeida/Folhapress

Apelo à imprensa e aos governos

Tamakuri Kanamari, presidente da Associação Kanamari —que representa o povo do Vale Javari do rio Itacoaí—, fez um apelo para que o Brasil não abandone a causa após o fim das buscas por Bruno e Dom.

"Estamos precisando de proteção e apoio para reivindicar justiça pelos nossos amigos mortos e por nossos territórios. Contamos com vocês [jornalistas]", afirma.

O temor, diz, é que os governos tirem de novo os olhos da região e deixem os indígenas sem proteção. "Temos esperança que os governos cumprirão seu papel de fazer fiscalização no nosso maior território", diz.

Ele afirma que, independente do que ocorra, os povos da Amazônia vão se dedicar na luta pelo território deles e pela floresta.

Nós estamos preparados para combater [os invasores] porque somos guerreiros da floresta. Temos pai Tamakuri que está nos protegendo e o nosso grande Marinawa [líder que faleceu em 2019]. Nunca vamos desistir!
Tamakuri Kanamari

Terra no Vale do Javari, alvo de diversos tipos de ataque - Funai - Funai
Terra no Vale do Javari, alvo de diversos tipos de ataque
Imagem: Funai

Sem Bruno, mais fragilidade

Bruno não deixou só boas lembranças: ele era uma peça-chave na defesa da terra indígena.

Com a redução de proteção da área pela Funai (Fundação Nacional do Índio) nos últimos anos, era ele quem coordenava a frente etnoambiental da Univaja (União dos Povos Indígenas do Vale do Javari).

Bruno, inclusive, foi decisivo para a última grande operação à frente da proteção aos povos isolados na Funai, que enfureceu o garimpo e levou a demissão dele do cargo em outubro de 2019.

Está vago, segundo revelou a Folha, um cargo decisivo para a fiscalização da área do Vale da Javari, apesar dos reiterados apelos de indígenas e entidades para que fosse preenchido —o que facilitou a invasão do território por grupos criminosos.

Sem Bruno, os povos entendem que há necessidade de reorganizar a forma de proteção ao Vale do Javari.

Operação comandada por Bruno destruiu 60 balsas do garimpo, na fronteira com o Peru - Funai - Funai
Operação comandada por Bruno destruiu 60 balsas do garimpo, na fronteira com o Peru, em 2019
Imagem: Funai

"Alto perigo"

Kora Kanamari conta que a sensação de quem vive no território é que, passada a repercussão, as ameaças e a tensão devem crescer ainda mais.

"Mesmo tendo o olhar do mundo todo para cá, todo mundo sabe da situação de alto perigo em se viver aqui. Mesmo assim, o governo está tentando abafar essa realidade. Isso deixa a gente triste, com medo e muito preocupados", diz o líder.

Ele alega que uma das preocupações vem da informação da PF (Polícia Federal) de que não houve mandante no assassinato de Dom e Bruno.

Kora diz que os povos cobram maior investigação para saber se poderia ter alguém por trás das mortes.

"O governo está tentando passar a mão nos criminosos. Mesmo tendo todo esse histórico de ser uma região dominada por traficantes, fazendeiros, garimpeiro, pescadores, caçadores e madeireiros. Por que dizer tão rápido que não tem um mandante?", questiona.

Segundo ele, longe dos holofotes, a polícia local historicamente tem fechado os olhos para os crimes ambientais e as ameaças aos indígenas do Vale do Javari.

A polícia daqui nunca fez ação voltada à questão do nosso território. São pessoas que também têm medo de morrer, então eles não metem a cara, mesmo tendo armas e poder. Às vezes, sabemos, alguns deles são mandados por grandes criminosos da região.
Kora Kanamari

O povo Tüküna fará nesta segunda-feira (20) um ritual na floresta em homenagem a Bruno e Dom e, depois, se reúne para ver como os povos vão continuar na defesa do território. Até o momento, o governo federal não anunciou planos de segurança para a região.