Fernanda Magnotta

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Opinião

Equilíbrio a qualquer custo: os perigos da ambivalência em política externa

A última semana foi intensa para a política internacional, em geral, e para a diplomacia brasileira, em particular. Tivemos o presidente Lula discursando na abertura da Assembleia Geral da ONU, além dos esperados encontros bilaterais com Joe Biden, presidente dos Estados Unidos, e com Volodymyr Zelensky, presidente da Ucrânia. O traço comum dessas agendas foi consolidar o Brasil como um país que persegue seus interesses objetivos de forma autônoma, sem necessário alinhamento com blocos delineados, mas que está disposto a sentar-se à mesa com todas as partes.

Isso é importante porque se, em algum momento, a inserção do Brasil foi vista, no exterior, como potencialmente "antiamericana", agora Lula vem sendo descrito, nos bastidores, como uma liderança "antiocidental".

Essa narrativa ganhou força depois de uma série de movimentos do presidente brasileiro: da exaltação da legitimidade democrática de Nicolás Maduro, na Venezuela; da dificuldade em condenar abertamente a Rússia pela agressão promovida no Leste Europeu; da entusiasmada aliança com o governo chinês, com direito a defesa de desdolarização da economia mundial; além dos termos de ampliação do Brics, que passará a incluir países como Arábia Saudita e Irã, e das abertas críticas empreendidas contra o Tribunal Penal Internacional recentemente.

É compreensível, em um mundo complexo e perigoso como este em que vivemos, que o Brasil deseje se equilibrar entre os blocos em disputa. Não interessa ao país importar conflitos de fora, nem ser compelido a tomar lados apenas para satisfazer parceiros.

O racional de uma política externa "pendular" ou de "não alinhamento ativo" é perfeitamente lógica. A "via do meio", aliás, muitas vezes parece refletir os interesses multifacetados do país, que comunga de uma série de valores com os Estados Unidos e a Europa, por exemplo, sem que isso impeça que dialogue com o Oriente ou o Sul global para defender plataformas que elevam a voz das potências emergentes, algo também fundamental para um Estado com as nossas características e capacidades.

A tomada de decisão é tão simples quanto isso: em um cenário em que várias potências estão concentradas em outras regiões do mundo ou em agendas que não convergem com as nossas, o Brasil precisa se aproximar de quem vê o país como prioridade e de onde podemos nos beneficiar de forma construtiva, o que, em princípio, não é um problema.

A questão é que esse tipo de política está cercada de inúmeros riscos que precisam ser adequadamente mensurados. Fazer da política externa de um país algo meramente instrumental pode ter severas implicações de longo prazo. Em relações internacionais não é bom ser visto como "hesitante" ou "em cima do muro". Isso impacta a confiança e a credibilidade na hora de construir diálogos.

A dita "busca por neutralidade" pode levar à falta de assertividade e à dificuldade em comunicar as necessidades aos outros. Também fomenta o desenvolvimento de relações superficiais e pode implicar ineficácia na solução de problemas, já que, em muitos casos, pode haver dificuldades em se comprometer com escolhas objetivas. Pior do que isso, tentar "ser sempre isento" pode levar a uma falta de identidade clara, já que significa moldar-se de acordo com as expectativas dos outros em vez de expressar quem realmente somos.

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A busca por equilíbrio é uma virtude até que se torne um vício. Na política (e na política internacional) as pessoas sempre tentarão identificar compromissos no "dito" e no "não dito". Ignorar o peso dos enredos que se criam a partir disso é um erro elementar.

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Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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