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Opinião

Acesso 'universal' à internet no Brasil é enganador e desigual

O acesso dos brasileiros à internet é quase "universal": 84% da população com mais de 10 anos de idade ou mais tem conexão com a rede. Mas com qual qualidade? Quantos conseguem buscar informações verificadas na internet, pagar suas contas, ter aulas online, trabalhar? Muito menos gente. A conectividade do brasileiro é, acima de tudo, desigual. Para a maioria absoluta, a conexão à internet é cara, lenta, limitada e pouco significativa.

O Comitê Gestor da Internet no Brasil divulgou nesta terça-feira a maior pesquisa já feita sobre como os brasileiros se conectam à rede. A conclusão é que 57% têm uma conectividade pouco significativa, atrapalhada por plano de acesso caro, restrito ao celular pré-pago, com baixa velocidade e dados limitados. Do outro lado, só 22% têm uma conexão com poucas limitações.

Essas limitações constrangem as possibilidades de uso. Se há apenas um aparelho em casa com acesso à internet e uma pessoa precisa fazer um zoom para o trabalho, outra tem aula e uma terceira quer assistir a uma série no streaming, duas delas vão ter que abrir mão do que precisavam fazer online.

Do mesmo modo, se o plano de acesso é pré-pago, tem velocidade de menos de 10 gigas e um teto baixo de volume de dados para consumir por mês, as possibilidades de uso da internet ficarão limitadas à troca de mensagens instantâneas via WhatsApp, acesso a uma rede social e, com sorte, assistir a um vídeo curto.

No final do dia, a utilidade e os benefícios da experiência online serão muito diferentes de acordo com a renda, o local de moradia, o gênero, a cor e a idade dos usuários. As desigualdades são imensas, segundo a pesquisa:

No estado de São Paulo, a taxa da população com qualidade de acesso mais alta à internet é o dobro do que no Rio de Janeiro: 38% a 19%. No Pará é menos da metade do Rio: 8%.

Para as pessoas com idade entre 35 e 44 anos, 35% têm qualidade de acesso alta, contra apenas 8% entre idosos, e 16% entre crianças.

Entre os homens, a conectividade de boa qualidade é muito maior do que entre as mulheres: 28% a 17%.

Entre brancos, as melhores condições de acesso à internet são quase o dobro do que entre negros: 32% a 18%.

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Nas classes D e E, só 1% tem boa qualidade de conexão, e 66% têm o pior nível de conectividade.

Na classe de consumo A, 83% têm a melhor conectividade, e só 1% conexão ruim.

Apesar de o quadro pintado pela pesquisa ser negativo, as coisas já foram piores. Bem piores. Em 2008, só 34% dos brasileiros tinham algum tipo de conexão à internet. Hoje, são 84%.

A qualidade da conectividade também está melhorando: se hoje um terço dos brasileiros (33%) tem os piores níveis de conexão, apenas seis anos atrás era praticamente a metade da população nessa situação (48%). No mesmo período, a parcela dos brasileiros com a melhor conectividade mais do que dobrou: foi de 10% para 22%.

Segundo a coordenadora da pesquisa, Graziela Castello, o preço é a maior barreira para a universalização do acesso de qualidade à internet no Brasil.

Os melhores planos de acesso à internet são ainda muito caros e inacessíveis à maioria da população. Essa barreira cria uma oportunidade de mercado para a multiplicação da gatonet, explorada pelo crime organizado.

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Se o mercado e os planos comerciais não dão conta de universalizar o acesso de qualidade ao que a internet tem de melhor, é o caso de investir em pontos de acesso públicos, como bibliotecas e escolas, para diminuir a desigualdade digital. Não chega a ser novidade. É o que é feito em países como os EUA e na Europa.

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O Análise da Notícia vai ao ar às terças e quartas, às 13h e às 14h30.

Onde assistir: Ao vivo na home UOL, UOL no YouTube e Facebook do UOL.

Veja abaixo o programa na íntegra:

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Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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