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CPI da Covid: Teich omite distribuição de cloroquina e redução de compras

5.mai.2021 - UOL Confere: o ex-ministro Nelson Teich presta depoimento na CPI da Covid no Senado - Jefferson Rudy/Agência Senado
5.mai.2021 - UOL Confere: o ex-ministro Nelson Teich presta depoimento na CPI da Covid no Senado Imagem: Jefferson Rudy/Agência Senado

Beatriz Montesanti

Colaboração para o UOL, em São Paulo

05/05/2021 19h16Atualizada em 05/05/2021 19h16

Em seu depoimento à CPI da Covid no Senado, hoje (5), o ex-ministro da Saúde Nelson Teich deu informações incompletas sobre a atuação do governo federal na compra de equipamento para o combate à covid-19 e na distribuição de cloroquina por meio do SUS (Sistema Único de Saúde).

O ex-ministro relembrou com mais precisão detalhes de sua saída do cargo, no qual ficou por aproximadamente um mês. O UOL Confere checou as principais declarações de Teich:

Governo ampliou distribuição de cloroquina

Do que eu vivi naquele período, a gente nem falava em cloroquina. [...] Na verdade, o que acontece? O dia a dia era um dia a dia extremamente intenso, porque era um momento muito difícil. Faltavam respiradores, faltava EPI [equipamento de proteção individual], as mortes aumentando, os casos aumentando. E foi um assunto que não chegou a mim, em relação à produção de cloroquina.
Nelson Teich em depoimento à CPI da Covid no Senado

Na CPI, Teich negou ter recebido orientação para distribuir cloroquina a estados e municípios. Ele também afirmou que, se soubesse sobre a produção e distribuição do medicamento, teria impedido. O ex-ministro chegou a negar ter participado de reuniões técnicas sobre o assunto, mas retificou a informação no meio da sessão. A substância não tem eficácia comprovada contra a covid-19.

No entanto, o curto mandato de Teich, entre 17 de abril e 15 de maio de 2020, fez parte de um período em que o Ministério da Saúde quintuplicou a distribuição de comprimidos de cloroquina na comparação com o ano anterior, mostrou reportagem da Folha publicada em setembro. Em maio de 2020, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) disse que conversaria com Teich para incluir o uso da cloroquina, e seu derivado hidroxicloroquina, no protocolo de atendimento do SUS de pacientes com sintomas leves de covid-19. A mudança acabou ocorrendo cinco dias depois de Teich deixar o ministério.

Antes de Teich assumir, o governo já havia determinado que o Exército ampliasse a produção de cloroquina em seus laboratórios.

Apesar de negar ter recebido orientações diretas do governo sobre a questão, Teich afirmou por diversas vezes na CPI que a discordância em relação à cloroquina foi um dos motivos que levaram à sua exoneração.

Verdade: Bolsonaro cobrou Teich por discordância sobre cloroquina

Naquela semana, teve uma fala do presidente ali na saída do Alvorada, onde ele fala que o ministro tem que estar afinado e cita o meu nome especificamente. Na véspera, pelo que eu vi, teve uma reunião - acho que com empresários - onde ele fala que o medicamento vai ser expandido. À noite, tem uma live, onde ele coloca que espera que, no dia seguinte, vá acontecer isto, que vai ter uma expansão do uso. E aí, no dia seguinte, eu peço a minha exoneração
Nelson Teich em depoimento à CPI da Covid no Senado

No dia 13 de maio de 2020, o presidente de fato fez uma declaração afirmando que todos os ministros deveriam estar afinados a ele.

"Todos são indicações políticas minhas. E quando converso com os ministros, quero eficácia na ponta da linha. Esse caso não é sobre eu gostar ou não do ministro Teich, é o que está acontecendo. Estamos tendo centenas de mortes por dia. Se existe a possibilidade de diminuir esse número com cloroquina, porque não usá-la?", disse o presidente na ocasião, sem dizer que o remédio não tinha eficácia comprovada contra a covid-19.

No dia seguinte, em uma teleconferência com grandes empresários, Bolsonaro pressionou Teich.

"Está tudo bem com o ministro da Saúde [Nelson Teich], sem problema nenhum, acredito no trabalho dele. Mas essa questão da cloroquina, vamos resolver", disse o presidente então.

Ambas as declarações foram feitas pouco depois de Teich ter se manifestado nas redes sociais sobre o uso de cloroquina, fazendo o alerta de que o medicamento tem efeitos colaterais e de que a prescrição deve ser feita com base em avaliação médica.

Na tarde daquele dia, Teich e Bolsonaro se reuniram para discutir a mudança no protocolo. No início da noite, houve a live semanal do presidente nas redes sociais, em que Bolsonaro afirmou esperar uma resposta do então ministro sobre a questão no dia seguinte. No dia 15 de abril, Teich foi exonerado.

Gestão Teich reduziu ritmo de compras

A gente - lembro - buscando ventiladores, respiradores, antes até de ir para distribuição, a gente tentava levar direto. A gente tentou trabalhar essa distribuição. Aquele momento, realmente, era um momento bem difícil, porque era uma coisa que estava faltando no mundo, era uma competição mundial por EPI, por respirador, e, naquele momento, eu me via atuando dedicado e conseguindo entregar as coisas
Nelson Teich em depoimento à CPI da Covid no Senado

Em maio de 2020, o UOL mostrou que o Brasil reduziu o ritmo de compras de respiradores e EPIs (equipamentos de proteção individual) depois que Teich assumiu o Ministério da Saúde.

Entre o fim de fevereiro, quando o primeiro caso de covid-19 foi confirmado no Brasil, até sua saída, em meados de abril, o então ministro Luiz Henrique Mandetta fechou 39 contratos para aquisição de produtos para o combate à covid-19 ― cerca de cinco por semana. Teich fechou, em média, um contrato por semana.

Conversas sobre vacinas

No meu período, não havia uma vacina ainda sendo comercializada - era ainda o começo do processo da vacina - e foi quando eu trouxe a vacina da AstraZeneca para o estudo ser realizado no Brasil, para o Brasil ser um dos braços desse estudo, na expectativa de que, trazendo o estudo, a gente tivesse uma facilidade na compra futura, não é?
Nelson Teich em depoimento à CPI da Covid no Senado

O ex-ministro foi questionado em ocasiões diferentes quanto a medidas de sua gestão para providenciar vacinas. O atraso do governo para fechar contratos é considerado um dos principais pontos de negligência no combate à pandemia.

De fato, como afirmou Teich, ele iniciou a negociação para a realização no Brasil de testes clínicos da vacina de Oxford, desenvolvida em parceria com a AstraZeneca.

A realização de testes foi aprovada e teve início em junho, já no mandato de Eduardo Pazuello. No mesmo mês, o Ministério da Saúde anunciou o acordo com a universidade para disponibilizar até 100 milhões de doses da substância, ainda em fase de testes. No final do ano, o governo autorizou a compra, quando a vacina estava em fase final de desenvolvimento e antes de ser registrada na Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária).

Teich também afirmou que iniciou conversas sobre vacinas com as empresas Janssen, da Johnson & Johnson, e Moderna. Durante sua gestão, no entanto, o ex-ministro não chegou a dar esses detalhes. Na época, declarou apenas que o governo federal estava negociando cotas de vacinas que ainda não haviam sido produzidas.

"A gente está conversando com possíveis laboratórios que vão produzir vacina para que a gente consiga garantir, caso surja uma vacina, que o Brasil tenha uma cota, uma parte", afirmou ele durante entrevista coletiva concedida no Palácio do Planalto, no dia 6 de maio.

Uma menção mais clara a negociações com a Moderna veio apenas em julho, já no mandato de Pazuello. Apesar de recentes negociações, o Brasil ainda não comprou a vacina, que vem sendo utilizada nos EUA.

Um acordo para a compra de doses da Janssen saiu apenas em março deste ano. O imunizante teve seu uso emergencial aprovado pela Anvisa no fim daquele mês.

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