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"Saí com a roupa do corpo e com a minha menina", conta ex-moradora acolhida por senegalesa

A senegalesa Mama, que mora nas proximidades e levou seu colchão para acomodar as crianças que viviam no prédio que desabou - Luciana Quierati/UOL
A senegalesa Mama, que mora nas proximidades e levou seu colchão para acomodar as crianças que viviam no prédio que desabou Imagem: Luciana Quierati/UOL

Luciana Quierati

Do UOL, em São Paulo

01/05/2018 09h49

“Força, muita força, menina, que você é nova”, dizia Diop Diamou Fallou, 60, mais conhecida como Mama, à jovem de quem enxugava as lágrimas, ambas sentadas em um banco atrás da igreja de Nossa Senhora do Rosário. A senegalesa tentava consolar a moça que havia acabado de perder tudo o que tinha no incêndio e desabamento do prédio onde morava, no Largo do Paissandu, na madrugada desta terça-feira (1º).

Mama chegou à praça pouco depois do início do fogo, perto da 1h30. Vendo as dezenas de crianças ao relento e no chão, pediu ajuda a um rapaz e foi buscar seu colchão de casal para acomodá-las. Estendeu-o sobre o calçamento da praça. “Trouxe meu colchão e meu tecido africano para eles deitarem”, disse, chorando. “Nessas horas, só pobre para ajudar. Eu já passei por isso. Na minha infância, minha mãe, minha irmã e eu vivíamos de casa em casa porque não tínhamos dinheiro para o aluguel, e éramos sempre despejadas. Sei como é.”

Perto das 5h, no colchão de Mama, entre outras crianças estava deitada a filha de dois anos da jovem a quem ela emprestava o ombro.

Saí só com a roupa do corpo e com a minha menina. Já morei em outras ocupações, morei na Lapa, em barraco da Inajar de Souza [avenida na zona norte da cidade]. Nunca tive nada de importante e agora perdi o pouco que consegui.”

Gisele Félix das Neves, 18

Assim como ela, a maioria dos moradores só teve tempo mesmo é de escapar, sem levar nada. Deise da Silva Rodrigues, 31, morava havia apenas um mês na ocupação, depois de ser desalojada de outro prédio, também no centro da capital paulista. Tinha um “barraco” - como eles costumam chamar o local que ocupam - no 3º andar, com cinco filhos.

“Estava dormindo, ouvi os gritos e vidros caindo. Quando percebi que era fogo, chamei eles e saí correndo”, diz a mulher, que estava descalça, bem como suas crianças.

1º.abr.2018 - Marinalva Alves Lemos, que morava com o companheiro no prédio que desabou no centro de São Paulo. Ela deixou o prédio com a roupa do corpo - Luciana Quierati/UOL - Luciana Quierati/UOL
Marinalva Alves Lemos, que morava com o companheiro no prédio que desabou. Deixou o lugar com a roupa do corpo
Imagem: Luciana Quierati/UOL
Na esquina da rua São João com o largo, seus filhos ganharam agasalhos de outra moradora que, assim como a senegalesa Mama, resolveu ajudar. Mais adiante, ao pé da escadaria da igreja, mais voluntários tentavam acomodar os desabrigados, muitos deles pertencentes a outras ocupações situadas na região.

“Vamos ajudar com o que a gente pode. Água, alguma comida, cobertor”, disse uma das mulheres. 

Água também era trazida em engradados pelos funcionários da assistência social do município, enquanto as famílias eram cadastradas pela Defesa Civil, organizadas em uma grande fila. O objetivo era verificar quantas pessoas exatamente precisariam de um local para ficar a partir desta terça-feira. Por volta das 9h, 248 pessoas já haviam sido cadastradas pela prefeitura

Poucos tinham como recorrer a algum parente ou conhecido. A maior parte iria para centros de acolhida, mas muitos não queriam e esbravejavam. “Não vamos para albergue; nunca dão emprego para quem mora em albergue”, dizia um homem bastante alterado ainda na madrugada.

“O que a gente quer é casa, é moradia decente. Não ficar em abrigo”, dizia a poucos metros dali Marinalva Alves Lemos, 45. Ela e o companheiro, os dois desempregados, também não conseguiram levar nada consigo. Nem os documentos.

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Moradores pagavam aluguel de até R$ 500

Outro grupo maldizia os responsáveis pela ocupação. Cobrava a presença deles nesse momento de desemparo. “Aparecer para cobrar o aluguel, eles aparecem. Cadê agora? Não tem nenhum”, dizia Eliofábia Rodrigues da Silva, 36, que morava no prédio com quatro filhos e que está grávida de gêmeos.

Segundo os moradores, as famílias mais antigas pagavam em torno de R$ 150 por mês por um cômodo simples dentro do prédio. Pelo mesmo espaço, os mais recém-chegados à moradia irregular chegavam a pagar até R$ 500.

1º.abr.2018 - O estudante Leandro Bueno de Araújo, 16, que conseguiu deixar o prédio com os pais e um irmão mais novo, documentos e um aparelho de TV - Luciana Quierati/UOL - Luciana Quierati/UOL
O estudante Leandro Bueno de Araújo, que conseguiu deixar o prédio com os pais e um irmão mais novo, documentos e um aparelho de TV
Imagem: Luciana Quierati/UOL

A família do estudante Leandro Bueno de Araújo, 16, que morava no 2º andar, pagava R$ 250. Pai, mãe, irmão e ele estavam havia quatro anos no prédio. Foram dos poucos a conseguir carregar algum pertence: um televisor. 

Leandro o levava nos braços para cima e para baixo. A certo momento, o posicionou na base de um brinquedo do parquinho do largo, onde as crianças que não dormiam tentavam se entreter, subiu no alto do aparelho e começou a olhar para o nada. Ao final da madrugada, muitos estavam como ele. Sem muita perspectiva.

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