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Moradores relatam humilhações por atraso de taxa em prédio que desabou; líder nega "aluguel"

Foto de arquivo mostra o prédio que desabou após pegar fogo no centro de SP - Eduardo Knapp/Folhapress
Foto de arquivo mostra o prédio que desabou após pegar fogo no centro de SP Imagem: Eduardo Knapp/Folhapress

Janaina Garcia

Do UOL, em São Paulo

03/05/2018 04h00Atualizada em 03/05/2018 11h04

A cobrança de taxa sobre os moradores de uma ocupação no edifício Wilton Paes de Almeida, no Largo do Paissandu, região central de São Paulo, era flexível nos valores, mas rígida quanto à inadimplência. Em média, de acordo com sobreviventes do incêndio que terminou com o desabamento da edificação na madrugada de terça-feira (1º), os valores oscilavam entre R$ 200 e R$ 400, e eventuais atrasos no pagamento não podiam passar de três dias.

O grupo é o Movimento Luta por Moradia Digna, que nasceu há dez anos em São Paulo e ocupava, havia oito deles, o prédio inaugurado em 1968 pertencente à União. O Wilton Paes de Almeida foi o primeiro edifício a ser ocupado pelo movimento.

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Entre os desabrigados presentes no largo do Paissandu, a maior parte dos que aceitaram falar sobre a taxa explicou que eram constantes as humilhações caso o pagamento não fosse efetuado na data combinada.

“Eu era da ocupação no Cine Marrocos quando vim para esse prédio. Pagava R$ 200 de aluguel, lá, e tinha placa na porta anunciando o despejo se a gente não pagasse, era horrível”, conta a manicure desempregada Keliane Costa, 34, relembrando sobre a ocupação, também do MLMD, que durou entre 2013 e 2016 no antigo cinema na região central.

“No Paissandu, o pessoal era bem agressivo se atrasasse o pagamento. Ameaçavam jogar as nossas coisas na rua. Era muito humilhante”, relata Keliane. Entre geladeira, televisão, cama e fogão, ela conta que só restaram os documentos pessoais após o incêndio.

Jaqueline Santos pagava R$ 200 de aluguel: "eram muito ignorantes" - Janaina Garcia/UOL
Jaqueline Santos pagava R$ 200 de aluguel: "eram muito ignorantes"
Imagem: Janaina Garcia/UOL
Vendedora de bala nos cruzamentos próximos à ocupação, Jaqueline Santos, 27, relatou que também pagava R$ 200 ao movimento e que passou por constrangimentos ao atrasar o repasse. Ela alugava um quarto em que morava com mais oito pessoas da família.

“Eram muito ignorantes com a gente, ameaçavam jogar ou jogavam as coisas na rua se a taxa não fosse paga”, diz. “Davam um prazo de quatro a oito dias para a pessoa sair, se não pagasse. Então jogavam tudo na rua”.

O ajudante-geral Gabriel Archângelo, 24, alugava o quarto em que vivia com mais 11 pessoas da família por R$ 350 mensais. Também pagava o movimento, mas afirma que não sofria os escrachos relatados por outros moradores. “Porque eu ajudei a ocupar esse prédio, né?”, justifica. “Mas havia um limite para atraso, avisado antes”.

Lourdes Ferreira da Silva (e) e Edinéia Aparecida da Silva (d) relatam hostilidade dos líderes do movimento - Janaina Garcia/UOL
Lourdes Ferreira da Silva (e) e Edinéia Aparecida da Silva (d) relatam hostilidade dos líderes do movimento
Imagem: Janaina Garcia/UOL

As ambulantes Edinéia Aparecida da Silva, 48, e Lourdes Ferreira da Silva, 49, também narram hostilidades. Ambas pagavam R$ 250 pelos quartos em que viviam com as famílias.

“Se atrasasse o pagamento e dissesse que não tinha dinheiro, ia para a rua mesmo. Mas se a pessoa dissesse que tinha um pouco e estava juntando, eles davam mais uns dias para ficar”, comentou Lourdes.

“Tenho uma filha que mora na estrada de Itapecerica. Já teve vezes de eu voltar da casa dela e não entrar na ocupação e passar a noite na rua porque eu não tinha pagado na data combinada“, lembra Edinéia. Segundo ela, se houvesse eventualmente mais alguém a ocupar o cômodo, ainda que temporariamente, era cobrado um valor “por fora”. “Em média, R$ 30 por pessoa adicional, na quinzena”, diz. “Eram ignorantes. Jogavam as coisas nossas fora mesmo”, reforça Lourdes.

Líder nega cobrança de aluguel: "contribuição"

Desde terça, os líderes apontados pelos moradores como responsáveis pela cobrança foram nominados como “Nil” e “Amílton”. Vários deles têm se queixado, desde então, de que ambos não apareceram para atender os desabrigados, nem para informar o que foi feito com o dinheiro.

Um terceiro líder apontado pelos moradores da ocupação é Ricardo Luciano, conhecido entre os colegas como “Careca”. Ao UOL, ele negou que as taxas fossem cobradas como aluguel. Disse que havia uma “contribuição voluntária de R$ 50” usada “para manutenção e limpeza do espaço”. “Até eu pagava essa taxa”, resumiu. Indagado sobre a função dele no movimento, respondeu: “Minha função era abrir e fechar o prédio.”

A reportagem pediu contato dos outros dois coordenadores citados pelos moradores, o que foi negado.

A Secretaria do Patrimônio da União do Ministério do Planejamento, Desenvolvimento e Gestão (SPU/MP) protocolou nesta quarta-feira um ofício na Superintendência Regional da Polícia Federal em São Paulo pedindo a instauração de um inquérito para investigar "eventuais cobranças de aluguel" dos ocupantes do edifício.

Líder do MTST repudia taxa

Coordenador nacional do maior movimento atual por moradia no país, o MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto), o pré-candidato à Presidência pelo PSOL, Guilherme Boulos, afirmou desconhecer o movimento do prédio que desabou e afirmou que as taxas cobradas, conforme o relato dos agora desabrigados, não representa a causa em que ele milita.

“O MTST reconhecidamente não faz qualquer tipo de cobrança; esse não é um método que a gente ache adequado. Depende muito de cada movimento, mas desde a formação do MTST, há mais de 20 anos, esse é nosso entendimento”, afirmou.

“De toda forma, é lamentável que use de uma tragédia para, eventualmente, se criminalizar e responsabilizar as vítimas”, criticou.

Comissão da Alesp acompanha relatos

Presidente da comissão de direitos humanos da Alesp (Assembleia Legislativa de São Paulo), o deputado estadual Carlos Bezerra Jr (PSDB) informou que o grupo acompanha os relatos de cobrança dessas taxas e está aberto a recebimento de denúncias.

O parlamentar esteve com grupo de assessores no Largo do Paissandu, na quarta-feira (2) à tarde, e conversou com desabrigados.

“Estamos recebendo por ora denúncias informais sobre essas cobranças e monitorando para que abusos e possíveis casos de exploração sejam encaminhados às autoridades que as investiguem. Temos que preservar a integridade dos movimentos sociais contra a criminalização deles, mas também temos a responsabilidade de cobrar o poder público sobre possíveis ações exploratórias e crônicas sobre pessoas em situação de extrema vulnerabilidade”, concluiu.

Bombeiros trabalham nos escombros de prédio que desabou em SP

AFP

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