Violência no Rio

Reconstituição dos assassinatos de Marielle e Anderson mira arma usada no crime

Marina Lang

Colaboração para o UOL, no Rio

A reconstituição dos assassinatos da vereadora Marielle Franco (PSOL) e de seu motorista, Anderson Gomes, na noite desta quinta-feira (10), vai observar questões relativas à arma usada no crime e à perícia do atirador durante a emboscada, segundo informou ao UOL fonte ligada à investigação.

Os testes com munição e armamento --há indícios de que tenha sido um modelo HKMP5, arma desenvolvida na Alemanha na década de 1960-- podem embasar provas a partir da possível apreensão da arma empregada no crime e da identificação dos suspeitos.

O isolamento das áreas no entorno do local do assassinato começou às 20h. Os trechos interditado são a rua Joaquim Palhares, entre as ruas Haddock Lobo e Ulysses Guimarães; a rua João Paulo I, entre a avenida Paulo de Frontin; e rua Joaquim Palhares e rua Estácio de Sá entre as ruas Hélio Beltrão e Joaquim Palhares.

"Por questões de segurança, os moradores da região só poderão acessar as ruas bloqueadas após serem autorizados pelos policiais da DH", diz a polícia, em nota.

Lonas pretas e sacos de areia foram colocados no local do crime, no bairro do Estácio --o intuito é manter o sigilo da apuração e criar barreiras de proteção, já que a reconstituição terá tiros reais para simular os assassinatos.

As hipóteses analisadas pela equipe de peritos criminais e de delegados da Divisão de Homicídios serão cruzadas com depoimentos de testemunhas do crime.

Paula Bianchi/UOL
10.mai.2018 - Lonas foram colocadas na rua do crime para garantir o sigilo dos trabalhos

O que se sabe até agora?

Marielle Franco participava do evento "Jovens Negras Movendo Estruturas" na Casa das Pretas, na Lapa, centro do Rio, na noite de 14 de março. Imagens de câmeras de segurança mostram a vereadora sendo vigiada por um Cobalt prata com películas escuras nos vidros.

Os executores do crime não saíram do veículo, o que indica que os assassinos tinham conhecimento de que havia câmeras na região. A Polícia Civil apura o envolvimento de um segundo carro na emboscada.

Ao deixar o local, o carro de Marielle foi perseguido pelo Cobalt prata. Na rua Joaquim Palhares, o veículo onde estava a parlamentar foi fechado e um homem que estava no banco de trás do automóvel perseguidor fez os disparos, de acordo com relatos colhidos pelo jornal "O Globo". Uma testemunha disse que viu o braço do atirador para fora do carro e declarou que ele era negro.

Ainda de acordo com as testemunhas, a rajada foi abafada --o que indica o possível uso de um silenciador. Foram 13 tiros disparados, quatro dos quais atingiram a cabeça de Marielle e dois, as costas de Anderson.

Cápsulas de projéteis calibre 9 mm foram deixadas para trás pelos assassinos, algumas delas do lote UZZ 18, extraviado da Polícia Federal e relacionado a outros crimes, como a maior chacina de São Paulo, onde 23 pessoas foram mortas por policiais militares e um guarda civil.

Reprodução/Globo News
Imagem obtida pela polícia mostra carro perseguindo veículo da vereadora

Segundo a polícia, a arma que matou Marielle e Anderson foi uma submetralhadora --usada em dezenas de países, ela tem diversas variações de modelos e é considerada muito comum. No Brasil, o modelo HKMP5 é usado por forças de segurança (polícias militares e federal), colecionadores e pode ser adquirida ilegalmente no mercado negro. É uma arma usada geralmente em combates a curta distância.

Tanto as placas quanto o próprio carro foram clonados pelos executores do crime.

Nesta semana, novas informações vieram a público. Uma testemunha procurou a polícia envolvendo o vereador Marcello Siciliano (PHS) e o ex-PM Orlando Oliveira de Araujo, também conhecido como Orlando da Curicica, nos assassinatos, segundo reportagem do jornal "O Globo".

Ambos negam qualquer relação com o crime -- Siciliano disse ter boa relação com Marielle e o ex-PM afirmou que o delator é um policial militar da ativa que age por vingança.

Procurada, a Polícia Civil não comenta se eles são considerados oficialmente suspeitos. Na tarde de hoje, o ministro de Segurança Pública, Raul Jungmann, confirmou que o vereador e o ex-PM são investigados.

O delator também revelou, segundo o jornal carioca, que um policial lotado no 16º BPM (Olaria) e um ex-policial do 22º BPM (Maré) estariam no carro usado na morte de Marielle. Procurada, a PM informou não ter sido "comunicada sobre o envolvimento de policiais militares no caso em questão".

O que será verificado na reconstituição?

Fontes ligadas à Polícia Civil afirmaram que o intuito é observar a perícia do atirador e questões relativas à arma, uma vez que serão dados tiros reais.

Trata-se de uma forma de obter provas técnicas para se chegar à autoria dos assassinatos, segundo o delegado Orlando Zaccone, que atualmente está licenciado. "Talvez a linha de investigação esteja voltada para a apreensão da arma, ou seja, a investigação chegaria no autor por meio da arma", opina.

Testemunhas que prestaram depoimento à Divisão de Homicídios vão participar --caso da assessora da parlamentar que estava no carro com ela e sobreviveu ao ataque, além de pessoas que se encontravam na rua no momento do crime.

"Tem que ser feito com a presença dela [assessora de Marielle] para averiguar a posição do carro, o momento dos disparos, o quanto o carro andou depois dos disparos. Ela vai dar informações que podem esclarecer dúvidas", analisa Zaccone.

"Não tenho envolvimento com o inquérito, mas o que poderia ser buscada é a identificação de um tipo de armamento específico, como um desdobramento da investigação. A ideia é obtenção de mais uma prova em relação a isso a fim de se identificar uma arma que pode vir a ser apreendida com um suspeito de autoria", prossegue o delegado.

De acordo com ele, essas hipóteses são aferidas a partir do conjunto de evidências do inquérito e dos relatos das testemunhas. Daí o uso de munição e armamento real para efetuar esses testes.

Luis Kawaguti/UOL
Sacos com areia serão usados para tiros no local da reconstituição

O direcionamento, no entanto, vai ser dado pelos delegados que presidem o inquérito. "Há uma série de perguntas que podem ser feitas: foram as cápsulas achadas no chão que atingiram Marielle? Esse tipo de armamento poderia ter feito os disparos da forma que foi feito? E assim por diante", explica o delegado.

Além da apuração sobre a arma usada no crime, a versão de testemunhas também será averiguada. 

"Muito provavelmente a polícia teve acesso a testemunhos que parecem plausíveis ao longo do período que decorreu do crime e quer testar uma ou mais versões", analisa Hélio Buchmüller, presidente da Academia Brasileira de Ciências Forenses (ABCF).

Segundo ele, a perícia vai verificar se tudo o que foi coletado até então é possível. "Uma testemunha diz que viu e ouviu aquilo; a perícia vai verificar se é possível de acordo com as condições: horário, iluminação, distância. É um processo complexo que requer experiência", relata.

Na avaliação dele, o fato de a reconstituição ocorrer quase dois meses após os assassinatos não deve prejudicar as investigações. "Ainda que seja quase dois meses depois, é melhor fazer do que não fazer. É um processo muito interessante para verificação de versões", finaliza.

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