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Para especialistas, novo relatório aponta para culpa da Vale em Brumadinho

Cidadãos observam dano causado pela lama que atingiu a região de Brumadinho (MG) após o rompimento de uma barragem de rejeitos de minério da Vale, em janeiro - Cadu Rolim/Fotoarena/Estadão Conteúdo
Cidadãos observam dano causado pela lama que atingiu a região de Brumadinho (MG) após o rompimento de uma barragem de rejeitos de minério da Vale, em janeiro Imagem: Cadu Rolim/Fotoarena/Estadão Conteúdo

Ana Carla Bermúdez

Do UOL, em São Paulo

13/12/2019 04h00

Resumo da notícia

  • Relatório aponta que barragem se rompeu por conta de "liquefação estática de rejeitos"
  • Especialistas dizem que a Vale deveria ter controlado os fatores que levaram à ruptura
  • Empresa diz que está enviando cópias dos relatórios para autoridades na investigação

Um relatório elaborado por um painel de especialistas contratado pela assessoria jurídica externa da Vale sobre o rompimento da barragem em Brumadinho (MG) aponta como causas técnicas para a tragédia fatores de responsabilidade da própria mineradora. A avaliação é de especialistas consultados pelo UOL.

Divulgado ontem, o documento diz que a barragem se rompeu como resultado de uma "liquefação estática de rejeitos". Na prática, esse fenômeno acontece quando há uma mudança física em um material sólido ou pastoso, passando para um estado mais líquido.

O relatório aponta, ainda, que rompimentos de barragens "raramente se devem a uma só causa" e lista uma série de fatores para o ocorrido: entre elas, a falta de drenagem interna; o alto teor de ferro, que teria gerado rejeitos rígidos com "comportamento potencialmente muito frágil se sujeitos a um gatilho"; e a precipitação regional alta e intensa na estação chuvosa.

"Ela [a Vale] poderia controlar esses fatores todos", afirma Evandro Moraes da Gama, professor titular do departamento de engenharia de minas da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais).

"Toda essa conclusão técnica é verdadeira, mas não resolve e não justifica o problema", diz Dickran Berberian, professor do departamento de engenharia civil e ambiental da UnB (Universidade de Brasília). Segundo ele, os fatores "denotam total falta de ação por parte da Vale".

O relatório divulgado hoje destaca que os especialistas do painel contratado pela assessoria jurídica externa da Vale não avaliaram questões relacionadas à potencial responsabilidade corporativa ou pessoal pelo rompimento. "Em vez disso, sua incumbência foi expressamente limitada à determinação das causas técnicas do rompimento", diz o texto.

Em nota ao UOL, a Vale diz que está enviando cópias do relatório a autoridades, empresas de consultoria e de auditoria "em linha com seus contínuos esforços em cooperar com as investigações". "A Vale reafirma os seus compromissos de colaborar ativa e plenamente com as investigações das autoridades competentes e prestar todo o apoio necessário às comunidades atingidas."

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"Têm de prever"

Gama pontua que as operações no entorno da barragem poderiam ter sido feitas de forma que o fenômeno da liquefação não ocorresse. "Quando eu construo uma barragem, os métodos de engenharia têm de prever o que pode acontecer", afirma.

O excesso de ferro, ele pontua, poderia ter sido retirado no tratamento dos rejeitos para ser transformado em aço. "Se começa a entrar muito teor de ferro na barragem, é porque o tratamento de minério não está conseguindo fazer o seu papel", diz.

Além da falta de drenagem interna, Gama afirma que, para o caso das chuvas, a Vale poderia ter realizado drenagens no entorno da barragem.

No fundo, se resume a uma única coisa: negligência
Dickran Berberian, professor do departamento de engenharia civil e ambiental da UnB

Ele destaca que o próprio relatório aponta que não houve atividade sísmica ou registro de detonações antes do rompimento da barragem e que "nenhum dos dispositivos de monitoramento detectou precursores do rompimento".

"Não houve nenhum terremoto, não houve nenhuma chuva excepcional que justificasse um incidente. O excesso de ferro pode pesar um pouco ali, mas o Brasil tem técnicos capazes de farejar isso. Até mesmo porque não é nenhum fato anormal, que não se estude ou que não se conheça", afirma.

Para Gama, é também fundamental que a barragem seja vista como um sistema integrado com toda a sua área de drenagem, de pluviometria de chuva e das especificidades do local e do terreno onde foi construída —o que, na visão dele, não aconteceu.

"O problema se resume novamente e vergonhosamente em falta de inspeção regular", afirma Berberian. "Uma inspeção rotineira teria evitado todas essas mortes".

A tragédia de Brumadinho aconteceu em janeiro deste ano e deixou mais de 250 mortos.

A Vale desde que, desde então, tem realizado uma análise em suas barragens que "são suscetíveis ao risco de liquefação". Segundo a empresa, ela monitora, atualmente, 92 barragens, a partir de uma equipe criada em fevereiro passado.

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