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Segurança pública

'Ainda estamos abandonados': da ocupação de 2010 à chacina da Vila Cruzeiro

Local de fuga de criminosos em ocupação de 2010 foi o mesmo de chacina desta terça-feira (24) na Vila Cruzeiro - UOL
Local de fuga de criminosos em ocupação de 2010 foi o mesmo de chacina desta terça-feira (24) na Vila Cruzeiro Imagem: UOL

Herculano Barreto Filho

Do UOL, no Rio

28/05/2022 04h00

A chacina em uma ação policial que deixou ao menos 23 pessoas mortas nesta terça-feira (24) na Vila Cruzeiro, zona norte carioca, traz o retrato do que moradores e especialistas apontam como o fracasso das políticas públicas para a região, intensificadas com a megaoperação de ocupação de novembro de 2010 na Penha e no Complexo do Alemão.

A sensação de quem frequenta a região é de abandono do poder público e de escalada da violência.

Levantamento obtido pelo UOL apontou que ações contra o tráfico local motivaram quatro chacinas com cerca de 40 mortes em apenas um ano de gestão do governador Cláudio Castro (PL). Nesse período, ocorreram cerca de 180 assassinatos em 40 chacinas no Rio de Janeiro, aponta o estudo.

As imagens da fuga em massa de homens armados da Vila Cruzeiro, na Penha, em direção ao Complexo do Alemão —um dos principais redutos do CV (Comando Vermelho)—,em meio à megaoperação de novembro de 2010, ganharam repercussão internacional e se tornaram uma espécie de símbolo do resgate de um território nas mãos do crime organizado.

Quase 12 anos depois, a mesma estrada de terra se tornou palco do mais recente massacre, com corpos resgatados de uma área de mata no local e relatos de terror. O número inicial de mortes informado pela polícia foi de 26, revisado para 23. Nenhum dos mortos era do Bope (Batalhão de Operações Especiais) ou da PRF (Polícia Rodoviária Federal), que participaram da ação.

Um ativista social, que gravou o momento em que um dos PMs atirou na sua direção, disse ter ajudado a retirar da mata o corpo de um homem que teria sido obrigado a comer um pó branco semelhante à cocaína antes de ser morto, segundo relato de moradores.

Fizeram aquele jovem comer cocaína antes de ser morto. A única coisa que a gente recebe do Estado é a violência. Nada mudou da pacificação de 2010 para cá, amigo. Qual projeto social entrou aqui? Ainda estamos abandonados"
Luís Cláudio dos Santos, líder comunitário na Vila Cruzeiro

"A Vila Cruzeiro é conhecida como uma região sob o domínio do tráfico. Uma das formas de minimizar a violência nesses territórios é dizer que os mortos nas chacinas eram criminosos. No Brasil, isso serve como justificativa para execuções", avalia Daniel Hirata, pesquisador na área de segurança pública na UFF (Universidade Federal Fluminense) e integrante do Geni (Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos).

Ao comentar as chacinas ocorridas no governo Cláudio Castro, a Polícia Civil afirmou que "na atual gestão, todos os mortos por tiros de policiais civis disparados durante operações foram de criminosos que entraram em confronto com os agentes".

"É preciso pensar políticas de segurança pelo acesso a serviços na cidade", propõe Maria Isabel Couto, diretora de programas do Instituto Fogo Cruzado. "Há uma aceleração de intervenção armada e truculenta das polícias nessa região. Alguém está mais seguro na Vila Cruzeiro e na cidade do Rio de Janeiro com essas ações policiais espetacularizadas pelo poder público?", questiona.

Promessa de "reocupação" de secretário não sai do papel

Em novembro de 2020, quando a megaoperação no Complexo do Alemão e Penha completou dez anos, o UOL ouviu moradores e especialistas, que questionaram o legado deixado pela proposta de pacificação em um cenário onde prevalecia uma política de forte presença policial e intimidação.

Na ocasião, Allan Turnowski, secretário de Polícia Civil do Rio, disse que o governo do estado estudava uma "reocupação definitiva" para a região a partir de 2021.

"O que resolve é uma reocupação definitiva do território. Não vamos inventar a roda. Vamos apenas repetir o que deu certo e corrigir os erros".

Procurada, a Polícia Civil informou que a ação foi colocada em prática no programa Cidade Integrada, no Jacarezinho e na Muzema. Contudo, a iniciativa voltada para o Complexo do Alemão e Penha não saiu do papel.

'É a repetição do mesmo fracasso'

Rene Silva, ativista social e presidente da ONG Voz das Comunidades, vê a pacificação como o símbolo do fracasso das ações de políticas públicas para a região. "O que o Estado tem oferecido para a Vila Cruzeiro nesses últimos anos? Hoje, ainda vemos crianças sem poder ir para a escola e pessoas inocentes sendo baleadas. É a repetição do mesmo fracasso, nada mudou", critica.

Ele questiona a inexistência de projetos sociais eficazes para oferecer oportunidades e perspectivas às crianças.

Aquele menino que tinha 8 anos durante a pacificação hoje é um adulto. Se ele está segurando um fuzil é porque o Estado não soube trazer oportunidade para que ele tivesse outro tipo de vida. Isso vai continuar, se não tivermos políticas públicas eficazes"
Rene Silva, ativista social

"A Vila Cruzeiro é conhecida como uma região sob o domínio do tráfico. Uma das formas de minimizar a violência nesses territórios é dizer que os mortos nas chacinas eram criminosos. No Brasil, isso serve como justificativa para execuções", avalia.

Ordens do tráfico atrás das grades, diz PF

O tráfico de drogas na Vila Cruzeiro é chefiado por Edgard Alves de Andrade, 52. Conhecido como Doca no mundo do crime, ele tem mandados de prisão em aberto por tráfico de drogas e homicídios. Contudo, a Polícia Federal indica que Fabiano Atanásio da Silva, o FB, ainda repassa ordens ao crime organizado na Vila Cruzeiro mesmo atrás das grades.

De acordo com as investigações, uma intermediária era a responsável por passar as mensagens do criminoso captadas por um policial penal que as recolhia no Penitenciária Federal de Catanduvas (PR).

Imagens flagram entregas de bilhetes a chefões do CV em presídio federal

A rede de comunicação permitia a FB passar ordens como a que dizia para que os traficantes da Penha parassem de cobrar propina do comércio local, segundo apontou investigação sobre um esquema de envio de bilhetes para o presídio.

Flávia Fróes, advogada de Fabiano Atanásio da Silva, nega ligação dele com o comando do tráfico na Vila Cruzeiro e contesta as investigações. "Nenhum bilhete foi encontrado. O que existe é a foto de um bilhete em um e-mail, que dizem ter sido escrito pelo FB. Ele não é o chefe do tráfico na Vila Cruzeiro", diz a defensora.

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