Inveja no Facebook e lei italiana atraem jovens egípcios para a Europa

Declan Walsh

Em Burg Migheizil (Egito)

  • David Degner/The New York Times

Na pobre aldeia de pescadores de Burg Migheizil, na costa norte do Egito, onde o poderoso Nilo se despeja silenciosamente no mar, adolescentes inquietos planejam sua fuga, atraídos por sonhos ilusórios de dinheiro e glamour.

Um garoto de 15 anos disse que cinco de seus amigos já chegaram à Itália, depois de perigosas jornadas pelo mar que começaram na calada da noite. Alguns trabalharam para os contrabandistas, pilotando barcos cheios de migrantes pagantes, em troca de uma passagem grátis. Outros pagaram pela viagem.

Quase todos mandaram para casa, via Facebook, fotos de causar inveja e relatos de coragem sobre sua nova vida: dinheiro, namoradas, tênis vistosos. O adolescente, Ashraf, que pediu para não ser identificado porque seu pai trabalha para o governo local, disse que também pretende partir logo.

"O Facebook é uma coisa real", disse por telefone Viviana Valastro, diretora de serviços de crianças imigrantes na Save the Children Itália. "Mesmo que uma criança desacompanhada esteja vivendo em más condições, elas apresentam uma imagem positiva para seus amigos. Querem mostrar que são bem-sucedidas."

Um aumento repentino no número de adolescentes egípcios que fogem para a Europa, a maioria com destino à Itália, aumentou o êxodo humano através do Mediterrâneo neste verão, das praias do norte da África à Europa. Pelo menos 1.150 menores egípcios desacompanhados chegaram à Itália nos primeiros cinco meses deste ano, comparados com 94 no mesmo período em 2015, segundo o Ministério do Interior italiano.

David Degner/The New York Times
Ehab Nassar, que entrou ilegalmente na Grécia há dois anos e depois foi deportado, agora está de volta a Burg Migheizil

Especialistas se esforçam para compreender o que há por trás dos números crescentes. Diferentemente de outros países migrantes, o Egito não sofre uma dura guerra civil ou uma pobreza debilitante.

Eles apontam para uma terrível combinação de fatores: a economia estagnada; as leis italianas permissivas que indiretamente encorajam a migração infantil; a proliferação das redes de contrabando; e exemplos ilusórios do que outros adolescentes egípcios conseguiram.

Sejam quais forem os motivos, os adolescentes representam uma parcela incomumente alta e crescente de migrantes do Egito --cerca de dois terços em 2015, contra aproximadamente um quarto em 2011. Algumas aldeias estão ficando sem meninos, muitas vezes a pedido das próprias famílias.

Os adolescentes não se lembram das imagens calamitosas da morte no mar --barcos virados, corpos boiando perto da praia-- que dominam as notícias na imprensa. Eles se fixam nas imagens de aparente sucesso enviadas pelas redes sociais pelos que têm êxito --mesmo que essas imagens muitas vezes escondam uma realidade mais árdua e perigosa que inclui a exploração, o crime e a prostituição.

Em Burg Migheizil, que foi devastada por décadas de pesca excessiva nas águas egípcias, o contrabando se tornou a âncora da economia local. À noite, ônibus de Alexandria e do Cairo chegam pelas estradas esburacadas, carregando migrantes a caminho de uma praia próxima, onde são amontoados em barcos que aguardam.

Pescadores desempregados servem às vezes de contrabandistas, pilotando os barcos pelo Mediterrâneo. Agricultores abrigam migrantes africanos e sírios antes do embarque. O estaleiro local desfruta um momento de riqueza, enquanto seus trabalhadores preparam barcos com cascos de aço que carregam gente, em vez de peixe. Nenhum deles está infringindo a lei --de acordo com uma peculiaridade da lei egípcia, contrabandear pessoas não é ilegal.

David Degner/The New York Times
Mohammed el-Ghatani perdeu um filho há dois anos e um sobrinho há um mês, que se afogaram no Mediterrâneo tentando chegar à Europa, em Burg Migheizil

Muitas vezes, porém, o comércio assume um viés sombrio. No início de junho, segundo moradores, dezenas de migrantes africanos ficaram ali depois de uma discussão entre traficantes humanos rivais que os fez perder o barco. Semanas antes, dois corpos apareceram na praia. Reportagens na imprensa egípcia identificaram os mortos como um egípcio de 20 anos e um somaliano.

Na Europa, muitos contrabandistas acabam presos. Em entrevistas, vários pais e cônjuges chorosos disseram que seus jovens parentes foram presos pela polícia europeia. Um grupo de pescadores locais disse que mais de 4.000 homens de Kafr El Sheikh, a jurisdição que inclui Burg Migheizil, foram presos ou detidos na Europa sob acusações de contrabando.

As famílias dos adolescentes que partiram ficam divididas entre o desejo de que seus filhos encontrem uma vida melhor e a tristeza por eles terem partido. Em sua casa no final de um beco, Nasara Shawky segurava uma foto dos dois filhos, de 16 e 17 anos, que estão em Roma. "Sinto-me muito só", disse ela. "Toda esta aldeia foi destruída pelo mar."

Para os jovens irrequietos, quase nada pode impedir seus sonhos de fuga. Ehab Nasser, 21, disse que detestava seu emprego de pescador. A vida no mar era cruel e solitária, disse ele --longas viagens às águas perigosas da Líbia devastada pela guerra em busca de peixes, muitas vezes por apenas US$ 100 por mês (R$ 340,00). Dois anos atrás, ele conseguiu chegar sozinho à Grécia, depois de vender o dote de casamento de sua mãe por cerca de US$ 2.800.

A viagem acabou em um centro de detenção grego e na eventual deportação ao Egito. Mas ele tentará de novo em breve. Seus olhos se acendem quando mostra uma foto no Facebook de seu vizinho Ismail, que hoje está em Londres. Na imagem, o rapaz mostra um leque de libras esterlinas, com o polegar erguido, enquanto fuma um cigarro.

"É isso o que eu quero", disse Nasser.

David Degner/The New York Times
Marina em Burg Migheizil, no Egito, de onde partem barcos que tentam cruzar o Mediterrâneo em direção à Europa

Mas cada história de sucesso é compensada por um episódio marcado por lágrimas. Em uma casa de fazenda cercada por enormes tamareiras, o agricultor Mohamed El Ghatani contou como soube que seu sobrinho Amir, de 16 anos, se afogou a caminho da Europa no mês passado.

Apenas dois anos antes, disse Ghatani, seu próprio filho morreu da mesma maneira. "É terrível", disse ele, com os olhos se avermelhando ao lembrar. "Eles pensam que vão chegar à Europa e ter uma vida ótima. Não é verdade, é claro, mas eles não sabem disso."

Mais de 7.000 menores desacompanhados de diversos países chegaram à Itália nos primeiros cinco meses deste ano, o dobro dos que chegaram no ano passado, segundo o Fundo para Crianças da ONU (Unicef).

O principal problema, segundo Naela Gabr, uma diplomata que chefia os esforços oficiais do Egito para conter a migração ilegal, é a lei italiana, que proíbe a deportação involuntária de menores desacompanhados.

O Estado italiano oferece aos menores estrangeiros escola e documentos temporários. Quando eles completam 18 anos, podem pedir a residência permanente --uma atração poderosa para as famílias que enviam seus adolescentes.

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Da esquerda para a direita, os irmãos egípcios Mohamed Ahmed e Said Ahmed, que agora estão na escola na Itália, e Hassan Ahmed, que está preso lá

Muitas vezes, porém, isso não funciona tão simplesmente, disse Valastro, a assistente social em Roma. Desesperados para começar a pagar os empréstimos feitos por seus pais, muitos migrantes egípcios tentam começar a trabalhar imediatamente, o que prejudica suas chances de conseguir os estudos ou os papéis oficiais.

No ano passado, algumas reportagens descreveram os jovens egípcios que vendem drogas ou se dedicam à prostituição na maior estação ferroviária de Roma. Mas principalmente, disse Valastro, eles acabam trabalhando por salários miseráveis em restaurantes ou mercados de frutas.

"Eles não entendem o significado da palavra 'exploração'", disse ela. "Pensam que essas pessoas os estão ajudando porque lhes dão dinheiro, mesmo que sejam só 10 euros por oito horas de trabalho."

Agora o governo egípcio está levando a luta ao Facebook. Gabr disse que preparou uma campanha de comunicação para convencer os jovens egípcios a não deixar seu país.

Mas Nasser, o jovem pescador inquieto, disse que está decidido a partir de qualquer modo, e sua família o apoia firmemente.

Sua mãe, Azza Abdel Fattah, indicou com a mão o quarto com pintura descascada e paredes quebradiças onde estávamos sentados. "Queremos que ele chegue à Europa para construir um futuro e nos salvar disto", disse ela. "É por isso que nós rezamos."

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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