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Bolsonaro tem alta e deixa hospital: 'Só Deus me tira daquela cadeira'

Afonso Ferreira e Luiza Missi

Do UOL, em São Paulo*

18/07/2021 09h57Atualizada em 19/07/2021 15h03

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) deixou o Hospital Vila Nova Star, na zona sul de São Paulo, na manhã de hoje, após receber alta médica. Ele estava internado no local desde quarta-feira (14) para tratar uma obstrução intestinal.

Depois de deixar o hospital acompanhado por Valdemiro Santiago, líder da Igreja Mundial do Poder de Deus, e pelo deputado federal José Olímpio (DEM-SP), Bolsonaro seguiu para o aeroporto de Congonhas, onde embarcou para Brasília. Até o momento, não há compromissos em sua agenda para hoje e amanhã.

Tudo o que eu falo se volta contra mim, como se fosse um genocida. Como se só no Brasil morresse gente!"
Jair Bolsonaro

Bolsonaro deixou a unidade por volta das 9h50 e parou para conversar com jornalistas. Diante dos microfones, ele retirou a máscara e voltou a afirmar que só Deus o tira da Presidência, criticou a CPI da Covid, falou em "cura" para a doença causada pelo novo coronavírus e sobre o voto impresso auditável. Diversas dessas informações são mentirosas e foram checadas pelo UOL Confere.

Acusando a imprensa de agir de "má-fé", o presidente também defendeu o ex-ministro da Saúde general Eduardo Pazuello, visto em vídeo com representantes de um grupo que dizia vender vacinas da CoronaVac sob suspeita de superfaturamento, no gabinete do então segundo nome da Saúde, coronel Elcio Franco. Segundo o Instituto Butantan, que produz o imunizante, não há terceiros autorizados a negociá-lo.

"Se fosse algo superfaturado, ele [Pazuello] estaria dando entrevista?", questionou. "Brasília é o paraíso dos lobistas", disse Bolsonaro, negando que tenha havido superfaturamento de vacinas, como investiga atualmente a CPI da Covid. A comissão apura denúncias no contrato do governo para aquisição da vacina Covaxin, e também o pedido de uma suposta propina na compra de doses da vacina AstraZeneca.

Não deixei de trabalhar aqui. Conversei com vários ministros, paguei missão para vários ministros. Vou pegar o Queiroga amanhã, conversar com ele, a questão da covid. Todo mundo tá preocupado, obviamente."
Jair Bolsonaro

CPI da Covid

Bolsonaro criticou a CPI da Covid e negou a existência de um gabinete paralelo de aconselhamento sobre temas relacionados à pandemia. De acordo com o presidente, a investigação tem como objetivo prejudicar seu governo e faz parte de uma narrativa de oposicionistas para manchar sua imagem.

Querem derrubar o governo? Já disse, só Deus me tira daquela cadeira. Será que não entenderam que só Deus me tira daquela cadeira?"
Jair Bolsonaro

O presidente comparou a CPI da Covid com uma investigação em curso no Senado americano que busca esclarecer a origem do coronavírus.

A CPI daqui fica o tempo todo me acusando de corrupto. Eu não comprei, eu não paguei. E quem paga é alguém lá do ministério, é todo dia uma narrativa, é a CPI da cloroquina, é gabinete paralelo. Como se eu não tivesse autoridade para mudar alguém de ministério."
Jair Bolsonaro

Fundo eleitoral

Bolsonaro sinalizou que pode vetar o fundo eleitoral de cerca de R$ 6 bilhões para as eleições de 2022, aprovado nesta quinta-feira (15) pelo Congresso Nacional, no âmbito da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO). "Eu já antecipo, R$ 6 bi pra fundo eleitoral, para financiamento de campanhas, pelo amor de Deus", afirmou.

De acordo com Bolsonaro, o vice-presidente da Câmara, Marcelo Ramos (PL-AM), que presidia a sessão, "passou por cima" e não pôs em votação um destaque à redação da LDO que retiraria a previsão de reajuste do fundo eleitoral.

Ramos respondeu Bolsonaro dizendo que o presidente terceiriza responsabilidades, já que poderia anunciar que vai vetar o fundo eleitoral. "Quero lembrar que não houve protestos pelos líderes do governo, nem pelo líder do partido do filho dele contra a votação simbólica", disse o parlamentar.

O texto que ampliou o fundo eleitoral foi integrado ao projeto de lei pelo relator, deputado Juscelino Filho (DEM-MA), apenas no relatório final aprovado pela CMO (Comissão Mista de Orçamento) antes de ser encaminhado ao plenário do Congresso. O relatório aprovado na CMO teve voto contrário de apenas quatro parlamentares.

Na votação no Congresso, depois de aprovada a LDO, as bancadas do Novo na Câmara e do Podemos no Senado apresentaram um destaque para retirar o trecho que amplia o fundo eleitoral. O Novo pediu votação nominal e orientação de bancada. Ramos negou os dois pedidos.

Logo depois que o destaque foi derrubado, Novo, Cidadania, Podemos, PSOL e PSL e um grupo de deputados federais, em sua maioria governistas, pediram para registrar que eram contra a ampliação do fundo eleitoral nos termos da LDO. Naquele momento, no entanto, o efeito prático deste registro já era nulo.

Droga não aprovada contra covid-19

Bolsonaro voltou a defender tratamentos com medicações sem eficácia comprovada para a covid-19, após uma comissão do Ministério da Saúde contraindicar cloroquina e hidroxicloroquina contra a doença.

O presidente pediu por estudos no Brasil da proxalutamida — medicamento usado no tratamento de cânceres, como o de próstata e câncer de mama —, que ele diz estar acompanhando estudos internacionais há algum tempo.

O que me surpreende é de ver o mundo, alguns países investindo em remédio para curar a covid, e aqui, quando você fala de cura para covid, parece que você é criminoso. Não pode falar em cloroquina, ivermectina."
Jair Bolsonaro

Atualmente, a proxalutamida está sob investigação e não é comercializada. Seu uso para covid-19 não foi aprovado pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), FDA (órgão regulador dos EUA) ou qualquer outra agência regulatória equivalente.

Bolsonaro disse que durante sua internação teve acesso a estudos — sem citar quais — do CDC (Centro de Controle de Doenças) dos Estados Unidos que apontam que as principais vítimas da covid-19 são pessoas obesas, seguidas de quem está tomada pelo pavor ou pânico, reforçando o discurso que adota desde o ano passado contra o isolamento social.

Voto auditável

O presidente voltou a criticar o presidente do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) e a defender a adoção do voto auditável impresso no país. A proposta está em tramitação na Câmara dos Deputados.

Sem apresentar provas, Bolsonaro falou novamente de fraude nas urnas eletrônicas — sobre o qual não há provas — e colocou em dúvida o sistema eleitoral brasileiro.

Será que esse voto eletrônico, que é usado no mundo todo, é tão confiável assim? Por que essa briga? Nós queremos transparência nas eleições. Não existe eleições sem transparência, isso é fraude. Não queremos isso."
Jair Bolsonaro

Desde que as urnas eletrônicas foram implementadas —parcialmente em 1996 e 1998, e integralmente a partir de 2000— nunca houve comprovação de fraude nas eleições brasileiras, mesmo quando os resultados foram contestados. A segurança da votação é constatada pelo TSE, pelo MPE (Ministério Público Eleitoral) e por estudos independentes.

Facada em 2018

Bolsonaro também repetiu que o problema que o levou à internação foi uma consequência da facada que levou durante a campanha eleitoral de 2018. O presidente já havia feito essa associação ao menos duas vezes durante sua internação.

"A causa disso [dores no estômago] era uma obstrução intestinal, porque a aderência é comum para quem já sofreu cirurgias como eu sofri vivendo aquela facada do ex-psolista Adélio lá em Juiz de Fora", afirmou.

*Com Estadão Conteúdo

Errata: o texto foi atualizado
Ao contrário do informado em versão anteriormente publicada desta reportagem e sua respectiva chamada na Home Page do UOL, o presidente deixou o hospital usando máscara de proteção, que foi retirada durante sua entrevista.

O governo Bolsonaro teve início em 1º de janeiro de 2019, com a posse do presidente Jair Bolsonaro (então no PSL) e de seu vice-presidente, o general Hamilton Mourão (PRTB). Ao longo de seu mandato, Bolsonaro saiu do PSL e ficou sem partido. Os ministérios contam com alta participação de militares. Bolsonaro coloca seu alinhamento político à direita e entre os conservadores nos costumes.