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Família de Arlindo Cruz torce para que ele seja liberado até o Carnaval

Marcelo Justo/UOL
Babi Cruz, mulher de Arlindo Cruz, durante ensaio da X-9 Paulistana Imagem: Marcelo Justo/UOL

Soraia Gama

Colaboração para o UOL, em São Paulo

2019-02-03T04:00:00

03/02/2019 04h00

Mesmo vindo de uma família de sambistas, Babi Cruz teve de encarar muita cara feia quando apresentou Arlindo Cruz como namorado. A menina, que desfilou como porta-bandeira pela primeira vez aos 12 anos, tinha apenas 15 quando o romance começou. "Não foi fácil. O Arlindo apanhou muito da minha avó. Mas ele aguentou firme!", relembra Babi, que solta uma gargalhada em seguida.

O riso solto e fácil da família Cruz parece estar no DNA. Além de Babi, Flora, a caçula do casal, Alexandre, o genro, e Maria Helena, a neta (filha de Arlindinho) esbanjaram alto-astral antes e durante o ensaio técnico da X-9 Paulistana nesta sexta (1). A escola vai homenagear o sambista carioca neste Carnaval.

A felicidade é reforçada pela boa recuperação do artista, que há sete meses teve alta do hospital, onde ficou por 16 meses após um AVC. Agora, o sambista segue com o tratamento médico em casa. "Ele pode ser considerado um milagre. Reaprendeu a respirar, a comer, e está reaprendendo a falar", conta Babi.

Fato é que durante esse tempo em casa, Arlindo não teve variações de pressão arterial e em nenhum momento precisou de oxigênio. "E olha que teve fortes emoções", diz Babi, referindo-se à gravidez inesperada de Flora, a caçula do casal, hoje com 16 anos e no 6º mês de gestação.

Boa parte dessa melhora se deve também à dedicação da família. "Ele tem muito carinho 24 horas por dia. Muito chamego, muita atenção e muito dengo", garante Babi. 

Pronta para desfilar na quarta alegoria da escola, Flora diz que a torcida é para que Arlindo seja liberado para estar no Anhembi ao lado da família. "Os profissionais da saúde é que vão decidir." Arlindinho e Kauan (outro filho do cantor) também vão participar da homenagem ao pai, no dia 1º de março.

Como porta-bandeira, Flora defendeu o pavilhão da Mocidade Independente de Padre Miguel e da União da Ilha. Só parou de desfilar quando Flora tinha uns 2 anos de idade. "Já tinha realizado meus sonhos. Pensei que era hora parar e cuidar mais da minha família."

O amor com Arlindo começou em um show da Beth Carvalho, no qual Babi se apresentava. Beth, que é madrinha de incontáveis sambistas, também se tornou madrinha dessa união. Jornalista formada, Babi manteve a parceria com Arlindo também no campo profissional, cuidando da agenda do marido e ajudando a produzir alguns trabalhos musicais.

Em relação ao casamento oficial dos dois, ela cai na risada (de novo!): "Fiquei noiva por 26 anos. Estamos juntos desde 1986 e nos casamos só em 2012!".

Emoção que não acaba mais

Flora e Babi se encantaram com o que viram na X-9 Paulistana (confira a programação do desfile em São Paulo). "O que mais me emocionou foi a forma como o Amarildo [de Mello, carnavalesco] desenrolou o enredo. Ele consegue mostrar como a humanidade enxerga o Arlindo pelas suas músicas."

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Flora, filha de Arlindo, o companheiro dela, Alexandre, e a pequena Maria Helena, neta do sambista Imagem: Marcelo Justo/UOL

A filha, que já tinha se emocionado no dia do lançamento do enredo, diz que ficou sem ação ao visitar o barracão da X-9. "Eu perdi a voz. Nunca tinha visto nada grandioso assim. Ele já tinha ganhado homenagens, como a peça 'Será que É Amor', mas agora é diferente! No barracão eu vi as coisas que ele me contou que viveu."

Para ela, o pai é isso e muito mais. "Além de ser um artista incrível, um ser humano de paz, de exemplo de garra, de amor à religião e ao mundo, ele sempre foi meu melhor amigo. Um paizão para mim e meus irmãos."

Esperando pelo nascimento de Ridan (Nair ao contrário, em homenagem à avó materna), Flora ainda divide todos os seus momentos com o pai. "A cabeça, o coração e a alma dele não estão doentes. Ele bota a mão na minha barriga, faz carinho, sorri. Ele sabe de tudo. Sempre contei tudo para ele e continuo fazendo isso."

A caçula também relembrou o dia anterior ao AVC do pai. "Tínhamos ido ver 'Cartola' [Arlindo compôs um samba exclusivo para o musical] e ele disse: 'Não esperem os cem anos do Arlindo Cruz para falar da minha história'. Para ele, os artistas devem ser homenageados em vida."

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Babi Cruz, mulher de Arlindo Cruz, feliz no ensaio na escola paulistana Imagem: Marcelo Justo/UOL

A ideia do enredo

O enredo em homenagem a Arlindo Cruz surgiu em 2015. "Saí do desfile das campeãs com essa ideia na cabeça. Peguei um voo para Campos dos Goytacazes, no Rio, e quem eu encontro no mesmo voo? Arlindo é um sociólogo do povo e sabe, com suas músicas, dar poder ao homem pobre. A escola chora, se emociona. Não há quem não goste dele", defende o carnavalesco.

Questionada sobre a relação de Arlindo com Amarildo, Babi avisa com ótimo humor: "A relação dele é comigo!". Amiga do carnavalesco desde o tempo em que desfilavam juntos, as lembranças são as melhores possíveis. "Em 1995, o Amarildo ganhou o Estandarte de Ouro [prêmio aos melhores do Carnaval carioca] como passista, e eu, como porta-bandeira. Nós éramos da União da Ilha, já éramos amigos. Ele só não tinha ainda tido a oportunidade de colocar o enredo na avenida."

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