Baleado, sobrevivente do Carandiru diz que foi salvo por ouvir "anjo da guarda"

Janaina Garcia

Do UOL, em São Paulo

"Parece que um anjo me disse: não faça isso". A declaração é do pedreiro Marco Antonio de Moura, 44, sobrevivente do massacre do Carandiru e segunda testemunha a depor nesta segunda-feira (15), no júri popular de 26 policiais militares julgados pela morte de 15 presos da antiga Casa de Detenção do Estado.

De acordo com a testemunha, que depôs por cerca de uma hora, a atitude evitada logo após a ação dos policiais foi não ter erguido os braços quando, no pátio para onde os sobreviventes foram levados, os PMs perguntaram quem estava ferido. "Os presos que estavam feridos e ergueram as mãos nós nunca mais os vimos", disse.

Personagens

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Durante o depoimento, a testemunha pediu que os PMs –24 réus no total, já que dois deles não compareceram ao julgamento-- não estivessem presentes na sala do júri. O mesmo pedido foi feito pelo também ex-detento Antonio Carlos Dias, 47, o primeiro a depor.  Ambos tiveram a solicitação atendida pelo juiz José Augusto Nardy Marzagão.

Moura, que cumpriu cinco anos e quatro meses de pena por assalto à mão armada, está livre desde 1994 e trabalha com registro em carteira há duas décadas, segundo relatou hoje ao juiz.

Questionado pelo magistrado, o ex-detento disse que estava na cela no segundo andar do pavilhão 9 --onde ocorreram as 15 mortes-- quando viu a Tropa de Choque a Polícia Militar entrar no prédio para conter não uma rebelião, como alegou o Estado à época, mas "uma briga de quadrilhas; um acerto de bandidos."

Da cela, a testemunha afirma que viu policiais mirando metralhadoras aos presos que estavam ali. De dez baleados, estimou, "pelo menos oito" morreram. A bala que atravessou um dos detentos atingiu o pé dele, que recebeu 14 pontos.

"Quando vi o Choque entrando, pensei: 'Nossa, vou apanhar pra caramba'", disse, lembrando que outras rebeliões já teriam sido contidas com violência pela corporação, também no Carandiru, mas com bombas de gás, não com tiros. "Eu lembro que o polícia (sic) colocou a cara no guichê [da cela] e começou a efetuar os disparos. Fiquei quieto e me fingi de morto", relatou.

Moura disse ao juiz que só após a chegada de uma "pessoa importante, de terno e gravata" --que, segundo ele, poderia ser um juiz corregedor --os policiais contiveram os ânimos. "Ali que eles [policiais] começaram a fazer o que tinha que ser feito e levar os presos para serem atendidos no pavilhão 4 [onde ficava a enfermaria]. Lá, fui tratado pelo doutor Drauzio [Varella] por quase 30 dias".

"Deus cria, a Rota Mata, e viva o Choque"

O ex-detento admitiu que os presos possuíam armas brancas, mas negou, a exemplo da primeira testemunha, que eles tivessem armas de fogo.

Ele confirmou que presos fizeram barricadas para evitar o acesso de policiais ao prédio, versão sustentada pela defesa e negada pelo outro sobrevivente que depôs, Antonio Carlos Dias.

Indagado pelo juiz se os policiais falavam algo, Moura foi enfático: "Sim. Diziam 'Deus cria, a Rota mata, e viva o Choque'". Quanto aos presos, Moura disse que o que mais ouviu lá "pelo amor de Deus".

O pedreiro afirmou ainda que não seria capaz de reconhecer o PM que fez os disparos pelo guichê da cela, mas disse se lembrar de um detalhe: "Ele tinha os olhos azuis. Mas não tenho  vontade de olhar para a cara de nenhum deles", concluiu o ex-detento, que afirmou ter ficado nervoso, hoje, antes de entrar no plenário. "Me deu um pânico. Passou quase 21 anos, mas para mim, é como se fosse ontem."

Antes de Moura, Antonio Carlos Dias afirmou que viu "muitos presos" serem mortos por policiais militares enquanto "escalavam pilhas de corpos" de internos vítimas do massacre.

Além dos ex-detentos, há mais 12 testemunhas de acusação --entre elas oito vitimas e o perito Osvaldo Negrini. Já a defesa arrolou dez testemunhas, entre elas o ex-governador Luiz Antônio Fleury Filho e o ex-secretário de Segurança Pública Pedro Franco de Campos.

Júri terá seis homens e uma mulher

O Conselho de Sentença que decidirá o futuro dos 26 policiais militares será composto por seis homens e uma mulher --a grande maioria jovens, aparentando idades entre 20 e 30 anos.

Dois dos réus não compareceram à sessão. Os que estão presentes entraram pelos fundos do fórum, longe da imprensa e do acesso do público ao prédio.

Os jurados foram selecionados em um grupo de 50 pessoas convocadas pela Justiça. Eles devem ter no mínimo 18 anos completos --menos, portanto, que os mais de 20 anos e seis meses decorridos do episódio classificado em 2000 como massacre por parte da OEA (Organização dos Estados Americanos).

O júri chegou a começar na última segunda (8), mas teve que ser adiado porque uma jurada passou mal e foi dispensada. Pelas regras judiciárias, uma vez sorteados os sete jurados que formam o Conselho de Sentença, a saída de algum deles implica em se formar um novo conselho.

Para isso, o Tribunal de Justiça de São Paulo convocou mais 33 pessoas, além de 17 das 50 convocadas semana passada, a fim de realizar novo sorteio.


84 PMs denunciados

No total, 84 policiais militares foram denunciados --destes, cinco já morreram, entre os quais o comandante da operação policial, o coronel da reserva Ubiratan Guimarães, assassinado em São Paulo em 2006, mesmo ano em que acabou sendo absolvido pelo Tribunal de Justiça de São Paulo de uma condenação a 623 anos que obtivera em 2001 pelas mortes no Carandiru.

Após a sentença, Marzagão --que em setembro de 2012 designou a data do júri-- deverá definir a data do próximo júri: dessa vez, o de 28 PMs, da Rota, acusados pela morte de 73 presos do terceiro pavimento.

O magistrado disse que espera julgar o caso todo até o final deste ano. De todas as acusações, 86, de lesão corporal leve, já prescreveram. As de homicídio prescrevem em 2020.

Veja como será o julgamento

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