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Tragédia em Brumadinho


Brumadinho: fragmentação de corpos dificulta localização de últimas vítimas

Divulgação/CBMMG
Bombeiro trabalho na busca em área atingida pelo vazamento da barragem da Vale em Brumadinho Imagem: Divulgação/CBMMG

Luciana Quierati

Do UOL, em São Paulo

2019-06-25T10:30:00

2019-06-25T13:22:28

25/06/2019 10h30Atualizada em 25/06/2019 13h22

Cinco meses após o rompimento da barragem da Vale em Brumadinho (MG), completados hoje, 246 mortes foram confirmadas, mas 24 pessoas ainda são consideradas desaparecidas e continuam sendo procuradas pelos bombeiros de Minas Gerais.

O número de mortos na tragédia não se altera desde 5 de junho, quando foi localizado o corpo do engenheiro Cristiano Jorge Dias, 42, funcionário terceirizado da Vale. Apesar do estado avançado de decomposição, o corpo permanecia inteiro, e pôde ser identificado pela arcada dentária.

"O corpo chegou para nós perto das 19h, e à meia-noite já havia sido identificado", diz o médico-legista Ricardo Moreira Araújo, chefe da seção de tanatologia forense (que se debruça sobre as causas e circunstâncias da morte) do IML (Instituto Médico-Legal) de Belo Horizonte.

Achar corpos inteiros, no entanto, é a exceção. Praticamente todos os dias os bombeiros localizam segmentos de corpos, na maioria das vezes pedaços de tecidos moles putrefeitos separados dos ossos - o que tem dificultado o trabalho de identificação, baseado hoje em exames de DNA, feitos no laboratório do Instituto de Criminalística da Polícia Civil mineira.

Segundo Araújo, por meio das arcadas dentárias e das impressões digitais (exame papiloscópico), o IML conseguiu identificar 69 corpos na primeira semana após a tragédia, até 31 de janeiro, e mais 118 no mês seguinte.

A partir de março, devido à grande fragmentação dos corpos, o exame de DNA passou a predominar nos trabalhos de identificação. Tornaram-se exceções casos como o do corpo encontrado no último dia 5, identificado pelo exame odontológico, e o de uma identificação feita por volta do 88º dia após a tragédia, a partir das digitais - esta, segundo Araújo, possivelmente um recorde.

"Não há registro na literatura médico-legal de identificação por papiloscopia depois de tanto tempo em tragédias desta natureza", disse.

Seguindo recomendações técnicas internacionais para os casos de identificação de vítimas de catástrofes em massa, todo material biológico identificado pela metodologia do DNA passa por um teste e sua contraprova, para confirmação, em um intervalo de 45 dias, em média.

"O exame de DNA tem demandado mais tempo, porque o material vem de um local contaminado e está em avançado estado de decomposição", explica o médico-legista.

Até ontem, segundo Araújo, havia 140 segmentos aguardando o resultado definitivo. Em torno de 60 deles, porém, pelo que apontaram os primeiros exames, pertenciam a pessoas identificadas anteriormente, ou seja, que já estavam na lista de mortos.

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Partes de corpos já identificados

Dos 26 exames de DNA cujos resultados ficaram prontos neste mês de junho, até o começo da tarde de ontem, quando o UOL falou com Araújo, todos mostravam tratar-se de partes de corpos de vítimas que já haviam sido liberadas para sepultamento, mesmo que com apenas alguns segmentos encontrados.

O IML, segundo Araújo, chegou inclusive a consultar o Ministério Público do estado, ainda nas primeiras semanas após a tragédia, sobre como proceder junto às famílias em casos como esses - que, àquela altura, já se apresentavam como inevitáveis.

Divulgação/CBMMG
Bombeiros usam cães farejadores, máquinas pesadas e drone nas buscas Imagem: Divulgação/CBMMG

Concluiu-se que as famílias, se assim o quisessem, deveriam ser informadas sempre que novos segmentos dos corpos de seus entes fossem achados e identificados. E que também poderiam optar por esperar até o fim das buscas para procederem os sepultamentos.

Familiares de apenas quatro ou cinco das 246 vítimas identificadas até hoje, de acordo com o legista, preferiram aguardar possíveis novos segmentos para só então fazerem o enterro. Enquanto isso, os restos mortais dessas vítimas seguem acondicionados no IML.

Quando as buscas forem encerradas, o material que ainda permanecer no instituto poderá ter como destino, a princípio, um memorial em homenagem às vítimas, que deverá ser erguido em algum ponto do município de Brumadinho.

Além de corpos de pessoas anteriormente já identificadas, o IML tem recebido material de animais em decomposição encontrado em meio à lama. Araújo diz que, neste mês, dos cerca de 26 segmentos encaminhados à sua equipe, 13 eram de não humanos.

Para o chefe do órgão, trata-se de um indicativo de que, se houver corpos de pessoas na lama, os bombeiros vão achar, uma vez que não estão deixando passar nada. "Isso mostra a qualidade do serviço que está sendo feito no local. Eles estão recolhendo tudo", diz.

A dor da espera

Uma das vítimas ainda não localizadas é a mulher de Evanir Geraldo Aparecido de Assis, 40, a enfermeira Angelita Cristiane Freitas de Assis, 38. O técnico em mecânica diz estar conformado, confortado pela fé que o faz acreditar que Angelita já foi recebida por Deus e está em um bom lugar.

Mesmo assim, semanalmente, ele não deixa de conferir no grupo de WhatsApp como caminham os trabalhos de busca.

O grupo onde Evanir busca informações é composto pelos familiares dos que estão desaparecidos, e é munido de dados fornecidos pela Defesa Civil, Corpo de Bombeiros e IML em reuniões semanais, realizadas em uma das duas bases montadas na cidade para o gerenciamento das operações.

Quem pode ir aos encontros compartilha as informações mais atualizadas com os demais membros do grupo.

Essas reuniões foram o meio que as autoridades encontraram para manter os parentes por dentro de um trabalho que entrou em uma fase mais demorada - faz 20 dias que o número de mortos e desaparecidos se mantém o mesmo -, mas que só vai terminar quando todos forem encontrados ou quando não houver mais condições biológicas de identificação.

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Varredura e planejamento dos bombeiros

Ontem, 134 bombeiros participaram das buscas, divididos em 20 frentes, auxiliados por dois cães farejadores, máquinas pesadas como escavadeiras e um drone. São homens que cumprem escalas de sete dias consecutivos de trabalho por sete de descanso e ficam instalados na base operacional Bravo, localizada bem próximo à mina do Córrego do Feijão, onde a barragem estourou.

O número do efetivo, segundo o tenente Felipe Brittes Pereira, que tem atuado nas áreas operacional e de planejamento da operação em Brumadinho, varia de acordo com o planejamento da equipe de inteligência do Corpo de Bombeiros, reconfigurado diariamente sempre com base nos resultados obtidos no dia anterior.

Segundo Brittes, embora a maior parte da chamada "zona quente" (atingida pela lama) já esteja seca, ainda existem áreas alagadiças, uma vez que parte do terreno é banhada por nascentes.

"Em alguns trechos, o rejeito é constantemente irrigado, o que demanda uma articulação melhor, com emprego da máquina anfíbia, que é diferente das escavadeiras, e a criação de acessos por outros pontos. Cada situação demanda uma maneira diferente de trabalhar, mais específica", afirma o bombeiro.

De acordo com tenente Brittes, enquanto houver a possibilidade de encontrar corpos, os bombeiros continuarão trabalhando. O mesmo diz o chefe do IML. "A gente não perde a esperança de localizar todo mundo."

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