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Diante de abusos de PMs, Doria muda discurso e tenta controlar a tropa

Felipe Pereira e Luís Adorno

Do UOL, em São Paulo

23/06/2020 04h00

João Doria (PSDB) foi eleito governador de São Paulo afirmando que, durante sua gestão, a polícia iria "atirar para matar". No dia em que foi eleito, prometeu "os melhores advogados" aos policiais que matam no estado. Depois, elogiou ação da polícia com 11 suspeitos mortos e afirmou que a redução da letalidade policial seria algo que poderia acontecer, mas sem obrigatoriedade.

Com uma série de casos recentes de violência policial no estado, o discurso de João Doria mudou. "Somos absolutamente contra qualquer excesso, qualquer violência da polícia desnecessária", afirmou o governador na tarde desta segunda-feira (22). O tucano anunciou, inclusive, um novo programa para retreinar os policiais de São Paulo com o objetivo de diminuir casos de violência policial.

Nos bastidores, membros da cúpula da segurança pública afirmam que, eleito com bandeira bolsonarista, chegando a lançar o slogan "BolsoDoria" no segundo turno de 2018, Doria quer se descolar de vez do presidente, que apresenta discursos militarizados.

Neste movimento, Doria teria perdido o controle e o respeito da tropa, que tem a maioria dos seus servidores simpatizantes a Bolsonaro. Outro motivo seria o governador interferir em decisões técnicas da administração da PM.

O governador já era criticado por muitos policiais, sobretudo os praças da PM — como soldados, cabos e sargentos — por ser do PSDB. A bancada da bala paulista é crítica aos governos tucanos porque, segundo ela, desvaloriza a atuação dos policiais do estado.

Com críticas aos casos de violência policial que vieram à tona nas últimas semanas, Doria é ainda mais criticado internamente.

O coronel da reserva da PM Marcelino Fernandes, que era corregedor da corporação até se aposentar em fevereiro deste ano, afirma que "Doria faz um discurso de querer agradar a todo preço com marketing fajuto de tentar impressionar. Por fora é muito bonito, mas por dentro é um engano. A população não cai mais nesse conto, não. Ele foi eleito com uma bandeira, e, agora, cospe nessa bandeira".

No cargo de corregedor, Fernandes era o chefe do departamento que investiga policiais dentro da corporação. Ele cita que na ação da PM ocorrida na favela de Paraisópolis, em dezembro passado, quando nove jovens morreram pisoteados, João Doria agiu de maneira política, sem habilidade técnica, apenas para dar uma pronta resposta à sociedade.

"Ele determinou que o comando afastasse policiais que nem participaram da ação. Ele interferiu diretamente em um assunto técnico", diz.

Para Fernandes, é necessário "manter o equilibrio de combater tráfico, organização criminosa, furto, roubo, e prestar o serviço de segurança que não exceda a lei". O coronel complementa que não pode incentivar discursos como "atirar para matar": "Tenho que falar que o policial deve prestar serviço técnico, com legitima defesa, legal, mas sempre na preservação da vida. Isso é o que se ensina nos bancos escolares."

Doria prometeu melhores advogados a PMs que matarem

UOL Notícias

Por meio de nota, o governo de São Paulo disse que a reportagem se pautou por uma "tese que fere a lógica ao atribuir uma duvidosa e questionável correlação de causa e efeito entre falas do governador João Doria e excessos cometidos por policiais".

"Em três das menções citadas pela reportagem, o governador claramente fazia referência à possibilidade de confronto armado entre policiais e criminosos, e não a ocorrências de patrulhamento ostensivo. A reportagem mira uma suposta mudança radical no discurso do governador, mas a realidade mostra justamente o contrário", diz o Palácio dos Bandeirantes.

Ainda segundo o governo, "em diversas ocasiões em que não restou dúvida sobre violência cometida por policiais, o governador repudiou os atos e determinou o afastamento dos envolvidos, a apuração rigorosa dos casos e a aplicação de punições cabíveis".

Em nota SSP (Secretaria de Segurança Pública), afirma que "o compromisso das forças de segurança é com a vida, razão pela qual medidas para a redução de mortes são permanentemente estudadas e implementadas".

Segundo o texto, por determinação da SSP, todas as mortes decorrentes de intervenção policial são investigadas pela Polícia Civil e pela Polícia Militar, e comunicadas ao Ministério Público. "As instituições também analisam todas as ocorrências para verificar a conduta dos policiais e avaliar a adoção de alternativas de intervenção para evitar o mesmo resultado em episódios futuros. Não há complacência com o erro ou com desvios de conduta."

No primeiro quadrimestre deste ano, 105 policiais civis, militares ou técnico-científicos foram demitidos ou expulsos, informa. Em 2019, foram 226 agentes demitidos ou expulsos, sempre segundo a SSP.

Especialistas criticam politização da segurança pública

Professor de Gestão Pública da FGV (Fundação Getúlio Vargas), o professor Rafael Alcadipani diz que "o governador de São Paulo muda sua direção de política de segurança pública conforme a convergência do momento". Ele diz que as críticas recentes à violência policial são assertivas, mas demoradas.

"Política de segurança pública tem que ser política de estado. Além disso, letalidade policial tem que ser tratada como um problema sempre. Não pode ser submetida a interesses eleitorais. Um dos motivos pelo qual a polícia é tão violência no Brasil é que violência policial dá voto. Só quando eleitos eles [os políticos] percebem que não conseguem gerir mais", afirma Alcadipani.

Dennis Pacheco, pesquisador do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, complementa que "Doria aumentou de 5 a 11 o número de BAEPs, batalhões com alto padrão de letalidade, em seu governo. O problema da letalidade não é só procedimental, mas subcultural e sistêmico. Resolvê-lo exige a combinação de transformações nesses três campos".

Segundo o especialista em segurança pública, "é preciso decidir definitivamente entre estimular a letalidade policial e fazer política pública de verdade. A segunda se faz com planejamento e evidências, não surfa na onda da opinião pública".

Secretário diz que tropa não tem influências políticas

Questionado sobre a diferença de discursos de João Doria com o passar do tempo, o secretário-executivo da PM, coronel Alvaro Batista Camilo, afirmou que Doria não não falou que policiais iriam atirar para matar.

"Falou que seria para não enfrentar a polícia, não é uma boa opção em São Paulo enfrentar os policiais", defendeu.

22.jun.2020 - Coronel Alvaro Batista Camilo, secretário-executivo da PM de SP - Roberto Casimiro/Fotoarena/Estadão Conteúdo - Roberto Casimiro/Fotoarena/Estadão Conteúdo
22.jun.2020 - Coronel Alvaro Batista Camilo, secretário-executivo da PM de SP
Imagem: Roberto Casimiro/Fotoarena/Estadão Conteúdo

"A gente não deseja isso, a morte não é desejada por ninguém, nem pelo policial. O confronto é um risco para os dois lados. É um risco para o policial, é um risco para o marginal. Nós preservamos a vida sempre, inclusive do próprio marginal. Então, não existe a busca pela morte. Pelo contrário, a busca é pela vida. E sempre vai ser assim", complementou o oficial.

Questionado se as declarações do passado de Doria não surtiam efeito sobre os policiais, o secretário-executivo da corporação negou. "Não tem efeito. A tropa é profissional, sabe do seu trabalho. Sabe tanto que quando ele erra nós punimos fortemente. E repito o que falei: nós somos implacáveis com desvio de conduta. Independente de qualquer fala, o policial é treinado para proteger e salvar as pessoas. E assim tem sido."

Indagado se existe uma influência bolsonarista na tropa, Camilo também negou. "Dentro da polícia há todos os policiais com suas predileções. Seja por esse partido, por aquele partido, por A, por B. Uns gostam de guaraná, outros de Coca-Cola. Mas, na profissão, no dia a dia, ele é profissional, é assim que ele é treinado e é assim que ele age. Ele não leva isso para dentro do seu serviço."

Violência policial em série em SP

As críticas e Doria e de membros da cúpula da segurança do estado vêm ocorrendo após uma série de casos de violência policial ter sido registrada no estado.

O primeiro caso foi em Barueri, quando um homem rendido foi agredido por policiais militares. Vizinhos que tentaram proteger a vítima também foram atacados pelos PMs, que foram afastados.

Depois, na zona norte de São Paulo, mais policiais militares agrediram um jovem que afirmava estar na casa da namorada. Os PMs pertenciam ao 43º batalhão, do bairro do Jaçanã, e também foram afastados.

Além da vítima flagrada sendo agredida no Jaçanã, pelo menos outras duas pessoas acusaram os mesmos policiais de as terem torturado, com agressões físicas e com queimaduras.

Durante manifestações ontem na avenida Paulista, um policial militar sem identificação na farda empurrou um repórter do UOL pelas costas para atrapalhar uma gravação. Em nota, a PM prometeu tomar as medidas cabíveis.

Veio a público, ainda, uma ação da PM em 6 de junho que mostrou, em vídeo, policiais militares atropelando e chutando a cabeça de um motoqueiro rendido depois de uma perseguição.

Mais recentemente, o jovem negro Guilherme Silva Guedes, 15, foi sequestrado, torturado e morto na zona sul de São Paulo. Segundo a Polícia Civil, o principal suspeito de ter cometido o crime é um sargento da PM, que já está preso.

O último caso recente de violência policial em São Paulo, até esta publicação, é de um flagrante de um PM sufocando um suspeito em Carapicuíba. O homem chegou a ficar desacordado. A PM afastou todos os policiais flagrados em todas essas ações.

Segurança pública