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Wassef quebra silêncio e acusa armação, mas não explica Queiroz em sua casa

O advogado Frederick Wassef, ligado à família Bolsonaro - Bruno Santos
O advogado Frederick Wassef, ligado à família Bolsonaro Imagem: Bruno Santos

Do UOL, em São Paulo

22/06/2020 04h00

"O objetivo disso é destruir minha imagem". O advogado Frederick Wassef levou dois dias para comentar a prisão de Fabrício Queiroz, ex-assessor parlamentar de Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ), encontrado em uma propriedade de Atibaia (SP) registrada no nome do jurista. Em uma sequência de entrevistas ao longo do fim de semana, Wassef apresentou informações desencontradas e desferiu críticas à cobertura do caso, mas não respondeu o que Queiroz fazia em sua casa.

Wassef tem relação próxima com a família Bolsonaro: advogado de Flávio, assumiu a defesa do senador no caso das rachadinhas, que inclui Queiroz, e alega também defender o presidente Jair Bolsonaro (sem partido).

No mesmo dia em que Queiroz foi encontrado em Atibaia, a advogada do presidente da República, Karina Kufa, divulgou uma nota desvinculando Wassef do mandatário. No texto, ela afirma que apenas o seu escritório responde por ações judiciais envolvendo Bolsonaro e que Wassef, além de não integrar o quadro de advogados, também não presta serviço em nenhuma ação envolvendo o presidente.

Ainda este mês, representando Jair Bolsonaro, Wassef contestou a Polícia Federal e o Ministério Público Federal no caso que investiga o atentado cometido por Adélio Bispo, em setembro de 2018.

O próprio advogado, nas entrevistas concedidas desde sábado, apontou a proximidade com a família Bolsonaro como algo explorado por terceiros para tentar prejudicar o presidente. "Conheço as forças que estão unidas para tentar fazer mal a mim e consequentemente atingir o presidente da República", afirmou Wassef, neste sábado, à TV Globo.

Ainda sob a alegação de que estava sendo usado para prejudicar a família, o advogado declarou neste domingo, à CNN, que deixaria a defesa de Flávio no esquema das rachadinhas.

Há um mês, em entrevista ao UOL, ele chegou a declarar que Queiroz "poderia aparecer". Um delegado da Polícia Civil de São Paulo disse à GloboNews que o ex-assessor estava na casa do advogado há cerca de um ano. O caseiro do imóvel declarou à CNN que Queiroz se encontrava no local "há poucos dias". No dia da operação que prendeu o ex-assessor, a polícia informou que a residência onde ele foi encontrado era monitorada há dez dias.

Wassef diz que vai explicar situação, e alega estratégia

À Folha, também neste sábado, Wassef negou ter abrigado Queiroz e disse nunca ter telefonado para o ex-assessor ou trocado mensagens com alguém de sua família. "Isso é uma armação para incriminar o presidente", declarou, acrescentando não ser o "Anjo" citado por Queiroz em mensagens —o apelido foi conferido ao advogado pela família Bolsonaro.

Mais tarde, em entrevista à CNN, Wassef manteve a retórica de que foi vítima de calúnia e armação e de que Queiroz não estava vivendo em sua casa. Pouco depois, à TV Globo, pela primeira vez citou a presença do ex-assessor na propriedade em seu nome, afirmando que o fato de estar no local não implicaria que ele estivesse vivendo lá.

"Vocês têm uma localização no dia que aconteceu [a operação policial] e eu vou poder explicar logo mais o porquê, e vou poder contar o todo, do A ao Z", disse.

Na mesma entrevista, ele disse que não se manifestaria mais sobre o assunto pois isso incluía "estratégia de defesa" no caso de Flávio, e que uma fala sua explicando a presença de Queiroz em sua casa poderia infringir o sigilo profissional entre advogado e cliente.

Tentou, ainda, desassociar a família Bolsonaro dos acontecimentos: "Tanto o presidente Bolsonaro não sabia de nada do meu trabalho e não tem nenhuma responsabilidade, quanto o Flávio Bolsonaro não sabia de nada e não tem nenhuma responsabilidade".

queiroz1 - Divulgação/Polícia Civil - Divulgação/Polícia Civil
Fabrício Queiroz no momento em que polícia vasculhava imóvel pertencente a Wassef
Imagem: Divulgação/Polícia Civil

Tratamento de saúde

O advogado alegou novamente "sigilo profissional", em entrevista à CNN no domingo, ao se recusar a explicar o que Queiroz fazia em sua casa. No entanto, ele apresentou novo discurso a respeito do ex-assessor: declarou que sabia que ele frequentava sua casa em Atibaia, de vez em quando, para realizar tratamentos de saúde em Bragança Paulista, cidade próxima.

Wassef voltou a dizer que tanto Bolsonaro quanto Flávio não tinham ciência da presença de Queiroz no local. Inclusive, acrescentou ter "omitido" deles a informação, embora também tenha dito que não escondia o ex-assessor.

"Nunca, jamais, o presidente Jair Bolsonaro soube ou teve conhecimento desses atos, desses fatos. Essa é minha inteira responsabilidade. Eu omiti essas informações do presidente da República e do senador Flávio Bolsonaro."

'Entrou voando?'

Embora Wassef tenha repetido mais de uma vez que Queiroz não estava morando em sua casa, que não mantinha contato com ele e que não o escondia no local, a jornalista da TV Globo, Andréia Sadi, chegou a questionar como foi que o ex-assessor conseguiu entrar na casa do advogado.

"O senhor emprestou a casa para ele [Queiroz]?", questionou Sadi, em entrevista por telefone exibida no "Jornal Nacional".

"Não, porque eu não falei com o Queiroz, não tenho o telefone do Queiroz, eu nunca troquei mensagem com o Queiroz. O que eu posso dizer é o seguinte: sobre a pauta Queiroz, eu só vou poder falar até o ponto que eu posso falar, por uma questão de sigilo", disse Wassef em resposta.

A repórter, então, questionou: "O Queiroz pulou o muro? Apareceu voando na casa do senhor? Ou foi levado por alguém?".

O advogado não respondeu à pergunta: "Não vou poder avançar ainda hoje, mas eu vou falar tudo, com muito prazer, porque a verdade é uma coisa que você vai gostar de ouvir. Fica tranquila, tá?".

'Não havia papelada nem caneta Bic'

Queiroz foi encontrado na casa, com parte dos móveis do lado de fora. No interior, havia uma mesa, documentos e um colchão. Para Wassef, a preocupação era o fato de terem encontrado documentos na casa, algo que, segundo ele, não era possível, por ser um local que iria passar por uma reforma.

"O que me preocupou: eu vi na imprensa, por todos esses dias, que quando prenderam o Queiroz foram encontrados [com ele] dois celulares, R$ 900 e um malote — não me recordo agora se foi um malote ou uma caixa com papéis e vários documentos. E isso me chamou a atenção por que: não tinha uma única caneta Bic na casa. Tinha só os móveis básicos e que, inclusive, muitos já estavam desmontados e, inclusive, para fora da casa porque ia ser pintada, reformada, uma série de serviços ia ser implementada [sic] na casa", declarou o advogado.

Na entrevista à Folha, Wassef manteve a retórica: "Vi na TV que encontraram um malote. Isso foi plantado".

Relação íntima com os Bolsonaro

A intimidade com a família Bolsonaro, segundo a colunista do UOL, Thaís Oyama, vai além das questões jurídicas. Wassef alega ter sido o primeiro a falar com Jair Bolsonaro sobre a possibilidade de se candidatar à Presidência da República.

"Eu tinha acesso à Lava Jato, sabia que iriam ser todos presos. Falei para ele: o senhor vai ficar sozinho e sem concorrência no mercado. Eu previ o futuro", disse ele.

Quando o caso Queiroz veio à tona, em dezembro de 2018, Wassef assumiu a estratégia de defesa de Flávio e o convenceu a usar do foro privilegiado para levar o caso ao STF (Supremo Tribunal Federal). Como em julho o presidente do STF, Dias Toffoli, concedeu liminar suspendendo todas as investigações criminais que envolviam uso de dados do Coaf, o caso ficou travado por mais de quatro meses; a liminar foi um pedido feito pelo próprio Wassef.

A investigação só foi retomada em dezembro passado, após o plenário do STF derrubar a liminar.

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