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Insumos da China são novo capítulo na queda de braço de Doria e Bolsonaro

Jair Bolsonaro com o presidente chinês, Xi Jinping, e o governador paulista, João Doria - Divulgação/Arte/UOL
Jair Bolsonaro com o presidente chinês, Xi Jinping, e o governador paulista, João Doria Imagem: Divulgação/Arte/UOL

Lucas Borges Teixeira

Do UOL, em São Paulo

26/01/2021 16h31Atualizada em 27/01/2021 17h28

A queda de braço entre o governador João Doria (PSDB-SP) e o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) pelo protagonismo na vacinação contra a covid-19 ganhou um novo capítulo: a próxima remessa de insumos para a produção da CoronaVac. Em meio a poucas novidades sobre os avanços da imunização no país, os dois possíveis adversários nas eleições de 2022 disputam a narrativa pela articulação com a China.

Ontem, o presidente, que já rejeitou o imunizante publicamente, foi às redes sociais para agradecer ao país asiático pela liberação de 5.400 litros de insumos para a vacina e passou à frente de Doria com a novidade. O governador respondeu na mesma noite, chamando Bolsonaro de mentiroso, e citou uma reunião com a embaixada chinesa para esta terça, que já havia sido divulgada por ele mesmo, mais cedo.

A CoronaVac foi desenvolvida pelo laboratório chinês Sinovac, em parceria com o Instituto Butantan, ligado ao governo paulista. A produção da vacina na fábrica de São Paulo está parada desde o dia 17 de janeiro por falta de insumos, que vêm da China. Agora, a previsão é que os 5.400 litros liberados cheguem até 3 de fevereiro e as primeiras doses saiam depois de 20 dias.

No Palácio dos Bandeirantes, a avaliação é que o presidente adiantou o anúncio para ganhar destaque na articulação. Em nota publicada no seu site, o Ministério da Saúde afirma que é o governo federal quem "está garantindo" a importação dos insumos e que o envio "foi acordado em negociações feitas pelos governos brasileiro e chinês".

A Embaixada da China nos informou, pela manhã, que a exportação dos 5.400 litros de insumos para a vacina CoronaVac foi aprovada e já estão em área aeroportuária para pronto envio ao Brasil, chegando nos próximos dias."
Jair Bolsonaro, nas redes sociais ontem

A mensagem de agradecimento do presidente brasileiro segue movimento contrário a declarações críticas adotadas por ele e sua cúpula no último ano. Além de o próprio presidente já ter rejeitado a CoronaVac publicamente, o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), seu filho, já gerou mais de uma crise entre os dois países após acusações nas redes sociais.

Doria respondeu às declarações, que colocam indiretamente o governo federal como responsável pela articulação, na mesma noite. Também pela intenet, o governador paulista chamou o presidente de mentiroso.

Telão do Palácio dos Bandeirantes exibe bandeiras de São Paulo e da China durante coletiva - Lucas Borges Teixeira/UOL - Lucas Borges Teixeira/UOL
Telão do Palácio dos Bandeirantes exibe bandeiras de São Paulo e da China durante coletiva
Imagem: Lucas Borges Teixeira/UOL

Nesta terça, após reunião já marcada com o embaixador da China no Brasil, Yang Wanming, o governador paulista voltou a atacar Bolsonaro.

Nunca houve interferência ou relação para ajuda pelo governo federal. Chegamos à vacina apesar das manifestações contrárias, manifestações desairosas do presidente e de seus filhos sobre vacina chinesa ou 'a vachina do Doria'."
João Doria, em coletiva hoje

Como demonstração de força, Doria colocou Wanming ao vivo no vídeo. O embaixador, por sua vez, não entrou em pormenores. Ele confirmou a liberação dos insumos, que devem chegar em uma semana, e agradeceu tanto ao governo federal quando ao estadual.

"O embaixador da china é um homem profundamente educado e cioso da condição diplomática", afirmou Doria, depois que Wanming já havia saído do vídeo. O telão em que aparecia o embaixador passou a ostentar, então, uma montagem com as bandeiras de São Paulo e da China.

"Todas as demandas foram conduzidas pelo Butantan e governo de são Paulo", continuou Doria, que aproveitou a deixa para dizer que ainda não recebeu "um centavo" da Saúde. "Imagino que vão cumprir contrato e pegar, mas todo investimento desde maio foi suportado pelo governo de São Paulo."

Ao UOL, o Ministério das Relações Exteriores afirmou que "as etapas burocráticas para assegurar o recebimento dos insumos chineses foram superadas graças a esforços coletivos do Itamaraty e de outras instâncias governamentais".

Disputa acirrou em outubro

Doria é um dos principais nomes para disputar a presidência em 2022, quando Bolsonaro tentará a reeleição. Parceiros em 2018, os dois romperam com poucos meses do atual governo, mas a disputa acirrou no segundo semestre do ano passado, exatamente por causa da CoronaVac.

Em outubro, o ministério chegou a emitir um documento de intenção de compra dos mesmos 46 milhões de doses da CoronaVac. O compromisso foi firmado por Pazuello em reunião virtual com Doria e outros governadores.

No dia seguinte, o presidente desautorizou publicamente o acordo e afirmou que "o povo brasileiro não será "cobaia" da "vacina chinesa de João Doria". Desde então, o governador paulista tem lembrado do episódio com frequência, em recados mais ou menos sutis feitos nas coletivas de imprensa quase diárias.

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