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5 meses

Com CoronaVac, Bolsonaro pode tirar de Doria protagonismo na vacinação

João Doria e Jair Bolsonaro - Reprodução/Redes Sociais e Marcos Corrêa/PR
João Doria e Jair Bolsonaro Imagem: Reprodução/Redes Sociais e Marcos Corrêa/PR

Lucas Borges Teixeira

Do UOL, em São Paulo

10/01/2021 04h00Atualizada em 10/01/2021 09h02

O Ministério da Saúde assinou um acordo com o Instituto Butantan de distribuição exclusiva da CoronaVac, vacina contra a covid-19 produzida em parceria com a chinesa Sinovac. Com isso, todos os 10,8 milhões de doses que estavam, desde dezembro, em posse do governo paulista serão repassados ao governo federal.

O contrato pode resultar na troca do rosto à frente da vacinação contra covid-19 no Brasil. Até então, o governador João Doria (PSDB-SP) havia tomado a iniciativa, com data marcada para o início à imunização (25 de janeiro, aniversário de São Paulo) e um plano estadual próprio. Agora, o governo de Jair Bolsonaro (sem partido), que já rejeitou o imunizante publicamente e minimiza a pandemia, pode assumir o protagonismo — e, quem sabe, colher os louros.

A transferência total das doses foi confirmada pelo Instituto Butantan. Nesta semana, em meio à divulgação de dados sobre eficácia da vacina, assinatura de contrato e pedido de uso emergencial para a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), este cenário ainda não estava tão claro.

O plano estadual de imunização, anunciado em dezembro, foi o foco do governo Doria no último semestre. São Paulo conseguiu garantir em setembro um acordo com a Sinovac para compra de 46 milhões de doses, com troca de tecnologia com o Butantan. Cada nova remessa da China era comemorada pelo governo paulista, com a eventual presença do próprio Doria no Aeroporto Internacional de Guarulhos.

João Doria (PSDB), o secretário estadual de Saúde, Jean Gorinchteyn, e o diretor do Instituto Butantan, Dimas Covas, recebem doses da CoronaVac no Aeroporto Internacional de Guarulhos, em São Paulo - Governo de São Paulo/Divulgação - Governo de São Paulo/Divulgação
O governador de São Paulo, João Doria (PSDB), o secretário estadual de Saúde, Jean Gorinchteyn, e o diretor do Instituto Butantan, Dimas Covas, recebem doses da CoronaVac no Aeroporto Internacional de Guarulhos, em São Paulo
Imagem: Governo de São Paulo/Divulgação

Dentro do Palácio dos Bandeirantes, que nomeou CoronaVac de "vacina do Brasil, "estava consolidado que o estado tomaria a dianteira dada inatividade federal.

Agora, depois de um longo vaivém do governo federal, o cenário pode mudar. "Os 46 milhões de doses que serão fornecidas ao Ministério da Saúde incluem os 10,8 milhões que foram adquiridas da biofarmacêutica Sinovac e já estão em solo brasileiro", disse o Instituto Butantan ao UOL.

Dimas Covas, diretor do instituto, tratou dessa dinâmica. "O ambiente até semana passada era um, o ambiente de quinta-feira [7] para cá é outro. Quinta-feira, o ministério incorporou a vacina ao programa nacional de imunização", disse o pesquisador, em um evento numa rede de educação ontem.

Integrar-se ao PNI (Plano Nacional de Imunização) sempre foi uma possibilidade considerada por São Paulo, mas não plenamente admitida. Tanto que, na noite de quinta, Doria chegou a dar uma entrevista para a GloboNews negando que o contrato com o ministério havia sido assinado cerca de uma hora e meia depois de o documento ter sido firmado.

Agora, resta saber se o governo de São Paulo tem ou não autonomia para manter a prometida data de início da imunização, caso o plano nacional comece depois do dia 25 de janeiro. Para Jean Gorinchteyn, secretário da Saúde, e João Gabbardo, coordenador-executivo do Centro de Contingência, a previsão se mantém.

"Se o programa nacional começar em 20 de janeiro, por óbvio o programa estadual também será antecipado. É o que queremos. O que pode não acontecer é se o programa nacional decidir por postergar a data de início da vacinação, São Paulo não abrirá mão de iniciar vacinação no dia 25 de janeiro", disse Gabbardo, em entrevista coletiva na sexta.

Procurada, a Secretaria de Saúde afirmou que o estado "está preparado para iniciar a campanha de vacinação contra covid-19 no dia 25 de janeiro, conforme anunciado", sem especificar se esta organização se daria pelo governo federal ou pelo estadual.

"A vacina chinesa de João Doria"

A decisão do Ministério da Saúde de incluir a CoronaVac no plano de vacinação se dá após uma enfática aposta de Doria e uma longa rejeição de Bolsonaro pelo imunizante a ser produzido pelo Butantan. No ano passado, o presidente não só rejeitou a CoronaVac como impediu sua compra por parte do governo.

Em outubro, o ministério chegou a emitir um documento de intenção de compra dos mesmos 46 milhões de doses da CoronaVac. O compromisso foi firmado por Pazuello em reunião virtual com Doria e outros governadores.

No dia seguinte, o presidente desautorizou publicamente o acordo e afirmou que "o povo brasileiro não será "cobaia" da "vacina chinesa de João Doria". O episódio acirrou a disputa entre o presidente e Doria, um dos cotados a concorrer ao Planalto em 2022.

Falta aprovação da Anvisa

O detalhe que permeia todo o acordo — e dá ao governo federal a justificativa para ainda não estabelecer uma data oficial de início da vacinação — é que a CoronaVac, como nenhuma outra vacina, ainda não foi aprovada pela Anvisa.

O pedido para uso emergencial, antes programado para dezembro, só foi feito na sexta e, no sábado (9), a Anvisa divulgou um comunicado em que pedia documentos ao Butantan que, segundo ela, já eram previstos, mas não foram entregues.

Em resposta, o Butantan afirmou que "permanece fornecendo todos os documentos necessários" e que "o prazo previsto para autorização de uso do imunobiológico" não será afetado. A Anvisa não se manifestou sobre isso.

Se o prazo se mantiver, a agência tem até o dia 18 (dez dias desde a entrega da documentação) para dar um parecer sobre o pedido.

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