Carlos Madeiro

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Reportagem

Dos milagres a Lampião: quem era o Padre Cícero, nascido há 180 anos no CE

Há 180 anos, nascia na Vila Real do município do Crato (CE), Cícero Romão Batista, um personagem que até hoje é símbolo de devoção e liderança no semiárido, que lhe rendeu uma posição de santo nordestino.

O padre Cícero, ou 'padim Ciço', como é chamado, tem uma história de liderança religiosa e política que marcou a história do final do século 19 e início do 20 no sertão nordestino, seja pelos milagres atribuídos, seja pela famosa devoção de Lampião.

Padre Cícero morreu no dia 20 de julho de 1934 aos 90 anos por falência múltipla dos órgãos.

O velório, cortejo e sepultamento reuniram 60 mil pessoas, e a data virou um símbolo para os devotos, que lotam a estátua de 27 metros erguida em Juazeiro do Norte no alto da colina do Horto. Além disso, o local recebe uma multidão no dia de finados.

Em outubro do ano passado, o Padre foi incluído no livro de heróis e heroínas da pátria do Senado, junto agora com tantos outros nomes históricos do país (veja todos aqui).

Estátua do Padre Cícero em Juazeiro do Norte (CE)
Estátua do Padre Cícero em Juazeiro do Norte (CE) Imagem: Governo do Ceará/Dilvulgação

História

Padre Cícero nasceu em 1844 e foi ordenado padre em novembro de 1870. Ele realizou sua primeira missa no Natal daquele ano, em que recebeu um sinal.

A história do "padim" contada pela Diocese do Crato aponta que nessa missa, cercado impressionado com os flagelados da seca, o padre recém-ordenado escutou de Jesus as palavras que o acompanharam durante toda a sua vida: "e tu, Cícero, toma conta deste povo!".

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Em uma sexta-feira de março de 1889, deu uma hóstia à beata Maria de Araújo, que se transformou em sangue em sua boca. Segundo a diocese, esse fato ocorreu ainda por mais 138 vezes em um período de dois anos.

Isso gerou uma fama de padre milagreiro, levando pessoas de todo o Nordeste a irem em romaria ao seu encontro.

Também ganharam força as famosas peregrinações do padre, que sempre mesclavam religião e ensinamentos aos povos da seca, como cuidado ao meio ambiente.

Túmulo do Padre Cícero
Túmulo do Padre Cícero Imagem: Diocese do Crato

Milagres falsos, diz Igreja

Os milagres, porém, eram vistos com ceticismo pelo Diocese de Fortaleza, que mandou uma comissão averiguar os fatos e indicou que eram falsos os milagres.

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Cícero acabou tendo seus poderes eclesiásticos suspensos em 1894, sendo vedada assim a celebração de missas e peregrinações em nome da Igreja católica.

Mesmo sem os poderes o padre seguiu com sua grande influência religiosa na religião, que seguem inabaláveis até hoje. No memorial ao "santo nordestino" em Juazeiro do Norte há milhares de peças que representam partes do corpo que foram "curadas" por milagre de Cícero. Os romeiros, então, peregrinam até o local para agradecer.

Somente em 2015, quase 80 anos após sua morte, é que o padre teve a decisão revista pela Igreja, e seus poderes reabilitados pelo Vaticano.

Em agosto de 2022, o Vaticano anunciou a abertura do processo para beatificação do Cícero Romão Batista. Um inquérito eclesiástico está em andamento e deve ser apresentado até o fim do ano para ser apresentado ao Vaticano.

Estátua de Padre Cícero em Juazeiro do Norte, Ceará
Estátua de Padre Cícero em Juazeiro do Norte, Ceará Imagem: Nadim Maluf/MTUR/Flickr

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Crato vira Juazeiro

O povoado Juazeiro em que ele vivia se emancipou do Crato em 22 de julho de 1911, e o Padre Cícero foi o primeiro prefeito de Juazeiro do Norte. Ele foi um dos que lutaram pela emancipação então daquele território.

A partir dali, Cícero começava uma nova fase de vida política —antes, porém, ele exercia grande influência sobre políticos e "coronéis" locais.

Em 1913, chegou a ser destituído do cargo pelo governador Marcos Franco Rabelo, mas voltou ao poder em 1914.

Ele ainda foi eleito vice-presidente (vice-governador) do Ceará e deputado federal, mas em nenhum dos casos ele assume e seguiu com suas pregações religiosas.

O encontro com Lampião

Uma das relações mais conhecidas e controversas da história do padre foi a com o cangaceiro Lampião. Segundo relatos, ele teria lhe enviado vários conselhos para que largasse a vida de cangaço.

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Lampião virou símbolo da Copa do Nordeste
Lampião virou símbolo da Copa do Nordeste Imagem: Biblioteca Nacional

Padre Cícero, diz a história, ajudou a convencer Lampião para que seu grupo se engajasse na luta contra a coluna prestes, que naquela época rodava pelo país pregando uma "insurreição".

Cícero era aliado do então deputado Floro Bartolomeu, a quem o governo federal atribuiu a missão de combater a coluna na região.

O padre teve encontro com Lampião em 1926, e fez assinar adesão à proposta, e o então o líder cangaceiro ganhou o status de capitão (o título nunca foi dado oficialmente), além de armas e dinheiro para o grupo entrar no "Batalhão Patriótico."

O acordo, porém, não foi cumprido por Lampião, que voltou às atividades de cangaço mais armado e forte, invadindo cidades e praticando crimes.

Mesmo assim, o grupo respeitou o Padre Cícero e nunca atuou na região de influência dele.

Reportagem

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

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