Moradores de rua disputam doações com desabrigados de prédio que caiu em SP

Leonardo Martins e Luis Adorno

Do UOL, em São Paulo

  • Luis Adorno/UOL

    3.mai.2018 - Desabrigados se cercaram com grades de segurança para não terem suas doações furtadas

    3.mai.2018 - Desabrigados se cercaram com grades de segurança para não terem suas doações furtadas

As doações de roupas, alimentos e itens de higiene a moradores do prédio que desabou na madrugada de terça-feira (1º) no Largo do Paissandu, região central de São Paulo, têm provocado disputa entre os antigos habitantes do edifício Wilton Paes de Almeida e pessoas em situação de rua que vivem no centro da capital.

Na primeira noite após o desabamento, moradores de rua começaram a se aglomerar nas redondezas do Largo do Paissandu para aproveitar o intenso volume de doações que chegavam aos desabrigados. A igreja Nossa Senhora do Rosário, vizinha ao prédio que desabou e que também recebia doações, chegou a fechar portas por falta de espaço devido ao alto volume de donativos.

Com a concentração excessiva, houve relatos de furtos de doações. Moradores, inclusive, acusam dependentes químicos em situação de rua de roubarem os donativos e tentarem vender para comprar drogas.

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Nesta quarta-feira (3), a reportagem do UOL acompanhou um grupo que levava produtos diretamente ao local onde está acampada grande parte dos ex-moradores do prédio para entregá-las à igreja ou à Cruz Vermelha, entidade responsável oficialmente por arrecadar e distribuir os itens doados.

Ao chegar ao Largo, um carro que levava doações estacionou para fazer sua entrega. O tempo do motorista descer do carro e chegar ao porta-malas foi suficiente para que um grupo, com cerca de 40 moradores de rua, batalhasse por espaço e pelas sacolas que traziam pertences doados aos desabrigados.

Por situações como essa, os próprios desabrigados, em acordo com a Polícia Militar, fizeram um círculo de grades em volta da igreja na quarta-feira para que os outros moradores de rua não pegassem suas doações.

"A gente que tá aqui que precisava de fralda, comida e coberta, não veio pra gente. A maioria foi pra cracolândia e pra outros lugares. Porque as pessoas que vieram doar não chegam até nós", reclama Ana Paula, 30, moradora do sexto andar do edifício que desabou.

"Tem gente que tava vendendo [doações] na feira do rolo, hoje tem essas grades pra proteger a gente, e a população do lado de fora não tá gostando", completou, também relatando um bate-boca entre desabrigados e moradores de rua pelos donativos.

Gabriel Arcangelo, 21, também desabrigado, conta que há mais segurança depois da colocação das grades. "Fechamos aqui porque, na primeira noite, alguns moradores de rua, que não eram da ocupação, pegaram nossas doações".

Atualmente, a Cruz Vermelha diz que só recebe doações em suas sedes fora do local do desabamento. Todas as doações recebidas pelo órgão estão sendo encaminhadas para o abrigo da prefeitura localizado no Viaduto Pedroso, também no centro de São Paulo, a cerca de 3 km do Largo do Paissandu.

Na quarta, um grupo de desabrigados negociou com a Prefeitura para deixar o acampamento em frente à igreja e ir para o abrigo, porém, a maioria dos moradores ainda continua por lá.

Prefeitura quer encaminhar moradores aos abrigos

De acordo com José Antônio de Almeida, chefe do gabinete da Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social, a prefeitura entende o conflito entre os desabrigados e os moradores de rua, mas diz que o foco principal é garantir auxílio rápido às vítimas do desabamento.

"Obviamente que quando outros públicos de pessoas em situação de rua são atendidos e acabam se misturando, gera conflitos. O nosso foco, tendo em vista toda tragédia, é garantir que todas as famílias que estavam no desabamento recebam o suporte principal, já estamos cruzando os dados delas para fornecer o benefício social que será concedido", disse Antônio de Almeida ao UOL.

O chefe de gabinete explicou como funciona esse cruzamento de dados. "A Secretaria de Habitação já tinha uma lista das pessoas que moravam no edifício que desabou. Mas, desde o desabamento, a Secretaria de Assistência cadastrou todo mundo que aparecia lá. Agora, vamos cruzar quem foi cadastrado pela [Secretaria de] Assistência e pela [Secretaria de] Habitação para receber o benefício".

E quem não estiver nessa conferência de dados? "Quem não estiver no cruzamento receberá outro tipo de benefício, outros encaminhamentos de outras necessidades, como ajuda de documentação, acolhimentos, ressocialização, entra no leque enorme de atendimentos da [Secretaria de] Assistência".

José Antônio de Almeida nega que levar as doações diretamente para os abrigos seja uma estratégia para tirar os desabrigados da zona quente do desabamento. "É difícil afirmar que a maioria das pessoas [desabrigadas] estão no Largo, muitas já foram encaminhadas para alojamentos, outras passaram a noite no Viaduto Pedroso. Não se trata de estratégia, é a garantia de um atendimento organizado".

Local oficial para doação:

Hospital da Cruz Vermelha - Av. Moreira Guimarães, 699, Indianópolis - São Paulo

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