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Tragédia em Brumadinho


'Homem branco fez terra vomitar', diz líder de aldeia afetada em Brumadinho

Diego Toledo

Colaboração para o UOL em São Joaquim de Bicas (MG)

31/01/2019 04h01

A aldeia indígena Naô Xohã se estabeleceu nas margens do rio Paraopeba, em Minas Gerais, há pouco menos de dois anos. E nunca havia recebido tantas visitas como nos últimos dias, depois de uma das barragens da Vale em Brumadinho ter se rompido e deixado vazar mais de 12 milhões de metros cúbicos de lama.

Com pouco mais de 50 membros das etnias pataxó e pataxó hã-hã-hãe, a comunidade fica a cerca de 20 quilômetros do local do rompimento da barreira, já fora dos limites de Brumadinho, no município de São Joaquim de Bicas.

Desde sábado, o rio -- que servia de fonte de água e alimentação para os índios --só carrega lama e peixes mortos para as margens da aldeia.

"O homem branco fez essa terra vomitar para poluir o nosso rio", diz o cacique Hayô, líder do grupo.

Cacique Hayô observa o rio Paraopeba, tomado pela lama do rompimento da barragem - Diego Toledo/UOL
Cacique Hayô observa o rio Paraopeba, tomado pela lama do rompimento da barragem
Imagem: Diego Toledo/UOL

Sem poder usar a água do rio, a aldeia passou a depender de doações para ter o que beber, comer e tomar banho.

Ao seu lado, a esposa, a ativista Celia Angohoró, afirma que a "ganância da busca por minério matou o rio e levou um monte de vidas junto".

Às lágrimas, ela diz temer que a recuperação do rio demore décadas e comprometa, inclusive, o futuro das próximas gerações.

"Dá vontade de pular lá dentro e morrer junto com o rio", diz.

Veja o caminho percorrido pela lama da barragem de Brumadinho

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Evacuação

Na sexta, quando a barreira se rompeu, os índios levaram oito grávidas e mães com crianças pequenas para longe. Desde então, elas estão em casas de conhecidos em Belo Horizonte.

Outros moradores da aldeia permaneceram na comunidade, mas buscaram áreas mais altas por conta do temor de que outra barragem se rompesse e ampliasse o estrago.

Nos últimos dias, a comunidade recebeu a visita de equipes da Funai (Fundação Nacional do Índio), do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) e do Sesai (Secretaria Especial da Saúde Indígena), além de curiosos, voluntários que levaram água e comida e jornalistas.

Em uma reunião nesta quarta-feira (30), os índios receberam da Funai a promessa de que terão apoio para que o suprimento de água e alimentos seja mantido. O órgão também se comprometeu a intermediar as negociações com a Vale para que a aldeia seja incluída nos planos de reparação pelos danos causados na região.

A equipe da Sesai não encontrou relatos de problemas de saúde entre os índios causados pelo rompimento da barreira. Apenas orientou os moradores da aldeia a evitar o contato com a água e a lama do rio.

Gervasio Ânkohay, morador da aldeia indígena Naô Xohã - Diego Toledo/UOL
Gervasio Ânkohay, morador da aldeia indígena Naô Xohã
Imagem: Diego Toledo/UOL
Aos 93 anos, Gervasio Ânkohay, morador da aldeia, caminhava cabisbaixo.

"Era um rio muito bonito, acabaram com a vida que tinha ali", lamentou. Cercado por jornalistas brasileiros e estrangeiros e equipes de TV, um grupo de moradores seguiu até a margem do rio, tocando instrumentos indígenas e entoando uma canção que pedia respeito às regras da natureza.

Desde sexta-feira, os índios dizem já ter removido mais de três sacos grandes de peixes mortos da beira do rio Paraopeba.

Além da tristeza pela situação na água, os moradores da aldeia também temem pelos animais que vivem na região. Capivaras, jaguatiricas e macacos costumam circular pelos arredores e beber a água do rio.

Diante das incertezas sobre o futuro da aldeia, o cacique Hayô diz ter esperança de ver o rio limpo de novo. E promete que, se as autoridades não tomarem providências para a recuperação da região, os índios vão protestar, inclusive fechando pistas nas estradas próximas e bloqueando a linha de trem que cruza o rio.

Hayô afirma que o momento é de resistência e de curar o "coração partido" pela situação atual da população de Brumadinho e do Paraopeba. "É um rio morto", lamenta o cacique.

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