PUBLICIDADE
Topo

Espera por notícias em Brumadinho é marcada por choro, esperança e cansaço

O pedreiro Wilson Joaquim da Fonseca Silva (de boné), amparado por um voluntário na Estação Conhecimento - Luciana Quierati/UOL
O pedreiro Wilson Joaquim da Fonseca Silva (de boné), amparado por um voluntário na Estação Conhecimento Imagem: Luciana Quierati/UOL

Luciana Quierati

Do UOL, em Brumadinho (MG)

31/01/2019 09h46

Vencido pela dor e pelo cansaço cinco dias após a tragédia em Brumadinho, o pedreiro Wilson Joaquim da Fonseca Silva, 48, desabou nesta quarta-feira (30). "Não quero dinheiro, quero minha filha de volta", disse após ouvir um porta-voz da Vale, dona da barragem que se rompeu, informar ao microfone que as famílias afetadas irão receber R$ 100 mil. "Nasci sem um centavo no bolso. Não é isso que importa." 

Encostado na parede do salão principal e amparado por um irmão, chorou um choro doído, de quem já não aguenta mais esperar por notícias que não vêm, sejam elas quais forem. 

Todo dia desde sexta-feira (25), quando do rompimento da barragem da Mina do Feijão, a rotina de parentes e amigos de pessoas desaparecidas em decorrência do acidente tem sido ir até a Estação Conhecimento, espaço da Vale localizado na rodovia MG-040, em busca de informação.

Uma vez pela manhã e outra à tarde, as famílias são chamadas a conferir se os nomes de seus entes constam das relações atualizadas de mortos e hospitalizados. Segundo o último balanço dos Bombeiros, de quarta-feira (30), 99 corpos foram localizados (57 identificados) e 259 pessoas são consideradas desaparecidas.

Mães, pais, filhos, primos, todos se põem em fila, depois informam o nome do familiar a um atendente, que faz a checagem em uma folha de papel com letras miúdas. Em segundos vem a resposta, para a qual a reação tem sido quase sempre a mesma: desalento, já que há dias ninguém é encontrado com vida.

Psicólogos arregimentados pela prefeitura, a maioria voluntários, ficam a postos para prestar apoio. "A gente sabe que a sua dor não vai passar, mas conversar às vezes ajuda", é o que normalmente dizem.

Após esse momento de maior consternação, boa parte dessas pessoas voltam a se acomodar onde estavam, em cadeiras plásticas distribuídas pelo salão, debaixo de alguma árvore ou no refeitório. E continuam na espera. 

Muitos evitam deixar o local na expectativa de que, a qualquer momento, alguém apareça com uma boa notícia. "A gente tem esperança, claro. Não pode perder", diz Washington Luciano Alves, 36, que é de Ipatinga, a 260 km de Brumadinho, e tem um irmão de 34 funcionário da Vale desaparecido.

Washington Luciano Alves, na Estação Conhecimento, no aguardo de informações sobre o irmão desaparecido - Luciana Quierati/UOL - Luciana Quierati/UOL
Washington Luciano Alves, na Estação Conhecimento, no aguardo de informações sobre o irmão desaparecido
Imagem: Luciana Quierati/UOL

Também nessa Estação Conhecimento há equipes da prefeitura cadastrando vítimas ainda fora da lista de desaparecidos, além de defensores públicos e homens da Defesa Civil, irmãs de caridade e evangélicos levando um consolo, funcionários da mineradora e jornalistas. 

Há ainda uma movimentação de militares. De tempo em tempo, grandes helicópteros do Exército posicionados em uma quadra esportiva ao lado alçam voo levando equipes, que chegam em vans, para as áreas atingidas.

"Acho que eles vão lá na lama para ajudar nas buscas, mas a gente só acha, porque ninguém fala nada para a gente", diz uma enfermeira, irmã de uma das vítimas, que prefere não se identificar.

"O que falta aqui", complementa ela, "é algo mais concreto". "Alguém que venha e diga: 'olha, estamos com gente em tais e tais áreas, com os israelenses a gente conseguiu avançar tanto, no IML está sendo desse jeito'... Que seja mais objetivo", diz.

Quando vira noite, o vaivém no local diminui, mas não cessa, até amanhecer, quando os familiares retornam a tempo de não perder a divulgação do boletim da manhã com a atualização do número de mortos e de identificados.

Tragédia em Brumadinho