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'Ele me recebeu, então precisava me despedir', diz brasileira que viu corpo de Chávez

Carlos Iavelberg

Do UOL, em Caracas

10/03/2013 06h00

Estudante de medicina em Caracas, onde vive há quase seis anos, a brasileira Vaubéria Temótio Macedo, 27, pôde ver o presidente Hugo Chávez em quatro oportunidades. A última vez, quando viu o corpo do líder na última quinta-feira (7), foi com certeza a mais marcante.

Bolsista em um programa bancado pelo governo venezuelano, Vaubéria viu Chávez pela primeira vez no dia 15 de abril de 2007, quando o então presidente participou da cerimônia de inauguração da Escola Latino-americana de Medicina, onde ela estuda. "Nossa, estou sendo recebida por um presidente", pensou à época.

"Poxa, ele me recebeu quando eu chequei, então tenho que dizer tchau para ele. Era uma questão pessoal", conta Vaubéria, vinda da pequena cidade de Nova Olinda (a 496 km de Fortaleza, no Ceará) .

Para ver o corpo, a brasileira contou com a sorte ao ficar "apenas" 5 horas na fila, no mesmo dia em pessoas esperaram até 24 horas. Ao se aproximar da Academia Militar, onde o corpo é velado, uma confusão a ajudou a "furar fila".

"Eu estava perto de uma grade de ferro que eles colocaram para ajudar a formar a fila e para que as pessoas não invadirem, porque tem muita gente querendo entrar. Quando eu cheguei perto da grade, veio uma multidão de gente que levou todo mundo. Não tinha como voltar, eu tive que ir no embalo. Quando os guardas viram que eu estava sendo esmagada, eles me tiraram e me colocaram para dentro [do salão onde o corpo é velado], por que não tinha como eu voltar." Uma amiga que estava com ela desmaiou e não pôde ver o corpo.

"Lá dentro, eles não deixam você demorar nada. Fiquei na frente do corpo uns cinco segundos, pouquinho. A partir do momento que você entra, eles já vão te tirando com muita educação", conta.

 

E como estava o corpo de Chávez? "É ele. É aquela serenidade que ele tinha, aquela força, caráter (...) Ele está de boina vermelha, mas só consegui ver o rosto porque, como é um pouco alto e eu sou pequenininha [1,52 metro de altura], eu precisei me levantar para ver e me fixei na cara."

Vaubéria diz que teve vontade de tocar no corpo, mas isso não é possível, pois um vidro o protege.

"Caramba, era o Chávez. Aquela pessoa que nos recebeu, que nos apoiou, que nos deu toda a oportunidade de ter coisas que não temos no nosso país [estudar medicina]. Por que a gente veio para cá? Porque não temos essa oportunidade no nosso país, porque somos pessoas campesinas, somos do interior", diz a brasileira, ligada à Pastoral da Juventude Rural.

Vaubéria, que voltará a sua cidade natal no fim deste ano, diz que levará os ideais chavistas para o Brasil.

"Levo comigo a bandeira do Chávez, mas não da pessoa do Chávez. Acho que o chavismo que está nascendo agora vai se tornar uma linha política, assim como é o socialismo, o marxismo. O chavismo é diferente, porque ele [Chávez] pegou tudo o que tinha, juntou e transformou do jeito dele. Espero viver o suficiente para ver tudo o que isso vai gerar."

Como futura médica e questionada sobre a declaração do presidente interino, Nicolás Maduro, que acusou os "inimigos do país" de estarem por trás do câncer do líder, Vaubéria prefere não polemizar. "Não saberia o que opinar, teria que ter mais conhecimento científico do assunto", justifica.

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