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Eleições Americanas

Trump e Biden trocam acusações, mas mantêm compostura em debate nos EUA

Carolina Marins

Do UOL, em São Paulo

23/10/2020 00h07Atualizada em 23/10/2020 01h25

O segundo e último debate entre os candidatos à presidência dos Estados Unidos, Donald Trump e Joe Biden, foi dominado pelo coronavírus. Durante meia hora, um terço do tempo total, Trump e Biden debateram a forma como o combate a pandemia foi ou deveria ser conduzido, o que obrigou a moderadora, Kristen Welker, a acelerar os temas seguintes, como a questão racial, relações exteriores e o meio ambiente.

Após um primeiro debate caótico, no qual Donald Trump discutiu até mesmo com o apresentador, o embate desta noite foi considerado moderado, com menos interrupções e ataques pessoais. O encontro foi retransmitido pelo UOL em parceria com a Band.

Não é uma garantia, mas [a cura] será até o fim do ano, temos uma boa chance."
Donald Trump

Trump diz que estamos aprendendo a viver com a pandemia. As pessoas estão aprendendo a morrer com ela."
Joe Biden

Nos momentos de maior tensão, Trump acusou a família de Biden de enriquecer por meios questionáveis. Biden, por sua vez, perdeu a paciência ao debater a questão do racismo nos Estados Unidos.

A fluidez da discussão se deveu em parte a uma estratégia adotada pela primeira vez pela Comissão de Debates Presidenciais: desligar os microfones ao final da fala de cada candidatos. Além disso, Welker interrompeu rapidamente falas que tomavam a forma de insultos ou fugiam do tema em questão.

Este foi o segundo e último confronto direto entre os dois candidatos antes das eleições no dia 3 de novembro - daqui menos de duas semanas. Pesquisas de intenção de votos mostram Biden à frente de Trump com uma larga distância.

Combatendo a covid-19

Este foi o primeiro debate entre os candidatos após Trump ter se infectado com o novo coronavírus. E a pandemia foi também o primeiro tema a ser trazido à tona.

Trump chegou a ser internado, porém recebeu alta e a autorização para frequentar eventos públicos antes dos 14 dias de quarentena, o que gerou críticas ao médico que o atendeu. Em sua primeira declaração no embate, ele disse estar imune e que uma vacina estaria pronta até o final do ano. O presidente não especificou, no entanto, qual entre as substâncias em produção atualmente cumpriria este prazo.

Biden retrucou dizendo que Trump não tinha um plano claro para combater a pandemia e acusou o presidente de esconder informações da população.

Imagine o que ele sabia em janeiro e não disse ao povo americano? Ele sabia o quão perigoso este vírus era. Ele não queria que a população entrasse em pânico, mas ele mesmo entrou em pânico."
Joe Biden

Os dois candidatos voltaram a discordar sobre o isolamento. Trump defende a abertura do país e acusou Biden de querer fechar fronteiras "Veja o que está acontecendo com Nova York, uma cidade tão linda, as pessoas estão indo embora", disse o presidente.

Os Estados Unidos são o país com maiores infecções e óbitos por covid-19 e os números voltaram a crescer nas últimas semanas, inclusive nos chamados estados-pêndulo — lugares em que os resultados nas urnas são imprevisíveis e, por isso, são fundamentais para as campanhas dos dois partidos. O principal deles é a Flórida, que atingiu hoje seu maior número de casos desde agosto.

Não concordo que vamos entrar num inverno sombrio, estamos abrindo o país, estamos estudando, entendendo a doença, o que não entendíamos no começo. Quando fiz o fechamento e não permiti que pessoas viessem da China para cá e depois da Europa, diziam que eu seria xenofóbico. Agora, eu não sou rápido suficiente."
Donald Trump

Especialistas temem que o país esteja a caminho de uma segunda onda de infecção, como ocorre na Europa. Segundo a Universidade Johns Hopkins, o país tem mais de 8 milhões de casos confirmados e mais de 200 mil mortes. Ontem, os Estados Unidos registraram 1.124 mortes pelo novo coronavírus, segundo a Universidade Johns Hopkins. O maior número de óbitos em 24 horas em mais de um mês.

Segurança nacional

O debate seguiu para a questão de segurança nacional e sobre a intervenção externa nas eleições. Na quarta-feira (21), autoridades de inteligência de alto escalão acusaram Rússia e Irã de tentarem interferir na eleição presidencial de 2020, o que foi negado por Moscou e Teerã.

Biden disse que os países que interferiram nas eleições de 2016 "irão pagar um preço". "Precisamos garantir a soberania dos EUA, se você interfere com soberania de nosso país, você deve pagar. Até onde se sabe, o presidente não disse nada com o presidente [Vladimir] Putin, não sei porque ele ainda não disse nada com o presidente da Rússia".

Eu deixei bem claro que qualquer país, não importa qual seja, se interferir nas eleições americanas, irá pagar um preço. Está muito claro nesta eleição: a Rússia esteve envolvida, a China em algum grau, e nós descobrimos agora que Irã também está envolvido e eles pagarão se eu for eleito."
Joe Biden

Trump acusou Biden de receber dinheiro da Ucrânia, China e Rússia. "Ele era muito amigo do ex-prefeito de Moscou, da esposa desse ex-prefeito e sua família recebeu US$ 3,5 mi e algum dia você vai ter que explicar porque recebeu. Não recebo dinheiro da Rússia".

O presidente também acusa Biden de conflito de interesse por ter supostamente utilizado seu cargo de vice-presidente em favor de seu filho Hunter Biden. Hunter é motivo de atrito entre os dois desde o ano passado e levou a um processo de impeachment contra Trump por supostamente pressionar o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, a investigar Joe Biden e Hunter.

Hunter Biden era conselheiro em uma empresa ucraniana em 2016, quando seu pai ainda era vice-presidente. Na época, Biden teria pedido a demissão de um procurador acusado de corrupção. O procurador investigava a empresa na qual Hunter trabalhava.

Todos os e-mails terríveis, o tipo de dinheiro que estava recebendo. Joe, você já era vice quando algumas coisas estavam acontecendo, isso nunca deveria ter ocorrido. Você deve uma explicação ao povo dos EUA."
Donald Trump

Em resposta, Biden resgatou uma publicação de ontem do jornal The New York Times segundo a qual o presidente Trump mantém uma conta secreta na China, país que ele ataca constantemente.

"Não recebi nenhum centavo de nenhum outro país na minha vida. O que sabemos é que esse presidente pagou 15 vezes mais impostos com a conta bancária e negócios que tinha na China e agora está falando que eu recebi dinheiro", disse Biden.

Segundo a reportagem do jornal americano, a conta é controlada por uma das empresas do mandatário, a Trump International Hotels Management, e pagou US$ 188,561 em taxas e impostos entre os anos de 2013 a 2015. A revelação ocorre semanas depois de o mesmo jornal mostrar que Trump pagou apenas US$ 750 em impostos nos Estados Unidos em 2016 e 2017.

Assim como respondeu no primeiro debate, Trump disse ter pago "milhões de dólares" em impostos.

China e Coreia do Norte

Questões envolvendo relações comerciais com a China e a ameaça nuclear norte-americana também surgiram como tema.

O atual presidente foi questionado sobre o fato de o arsenal nuclear norte-coreano ter crescido durante sua gestão. Trump respondeu dizendo ter boa relação com o líder norte-coreano Kim Jong-un. "Milhões de pessoas estariam mortas agora se não tivéssemos uma boa relação."

Trump foi o primeiro líder dos Estados Unidos a pisar na Coreia do Norte e participou de reuniões com Kim Jong Un.

Desenvolvi um bom relacionamento [com Jong-un], é um cara diferente, ele também acha que sou, temos um bom relacionamento e não tivemos guerra."
Donald Trump

É como dizer que tínhamos [os Estados Unidos] um bom relacionamento com Hitler antes de ele invadir toda a Europa. Obama estava falando de desnuclearização, queríamos colocar sanções mais fortes sobre ele [Jong-un], por isso ele não se reunia conosco."
Joe Biden

Perguntado se se encontraria com Jong-un, o democrata respondeu que apenas "sob a condição de que ele desmontasse sua capacidade nuclear e transformasse a península coreana numa área livre de aparatos nucleares."

As família americanas e Obamacare

A pauta conservadora ganhou destaque com a nomeação da juíza Amy Coney Barrett para suceder Ruth Bader Ginsburg, uma progressista, na Suprema Corte Americana. Com a nomeação, o programa de saúde Obamacare voltou ao debate, embora Barrett já tenha dito que não é contra o programa.

Trump ataca o programa criado pelo ex-presidente Barack Obama dizendo que ele não protege americanos com doenças pré-existentes. "Fizemos um trabalho incrível com o sistema de saúde e faremos ainda melhor", disse. O presidente acusa o adversário de querer "socializar a medicina" e destruir o atual serviço de saúde.

Precisamos continuar a eliminar o Obamacare porque não é bom. O que queremos fazer é encerrá-lo. Quero acabar com Obamacare' lançar um novo plano."
Donald Trump

Biden promete transformar o Obamacare em uma opção pública de saúde, o "Bidencare". Além disso, prometeu diminuir o preço de medicamentos e não eliminar planos de saúde privados. "A não ser que eles [os americanos] decidam por sair".

Vou aprovar o Obamacae como opção pública. As pessoas merecem ter cuidados de saúde acessíveis, ponto final. Ponto, ponto, ponto. E a proposta do Bidencare fornecerá isso."
Joe Biden

Desemprego e salário mínimo

Os candidatos foram questionados sobre a aprovação de uma lei para ajudar pequenos negócios e governos locais com a crise econômica causada pelo novo coronavírus. Welker lembrou que há hoje 12 milhões de desempregados nos Estados Unidos.

Acho que precisamos resgatar os pequenos negócios, há muitos falindo e não vão conseguir se reerguer. Eles precisam de ajuda, e esses caras não vão fazer isso, não estão transferindo nenhum dinheiro."
Joe Biden

Trump jogou a culpa sobre a presidente da Câmara dos Deputados, a democrata Nancy Pelosi. "Ela não quer aprovar, porque acha que isso irá ajudá-la politicamente. Eu acho que vai prejudicá-la".Biden, por sua vez, responsabilizou o senador republicano Mitch McConnell por travar o debate no Congresso.

O democrata defendeu o aumento do salário mínimo para US$ 15 a hora — atualmente, é de US$ 7,25. O republicano contrariou: "Um estado é diferente do outro, isso tem que ser uma opção estadual."

O que eu realmente gostaria e poderia considerar em um segundo governo, deve ser uma opção estatal. São lugares muito diferentes. Em alguns lugares, US$ 15 não pesa tanto. Em outros, vai ser um desastre."
Donald Trump

Famílias separadas na fronteira

Um dos momentos mais exaltados da discussão foi sobre imigração. Trump foi questionado sobre crianças imigrantes separadas de seus pais na fronteira com os Estados Unidos. Reportagem do New York Times publicada nesta semana diz que há mais de 500 crianças que ainda não foram reunidas com suas famílias.

Trump disse que o governo "está trabalhando" para resolver a questão, mas que muitos menores de idade chegam ao país sozinhos, trazidos por "coiotes" — pessoas pagas para ajudar imigrantes a cruzarem a fronteira ilegalmente.

Crianças são trazidas por transportadores ilegais, cartéis. Agora temos as fronteiras mais fortes do que nunca, milhas e milhas de muros e barreiras. Nós estamos tentando, nos esforçando."
Donald Trump

"Essas crianças não chegaram sozinhas, elas foram arrancadas dos braços de seus pais e isso é criminoso", rebateu o democrata. Biden não comentou, no entanto, sobre o fato de o governo de Barack Obama ter sido o responsável por construir as celas para onde imigrantes são levados.

O que aconteceu? Crianças e pais foram separados uns dos outros e, agora, não conseguem encontrar mais os pais dessas crianças. Elas não têm lugar para ir. Isso é criminoso."
Joe Biden

Questões raciais

Biden acusou Trump de ser o primeiro presidente a se afastar da inclusão de pessoas e caminhar para a exclusão. Além de citar negros, Biden também falou sobre perseguição a muçulmanos.

Nunca precisei dizer para minha filha que se ela for abordada por um policial na estrada que colocasse os dois braços no volante ou pode levar um tiro. Pais de crianças negras têm que falar isso. Você sabe porque pais de crianças negras temem por seus filhos?"
Joe Biden

Trump também disse compreender a questão e acusou Biden de ter feito nada pela comunidade negra durante seus anos na vice-presidência. "Ninguém fez mais pela comunidade negra do que Donald Trump" respondeu e se comparou com o ex-presidente Abraham Lincoln, que assinou a lei de abolição da escravidão. Ele disse que a primeira vez que ouviu falar do movimento Black Lives Matter foi com eles "chamando os policiais americanos de porcos". "Algo horrível", disse.

Tenho relacionamentos excelentes com todas as pessoas. Sou a pessoa menos racista desta sala. Não consigo nem ver o público, porque está muito escuro, mas não importa, sou o menos racista desta sala."
Donald Trump

Quando Trump se declarou o presidente que mais fez pela população negra desde Abraham Lincoln, responsável pela abolição no país, Biden respondeu ironicamente: "O Abraham Lincoln aqui é um dos presidentes mais racistas que tivemos na história moderna."

*Colaboraram Gilvan Marques, Lucas Borges Teixeira e Felipe Oliveira

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