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Guerra da Rússia-Ucrânia

Notícias do conflito entre Rússia e Ucrânia


100 dias de guerra na Ucrânia: Quando acaba? O que a Rússia quer?

Nathan Lopes

Do UOL, em São Paulo

03/06/2022 04h00

A guerra da Rússia na Ucrânia entrou hoje em seu 100º dia sem perspectiva de quando poderá acabar. Iniciada em 24 de fevereiro, a ofensiva promovida pelo presidente russo, Vladimir Putin, está marcada atualmente pelo avanço lento, mas constante, das forças invasoras no leste ucraniano.

Ao mesmo tempo, a Ucrânia aguarda mais armas de aliados, um pedido rotineiro do presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky. Com elas, a Ucrânia diz acreditar em um ponto de virada no conflito em agosto.

Os motivos que levaram Putin a investir na guerra —já com milhares de civis mortos e milhões de deslocados— ainda são difíceis de compreender. Mas seus efeitos são sentidos em todo o planeta, que é afetado ao menos economicamente pela guerra.

No 100º dia da guerra, o UOL traz a análise de especialistas sobre o momento do conflito.

Quando a guerra acabará?

Não há uma perspectiva para o fim da guerra neste momento. "Provavelmente, teremos muitos mais '100 dias' de conflito", diz Mariana Kalil, professora da ESG (Escola Superior de Guerra), citando as batalhas no sul e no leste da Ucrânia.

"A Rússia já controla porções significativas do território ucraniano, com capacidade de expansão das operações", comenta Tito Lívio Barcellos Pereira, geógrafo pela USP (Universidade de São Paulo) e cientista político pela UFF (Universidade Federal Fluminense). Para ele, "um processo de cessar-fogo imediato das hostilidades demandaria uma série de negociações e concessões que os lados beligerantes se mostram indispostos a cumprir e aceitar."

Ceder ao adversário pode ser interpretado como fraqueza, e, por esse motivo, as rodadas de negociações diplomáticas, tão presentes nas primeiras semanas do conflito, acabaram estagnando
Tito Lívio Barcellos Pereira, geógrafo

Chefe da inteligência militar da Ucrânia, Kyrylo Budanov indicou, no mês passado, a expectativa de a guerra durar até o final do ano. Mas, para meados de agosto, ele espera um "ponto de inflexão", período em que a Ucrânia deverá ter mais armas do Ocidente.

Budanov também disse acreditar que a Ucrânia retomará todo seu território, o que é visto com ceticismo por analistas. "Considerando os desdobramentos atuais, é muito difícil afirmar a possibilidade da Ucrânia retomar militarmente todos os territórios perdidos", diz Barcellos.

O geógrafo lembra que russos e separatistas conseguem fazer avanços significativos no Donbass "controlando o acesso a estradas e ferrovias". "As forças de Kiev [capital ucraniana] ficam com suas capacidades logísticas altamente comprometidas." O Donbass é a bacia do rio Donets, área com separatistas pró-Rússia, no leste.

Barcellos também avalia que, "caso os russos consigam neutralizar as principais forças ucranianas presentes no Donbass —mais numerosas, experientes, motivadas e equipadas que no resto do país—", não se pode descartar a possibilidade de novas incursões russas nas regiões que foram abandonadas pela Rússia, como Chernihiv e Kiev.

Talvez a Rússia esteja usando o tempo a seu favor e não se mostre disposta a encerrar suas atividades militares caso consiga conquistar todo o Donbass
Tito Lívio Barcellos Pereira, geógrafo

O que a Rússia quer com a guerra?

"Os objetivos da Rússia não são muito claros, e sua dinâmica pode sofrer diversas mudanças conforme o tempo passa e os resultados —positivos ou negativos— de sua campanha militar vão aparecendo", diz Barcellos.

Há algumas possibilidades de causas para a invasão russa, na avaliação do geógrafo:

  • "'Campanha punitiva' com o objetivo amplo de submeter a Ucrânia a sua esfera de influência", o que seria caracterizado com a tentativa de induzir um golpe de Estado contra Zelensky "logo na primeira semana de conflito com a realização de um cerco parcial em Kiev", ação que não foi bem sucedida;
  • "Interesse apenas em separar as províncias russófilas e russófonas do país, formando a denominada Nova Rússia, cortando o acesso ucraniano aos mares Negro e Azov assim como às principais zonas urbano-industriais do leste e sul do país". Isso reduziria a Ucrânia "a um território agrário e esparsamente povoado, com exceção de sua capital, Kiev".
  • Ou, então, "conquistar os territórios reivindicados por Lugansk e Donetsk, afastando a linha de cessar-fogo do fracassado Acordo de Minsk [de 2015] e deixando esses territórios menos vulneráveis aos ataques de artilharia ucranianos."

Para Kalil, a situação na Ucrânia também poderia ser entendida como "um meio russo de se contrapor à estratégia de caos periférico adotada pela Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte)" no entorno russo. "A Rússia buscaria estabelecer o que chamamos de buffer, uma zona amortecedora desses choques apoiados pelo Ocidente, por meio do reconhecimento de um território tampão no sul e no leste da Ucrânia", diz a professora.

Conflito pode virar Terceira Guerra Mundial?

Kalil diz que o conflito "já tem traços mundiais", apesar de restrita ao território ucraniano, em razão das guerras cibernética, de informação e da "dissuasão da guerra nuclear".

Para a professora, os pedidos de Zelensky por mais armas "demonstram que os ucranianos enxergam a mundialização da guerra como uma necessidade". Mas ela diz acreditar que o Ocidente não quer escalonar o conflito —ao, por exemplo, negar armas que atinjam o território russo— nem a Rússia quer "mundializar a guerra, embora faça exercícios que busquem dissuadir o Ocidente e não somente a Ucrânia".

Qual é a situação hoje?

Após um início com ataques pelo território ucraniano —inclusive contra a capital, Kiev—, o exército russo, desde o fim de março, foca suas ações no leste do país, principalmente no Donbass. Recentemente, o exército russo avançou em Lyman e Sievierodonetsk, buscando controlar a região. "Os russos continuam avançando lentamente, mas em ritmo constante", diz Barcellos.

O exército ucraniano, porém, não deixa de prestar atenção em outras regiões do país que foram atacadas mais constantemente no início do conflito, como Sumy, Chernihiv e Kharkiv, próximas à fronteira com a Rússia e com Belarus, país aliado de Putin. Barcellos menciona que, nesta área em específico, "existem ainda muitos grupos de batalhões táticos russos".

Mapa Rússia invade a Ucrânia - 26.02.2022 - Arte UOL - Arte UOL
Imagem: Arte UOL

"Acredita-se que a presença desses batalhões russos tem função meramente 'diversionária'", diz o geógrafo. "Ou seja, tem o objetivo de dissuadir as tropas ucranianas, mantendo-as em alerta e prontidão, enquanto evitam que Kiev envie-as como reforços para a principal frente de batalha, na região do Donbass."

Kalil diz ver o conflito na Ucrânia como uma "guerra híbrida", misturando elementos convencionais, cibernéticos e de informação, entre outros. Sobre esta última, ela diz que "a guerra de informação é crucial tanto do lado russo quanto do ucraniano para manter mobilizações nacionais e internacionais".

Fora do âmbito militar, Rússia e Ucrânia lidam com questões econômicas em meio à invasão. O governo Putin enfrenta sanções de países ocidentais —pró-Ucrânia— com o objetivo de "estrangular a economia" para que a Rússia mude seu comportamento, disse Barcellos.

"As sanções aplicadas contra Moscou são mais 'ocidentais' do que de fato 'internacionais'", observa o geógrafo, lembrando que a maior parte dos países, como o Brasil, não rompeu com os russos.

Se perde por um lado, a Rússia redireciona sua produção "para outros mercados em crescimento, como China, Índia, Irã, países do Sudeste Asiático, Oriente Médio, África e até a América Latina". E a economia russa tem se mostrado resiliente nesse período inicial da guerra.

Os russos também viram vizinhos ficarem ainda mais próximos à Otan, com as candidaturas de Suécia e Finlândia, um reflexo da invasão russa. A aliança militar é tida como ameaça pelos russos.

A Ucrânia, por sua vez, tem enfrentado problemas para exportar seus produtos por causa de portos que estão em áreas dominadas pelos russos. Alguns países, inclusive, já sofrem problemas de abastecimento de alimentos.

Quais territórios estão dominados?

A Rússia e separatistas controlam aproximadamente 20% do território ucraniano, especialmente regiões do sul e do leste do país. São faixas das regiões de Lugansk, Donetsk, Kherson, Kharkiv e Zaporizhzhia, além da Crimeia, anexada unilateralmente pelos russos em 2014.