PUBLICIDADE
Topo

Após negar gabinete paralelo, Wizard se cala e deixa CPI falando sozinha

Hanrrikson de Andrade, Fábio Castanho e Luciana Amaral

Do UOL, em Brasília e em São Paulo

30/06/2021 04h00Atualizada em 30/06/2021 16h54

Com autorização do STF (Supremo Tribunal Federal), o empresário Carlos Wizard, ex-colaborador do governo do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), decidiu ficar em silêncio hoje durante oitiva da CPI da Covid, no Senado. Mesmo avisando que permaneceria calado, o investigado ouviu dezenas de perguntas formuladas pelos parlamentares.

Ante as indagações, Wizard repetiu sucessivas vezes que se negaria a oferecer respostas. Em razão da postura, o depoente foi criticado por congressistas de oposição, enquanto os governistas procuraram exaltar o "trabalho humanitário" do empresário com refugiados. Wizard também ouviu provocações.

Em uma delas, o relator da comissão, Renan Calheiros (MDB-AL), afirmou que "machões da internet ficam caladinhos na CPI". O presidente da CPI, Omar Aziz (PSD-AM), disse ser melhor Wizard "pegar um gravador e botar aqui...não precisa nem abrir a boca" para repetir a frase de que se reserva ao direito de ficar em silêncio.

Antes de ouvir os questionamentos, Wizard teve direito a um breve discurso inicial. Durante pouco mais de 15 minutos, o investigado negou fazer parte do chamado "gabinete paralelo" e tentou explicar o motivo pelo qual descumpriu inicialmente a convocação do colegiado —o depoimento chegou a ser marcado para 17 de junho.

Na versão do empresário, a ausência ocorreu porque ele viajou aos Estados Unidos para dar assistência ao pai, que teria problemas de saúde. Posteriormente, ele disse ter permanecido em solo norte-americano para acompanhar a gravidez da filha.

Wizard citou várias passagens bíblicas e usou o pano de fundo religioso para justificar a sua colaboração com o Ministério da Saúde. Ele alegou ter sido convidado pelo ex-ministro Eduardo Pazuello a "salvar vidas" e que, motivado pela fé e pelo compromisso social, teria aceitado desde que a sua atuação fosse voluntária e sem fins de lucratividade.

Na chegada à CPI, o empresário já havia percorrido os corredores do Senado Federal segurando um cartaz com um versículo bíblico. A ilustração continha mensagem em referência ao versículo "Isaías 41:10", que diz: "Por isso não tema, pois estou com você; não tenha medo, pois sou o seu Deus. Eu o fortalecerei e o ajudarei; eu o segurarei com a minha mão direita vitoriosa".

Carlos Wizard chega para depor na CPI da Covid com um cartaz em referência a uma passagem bíblica - Adriano Machado/Reuters - Adriano Machado/Reuters
Carlos Wizard chega para depor na CPI da Covid com um cartaz em referência a uma passagem bíblica
Imagem: Adriano Machado/Reuters

Wizard também relatou as circunstâncias nas quais conheceu Pazuello —durante a Operação Acolhida, que prestou assistência social a refugiados venezuelanos em Roraima.

De acordo com o empresário, ele não participou e não tomou conhecimento de qualquer estrutura que tenha atuado na condição de "gabinete paralelo".

"A minha disposição de servir o país combatendo a pandemia e salvar vidas faz com que seja acusado de pertencer a um suposto gabinete paralelo. Afirmo aos senhores, com toda a veemência, que jamais tomei conhecimento de qualquer governo paralelo."

"Se porventura esse suposto gabinete paralelo existiu, eu jamais tomei conhecimento e tenho qualquer informação a esse respeito. Jamais fui convidado, abordado, convocado para participar de qualquer gabinete paralelo. E essa é a mais pura expressão da verdade."

Wizard também negou que tenha participado de "sessões em privado" ou reuniões particulares com o presidente Bolsonaro. Na versão do depoente, eles só estiveram juntos em eventos públicos.

"Jamais em tempo algum, nunca participei de uma única sessão em privado, Nem uma reunião em privado, nem um momento particular com o presidente da República. Participei, sim, de eventos públicos onde ele estava presente. Então, fica evidente que jamais tive qualquer influência, seja no pensamento do presidente ou de qualquer outro suposto gabinete paralelo."

'Gabinete paralelo'

O "gabinete paralelo" é, até o momento, prioridade entre as linhas de investigação em curso na comissão.

Na avaliação da cúpula da CPI, esse grupo sem vínculo formal com o Ministério da Saúde influenciou a tomada de decisões do Palácio do Planalto na condução da pandemia, como o incentivo à cloroquina e a defesa da tese de imunização de rebanho — na contramão do que dizem estudos científicos e autoridades da saúde.

Senadores da oposição mostraram vídeos nos quais Wizard sorri ao citar pessoas que morreram por covid-19 porque teriam ficado em casa sem procurar um "tratamento precoce", conjunto de medicamentos que supostamente combatem o novo coronavírus, mas que não tem eficácia comprovada. O "tratamento precoce" é defendido por outras pessoas apontadas como integrantes do "gabinete paralelo".

Omar relatou que perdeu um irmão para a covid-19 e ser "uma coisa muita dolorida" ouvir essa fala de Wizard. Para parte dos senadores, a CPI era uma oportunidade de o empresário se retratar, o que ele não fez.

"O senhor não pode ficar impune em nome de 516 mil vidas. O senhor não pode rir disso", completou Omar. Wizard se manteve em silêncio.

Retenção do passaporte

Inicialmente, o depoimento de Wizard foi agendado para o dia 17 de junho, mas ele afirmou que estava nos Estados Unidos e não compareceu. Em razão da ausência, Omar Aziz solicitou a retenção do passaporte do empresário bilionário.

Wizard entregou o documento à Polícia Federal ao chegar ao Brasil e, nos últimos dias, vinha mantendo conversas reservadas com os parlamentares para acertar a data da audiência.

Como Wizard era obrigado a prestar depoimento, o ministro do STF Luis Roberto Barroso chegou a autorizar, a pedido da CPI, a condução coercitiva do empresário. A decisão, no entanto, foi revogada. O ministro da Corte deu aval para que ele pudesse permanecer em silêncio.

Conselheiro

Wizard tornou-se um conselheiro eventual do Ministério da Saúde depois de se aproximar do ex-ministro Eduardo Pazuello, que chegou a oferecer um cargo para ele na pasta — o empresário preferiu não aceitar a proposta para seguir atuando de forma independente junto ao governo federal.

Wizard é defensor veemente do uso de cloroquina e hidroxicloroquina no tratamento dos sintomas da covid-19, ainda que evidências científicas no Brasil e no exterior tenham provado que os medicamentos não têm eficácia contra a doença.

Em maio de 2020, pouco depois de Pazuello assumir o cargo de ministro, Wizard afirmou o Brasil seria "forrado de medicamentos da fase inicial do tratamento", como cloroquina e hidroxicloroquina.

Repreensão após mostrar livro e briga com advogado

Depois de avisar que ficaria em silêncio durante o depoimento na CPI da Covid, o empresário Carlos Wizard tentou apresentar o seu livro durante um questionamento e foi repreendido por senadores presentes na sessão.

Wizard apresentou seu livro, chamado "Meu maior empreendimento", depois de ser questionado pela senadora Eliziane Gama (Cidadania-MA) sobre sua religião sob a justificativa de que o público conheça sua "obra humanitária" em Roraima.

"Não vai vender livro aqui não", logo reagiu Omar Aziz.

O senador Otto Alencar (PSD-BA) discutiu hoje com o advogado de Wizard na CPI, Alberto Toron. O senador, que no momento presidia a sessão, afirmou que, enquanto Wizard havia "amarelado", seu advogado estava "vermelhinho" como se tivesse tomado "banho de sol".

O comentário desencadeou uma discussão entre os dois. "Vossa Excelência está errado", disse Toron. Ele foi interrompido por Otto, que disse que não o deu a palavra. Toron continuou: "O senhor se referiu a mim e não quer que eu responda. Isso é uma covardia".

Otto então ameaçou chamar a polícia legislativa para retirar o advogado da sessão. "Me pede desculpas ou tiro o senhor daqui. Não queria ofender, fiz uma brincadeira com você. Eu quis elogiar e [o senhor] me chamou de covarde". Toron alegou que Otto se referiu a ele de forma jocosa. Após mais discussões, o advogado acabou não sendo retirado da audiência.

Convocação de Barros é aprovada

A CPI aprovou hoje a convocação do líder do governo na Câmara, Ricardo Barros (PP-PR), e do ex-servidor do Ministério da Saúde Roberto Ferreira Dias.

Dias, exonerado nesta manhã do cargo de diretor de Logística em Saúde da pasta, é citado como autor de suposta de cobrança de propina em uma negociação para compra de vacinas contra a covid-19, segundo reportagem da Folha de S.Paulo.

Já Barros é apontado como suspeito de participação em suposto esquema de compra ilícita da vacina indiana Covaxin — o que ele nega.

Outros requerimentos também foram aprovados, como a convocação de Paulo Dominguetti Pereira, representante da Davati Medical Supply. Foi ele que, em entrevista à Folha, revelou a suposta cobrança de propina nas negociações para compra de vacinas.

Em depoimento à CPI, na semana passada, o deputado federal Luís Miranda (DEM-DF) disse que o presidente citou o nome do líder governista na Câmara quando foi informado por ele e por seu irmão, em 20 de março, sobre irregularidades envolvendo o contrato de R$ 1,6 bilhão assinado pelo ministério com a Precisa Medicamentos (intermediadora da compra das 20 milhões de doses da Covaxin). Ontem o Ministério da Saúde anunciou que vai suspender a negociação.

O dono da Precisa, Francisco Maximiano, prestará depoimento à CPI da Covid amanhã (1º de julho), de acordo com o cronograma divulgado.

A ordem de análise dos requerimentos pautados e a prioridade em relação à votação pode ser alterada ou definida no decorrer da audiência pelo presidente da CPI, após acordo com os colegas.

Quebras de sigilo de Pazuello e Dias

A CPI da Covid aprovou ainda as quebras de sigilo telefônico, telemático, fiscal e bancário do ex-ministro Eduardo Pazuello e de Roberto Ferreira Dias.

As quebras dos sigilos telefônico e telemático de Pazuello já haviam sido autorizadas pela comissão no último dia 10. Mas, em meio a novas acusações de irregularidades e suposta cobrança de propina por servidores do Ministério da Saúde, a determinação avançou para os dados fiscais e bancários do general, além de incluir Dias.

A CPI da Covid foi criada no Senado após determinação do Supremo. A comissão, formada por 11 senadores (maioria é independente ou de oposição), investiga ações e omissões do governo Bolsonaro na pandemia do coronavírus e repasses federais a estados e municípios. Tem prazo inicial (prorrogável) de 90 dias. Seu relatório final será enviado ao Ministério Público para eventuais criminalizações.