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Camponeses começam a chegar a Assunção e prometem mobilização até derrubar Franco

Guilherme Balza

Do UOL, em Assunção

25/06/2012 10h03

Pegos de surpresa pela deposição relâmpago do ex-presidente eleito do Paraguai, Fernando Lugo, os movimentos camponeses começam a se organizar para dar uma resposta ao que consideram ter sido um golpe de Estado. O estopim da destituição de Lugo foi o massacre de Curuguaty, leste paraguaio, no último dia 16, quando 17 morreram em um conflito entre camponeses e militares.

Segundo Jorge Galeano, secretário-geral do MAP (Movimento Agrário e Popular), uma das organizações camponesas que integram a Via Campesina no país, cerca de 2.000 trabalhadores rurais e “carperos” --como são conhecidos os sem-terra paraguaios-- chegam hoje a Assunção. “São companheiros dos departamentos de Misiones, Caaguazú, Cordillera, Canindeyú e Paraguary”, afirma.

De acordo com ele, os camponeses estão vindo em ônibus pagos pelo próprio movimento e trazem comida plantadas por eles para ficar vários dias na capital paraguaia. “Nos declaramos em mobilização permanente”, diz. O líder camponês estima que, somando todos os movimentos do campo, cerca de 10 mil manifestantes desembarcarão em Assunção nos próximos dias.

Galeano diz que os protestos serão realizados na rua Alberdi, onde fica a TV Pública e já é palco de manifestações há dois dias; na praça do Congresso, que fica em frente ao Senado, cenário do protesto no dia da deposição de Lugo; e em outras ruas da capital.

“Caracterizamos a deposição como um golpe de Estado protagonizado por uma cúpula de partidos tradicionais, que nem consultou suas bases. Os dirigentes dos partidos tradicionais estão totalmente desgastados com a sociedade. É um oportunismo político de parlamentares que representam os latifundiários, os produtores de grãos e os grandes grupos econômicos”, critica.

“A imprensa local diz que não há mobilização, que não existe preocupação, que está tudo tranquilo. Isso é mentira. Vamos demonstrar como os companheiros estão se mobilizando desde a última quinta (21)”, promete o líder camponês, que reside no departamento de Itapúa. Segundo Galeano, o MAP tem em sua base 14 mil famílias.

Sem negociação

Já Elvio Trinidad, liderança do setor de produção da Mesa Coordenadora Nacional das Organizações Camponesas (MCNOC), afirma que até quarta-feira (27) os grupos que compõe a organização vão definir sua linha de ação. “A movimentação está só começando. A deposição de Lugo nos surpreendeu porque foi muito rápida. Até quarta-feira vamos definir e planificar ações nacionais.”

Segundo Trinidad, o ritmo das ocupações de terra diminuiu com Lugo porque seu governo “negociava mais” com as organizações. “Ele criou muitos assentamentos. Agora, com a ultradireita no poder, não há negociação. Eles não vão fazer nada pela reforma agrária”, afirma. O MCNOC, diz o camponês, organiza 70 mil trabalhadores rurais em 13 departamentos paraguaios.

Alicia Amarilla Leiva, da Conamuri (Coordenação Nacional de Organizações de Mulheres Trabalhadoras Rurais e Indígenas), diz que a entidade também está convocando suas bases --que compreende, segundo ela, cerca de 3.000 mulheres-- a protestarem. Ela afirma que a deposição de Lugo isolará o Paraguai. “Não ficaremos nada bem. Três quartos dos alimentos que os paraguaios comem vem de fora.”

Ocupações à vista

O MCP (Movimento Camponês Paraguaio), que tem origem na atuação de entidades de base da Igreja Católica, também está organizando seus militantes, segundo o secretário-geral Damasio Quiroga. "Estamos fazendo uma avaliação do que aconteceu no país em todas as nossas bases. Nos próximos dias teremos reuniões regionais e uma plenária na quarta-feira.”

Quiroga aponta que a postura de Franco, que, segundo ele, não negocia com os movimentos do campo, pode acirrar os conflitos agrários. “Não descartamos que nos próximos dias haja ocupações de terra. Franco já sinalizou que não irá desapropriar terras para a reforma agrária, nem permitir ocupações.”