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Mortes em operação militar indicam "guinada preocupante" de interventores, dizem especialistas

21,ago.2018 - Militares fazem operação pelo 2º dia seguido na Penha, zona norte do Rio - César Sales/Futura Press/Estadão Conteúdo
21,ago.2018 - Militares fazem operação pelo 2º dia seguido na Penha, zona norte do Rio Imagem: César Sales/Futura Press/Estadão Conteúdo

Luís Adorno

Do UOL, em Brasília

21/08/2018 20h09Atualizada em 21/08/2018 21h28

Ao menos sete mortes em operações das Forças Armadas e das polícias nos complexos do Alemão, Penha e Maré e outras seis mortes em confronto entre PMs e suspeitos em um acesso à ponte Rio-Niterói marcaram a segunda-feira (20) do Rio de Janeiro. Entre as vítimas, dois militares do Exército --os primeiros assassinados desde o início da intervenção federal na segurança do estado em fevereiro. Especialistas em segurança criticaram o que chamam de estratégia de enfrentamento direto com o crime organizado adotada pelas forças de segurança. Para eles, caso isso seja mantido, há risco real de mais mortes violentas de moradores e agentes do estado. 

O Exército, no entanto, nega a existência de uma estratégia de enfrentamento. “Quem busca o confronto são os bandidos”, diz o porta-voz do CML (Comando Militar do Leste), coronel Carlos Frederico Cinelli.

Os principais especialistas em segurança pública do país participam nesta terça-feira (21) em Brasília do 12º Encontro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Ao UOL, dois integrantes do fórum, um ex-comandante da PM fluminense e uma socióloga que vive no Rio disseram ver com preocupação possível “precedente” a partir das ações militares de ontem, quando ao menos sete pessoas morreram.

A socióloga Silvia Ramos, do Cesec (Centro de Estudos de Segurança e Cidadania) da Universidade Cândido Mendes e do Observatório da Intervenção, diz que “durante as 380 operações que nós monitoramos, as Forças Armadas estavam com uma preocupação precisa de que os soldados do Exército não deveriam entrar em confronto direto. Então, não havia baixas, nem de um lado, nem de outro. Ontem, foi uma guinada preocupante”, avaliou.

“Essa mudança de estratégia nos preocupa. Pode ser um precedente muito grave não só no Rio de Janeiro, mas em outros lugares do Brasil. Essas mortes significam o retrato mais brutal e cruel do resultado de um desastre de mudança de estratégia. Essa mudança de estratégia é um desastre”, finalizou.

O coronel da reserva da PM Ibis Pereira, que comandou a corporação fluminense por dois meses, afirmou que operações como as de ontem representam “risco para militares, policiais e população. É uma estratégia absolutamente equivocada. Ao invés de focarmos no varejo, temos de focar nos grandes traficantes”, disse.

Para o Ibis, o aumento das mortes violentas são resultado do que chamou de política de guerra às drogas.

“O enfrentamento ao problema das drogas não passa por operações militares ou policiais dentro de favela. Há 40 anos é feito isso no Rio de Janeiro e não adiantou nada. A gente tem feito da guerra o enfrentamento às drogas. Com fracasso absoluto. É óbvio que vai ter mais mortes”, disse. 

O ex-comandante da PM defendeu que o êxito no combate ao tráfico está relacionado a investigação criminal. "Nós prendemos recentemente 60 fuzis. A maior apreensão da história do Rio. E não foi dentro de favela. Na sequência, nós prendemos a pessoa que trazia as armas ao Rio. As grandes apreensões de drogas também são fora da favela”, complementou.

A diretora do fórum, a pesquisadora Samira Bueno, compartilha de opinião semelhante. “Quando o próprio Exército passa a liderar esse tipo de operação, a tendência é que o resultado seja ainda pior. Se a gente for pensar em termos de doutrina, e para quê o Exército é formado, e pra quê ele serve dentro do contexto nacional, ele não é uma força treinada para fazer política de segurança. Não é uma força treinada para estar em território, lidando com a comunidade”, avaliou.

Ela admite que os territórios em que o Exército faz operações são dominados por facções criminosas, mas chama a atenção para o fato de que há moradores que não têm nada a ver com o crime. “Vão, sim, morrer mais. Não só suspeitos, mas também inocentes e os profissionais: membros do Exército e policiais. E o que isso resolve? Qual o balanço?”, questionou.

Para o presidente do fórum, Renato Sérgio de Lima, “a opção do comando da intervenção de, após seis meses de pífios resultados públicos, dobrar a sua aposta no confronto bélico e violento como receita para o drama da segurança pública no Rio de Janeiro, é a prova de que o Brasil perdeu completamente o controle e o respeito por si próprio e por princípios básicos de dignidade, cidadania e respeito”.

Já o coronel Cinelli defende que os agentes de estado reagem à violência de criminosos --que, por sua vez, colocam em risco a população.

"Não existe estratégia de confronto. O confronto lamentavelmente acontece porque os membros das forças de segurança, ao exercerem a sua tarefa de coibir e prevenir ilícitos, são frequentemente recebidos por criminosos irracionais armados com fuzis, uniformes camuflados e coletes, que optam, ao invés da rendição, pelo ataque aos agentes da lei, disparando a esmo, e colocando em risco a integridade física da população", disse ele.

Segundo o porta-voz do CML, ao direcionar a atuação para as manchas criminais, "o resultado é a necessidade de autodefesa dos policiais, com os efeitos indesejáveis da confrontação armada".

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