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"A polícia não é imune a erros nem formada apenas de santos", diz novo comandante da PM do Rio

14.mar.2018 - Cerimônia de posse do novo comandante da PM Luis Claudio Laviano (à dir.); ao lado dele, o ex-comandante da corporação Wolney Dias Ferreira - Luis Kawaguti/UOL
14.mar.2018 - Cerimônia de posse do novo comandante da PM Luis Claudio Laviano (à dir.); ao lado dele, o ex-comandante da corporação Wolney Dias Ferreira Imagem: Luis Kawaguti/UOL

Marina Lang

Colaboração para o UOL, no Rio*

14/03/2018 17h31

"A polícia não é imune a erros nem formada apenas de santos, mas é a instituição que está na linha de frente ao combate ao mal", afirmou na tarde desta quarta-feira (14) o novo comandante da Polícia Militar, coronel Luis Claudio Laviano, durante sua posse na sede do Batalhão de Choque na Cidade Nova, centro do Rio de Janeiro.

Sem fazer menção direta ao combate da corrupção na corporação, o ex-comandante do Bope (Batalhão de Operações Policiais Especiais) adotou tom conciliador para não perder apoio dos policiais e passou mensagem de resiliência. Em discurso de cerca de três minutos, Laviano citou a desigualdade social e afirmou que "não existem soluções mágicas para problemas complexos".

"Estamos num país desigual e precisamos remar juntos. Policial, honre a sua farda e siga em frente (...) Não existem soluções mágicas para problemas complexos. Serão dias de muito trabalho para realizar entregas que irão impactar o futuro", disse.

Marcada por honras militares, a cerimônia contou com a presença dos secretários da Segurança, Richard Nunes, e da Administração Penitenciária, David Anthony, além do chefe da Polícia Civil, Rivaldo Barbosa (empossado ontem), de políticos estaduais e de autoridades da Segurança e da PM.

A transmissão de cargo acontece no mesmo dia em que a Polícia Civil fez a primeira operação, após o decreto de intervenção na segurança do Estado, para combater a milícia que atua na cidade de Mesquita, na Baixada Fluminense. Nove pessoas foram presas, entre elas, ao menos cinco policiais da ativa --quatro lotados no 20º Batalhão de Polícia Militar (Mesquita) e um no 2° BPM (Botafogo). Outro suspeito é ex-policial.

Questionado sobre o tema da corrupção nas forças policiais e a operação de hoje, Laviano diz que aposta na integração dos trabalhos com a Polícia Civil.

"Os milicianos, eles atuam onde? Onde existe um vácuo de poder, onde existe um espaço do município, do Estado. Essas pessoas exploram esse espaço. E aqui dentro [da PM] não há espaço para essas pessoas. Elas vão ser excluídas naturalmente, como já vem acontecendo ao longo dos anos", disse Laviano após a cerimônia.

O ex-comandante da corporação Wolney Dias Ferreira lembrou que sua gestão foi marcada pelas profundas crises econômica e política que castigam o Estado.

"Um cenário adverso que pôde ser percebido em todas as suas dimensões: econômica, social, política, institucional e ética. É hora de unirmos forças para que a intervenção federal tenha sucesso", defendeu Wolney.

Ele também lembrou feitos da sua gestão: a exigência de diploma de Direito para PMs que ingressam na profissão, um edital de R$ 93 milhões para manutenção de viaturas, e as quase mil viaturas adquiridas via edital --das quais, 290 veículos novos chegam às ruas em abril.

Rio registra hoje 26 PMs mortos no ano

O ex-comandante pediu que a sociedade não culpe a falta de policiamento pela insegurança do Rio e lembrou que PMs também são mortos por causa da violência fluminense.

"Somos, igualmente, vítimas de uma sociedade que agora começa a acordar para uma reflexão mais realista de seus problemas. Presto minha homenagem aos companheiros de farda que perderam a sua vida", declarou.

Hoje, o cabo Luiz Antônio Soares, 36, que foi atingido em uma troca de tiros com criminosos na comunidade do Andaraí no dia 23 de janeiro, morreu no Hospital Federal do Andaraí. Ele é o 26° PM assassinado no Rio de Janeiro. O policial estava na corporação há sete anos, era casado e deixa um filho.

O secretário da Segurança fez um apelo por mudança e afirmou que o país atravessa uma "crise ética e moral sem precedentes".

"Nós precisamos mudar, o país não aguenta mais isso. O país não suporta mais o desrespeito às instituições", declarou. "A mais grave crise que vivemos não é econômica e nem política, é uma crise ética e moral sem precedentes. Precisamos reverter esse quadro, se quisermos ter um país digno de nossos descendentes", afirmou o general Nunes

O general também lembrou que conheceu Laviano durante a ocupação das Forças Armadas no Complexo da Maré, zona norte do Rio, e que passou "a admirá-lo desde então". "Quis o destino que estivéssemos aqui. Tenho plena confiança de que o ethos militar, o símbolo de soldado que ele é, falará fundo nos seus subordinados."

*Colaborou Luis Kawaguti, do UOL

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