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Meio Ambiente

Sob Bolsonaro, Amazônia perdeu área de 3.300 campos de futebol por dia

Carlos Madeiro

Colaboração para o UOL em Maceió

02/10/2021 04h00Atualizada em 02/10/2021 10h27

A área desmatada da Amazônia nos mil primeiros dias do governo cresceu 74% em relação ao mesmo período anterior à posse de Jair Bolsonaro (sem partido) na Presidência.

Nesse período, o desmatamento na Amazônia Legal consumiu uma área de 24,1 mil km². Os dados são do Deter (sistema expedito de alerta de desmatamento), do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) e foram levantados pelo Greenpeace a pedido do UOL.

Segundo o cálculo da entidade, o total desmatado equivale a 2.410.000 hectares, enquanto a média de um campo de futebol padrão Fifa é de 0,729 hectares —ou seja, 3.305.898 campos foram derrubados durante o governo atual, ou 3.305 por dia.

Os dados preocupam especialmente porque o Brasil vinha em uma longa sequência na década de reduções de queimadas e área desmatada, que voltaram a crescer sob o governo atual.

Outros dados da era Bolsonaro também chamam a atenção: em 2019, houve um aumento de 30,5% dos focos de queimada em relação ao ano de 2018. Já 2020 apresentou um novo aumento: de 15,7% em relação ao ano anterior.

Projeções em Nova York denunciam Bolsonaro antes de declarações na Assembleia Geral da ONU, em 21 de setembro - Ken Schles / Greenpeace - Ken Schles / Greenpeace
Projeções em Nova York denunciam Bolsonaro antes de declarações na Assembleia Geral da ONU, em 21 de setembro
Imagem: Ken Schles / Greenpeace

A política ambiental do governo se tornou assuntou mundial em 2019, quando a Amazônia registrou uma alta no número de incêndios florestais, que veio após a redução de todo o aparato de fiscalização e prevenção do fogo.

"Isso demonstra que, desde o início, o projeto ambiental desse governo está dando certo: destruir todos os mecanismos legais e infralegais na nossa rede de proteção", afirma Rômulo Batista, da campanha Amazônia do Greenpeace.

Recentemente, o Greenpeace integrou uma caravana que sobrevoou cidades do Pará, Amazonas, Rondônia e Mato Grosso para ver a destruição causada pelo fogo e pelo desmatamento da Amazônia. A visita rendeu uma série de imagens chocantes.

Visão retrógrada

Segundo Batista, a visão do atual governo se apoia em um pensamento obsoleto de que a produção precisa avançar sobre a floresta. "O governo Bolsonaro e a parte mais retrógrada do agronegócio têm um pensamento do que é mais atrasado para o meio ambiente", diz.

"Enquanto os países estão discutindo como sair da crise da covid com tecnologia verde, preservação, esse governo segue com pensamento de 50, 60 anos atrás, de que é necessário desmatar, invadir terras indígenas e unidades de conservação para garantir um estoque de terra barata para esse setor mais retrógrado do agronegócio", completa.

Outro ponto citado por Batista é que, ao longo do tempo, órgãos cruciais para o combate ao desmatamento foram sendo desmantelados. Foi o caso de ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade) e Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis), que reduziram inclusive seu poder de multar infratores.

"Estes órgãos tiveram cortes orçamentários. O governo criou até uma câmara de conciliação para pessoas que foram multadas por crimes ambientais. Ou seja, o próprio governo criou um mecanismo para ajudar aqueles que cometeram crimes. Isso virou uma trava para punir aqueles que estão fazendo ilegalidades", diz

Tudo isso constrói um cenário perfeito para quem quer desmatar. Ele pode fazer o que quiser com a certeza da impunidade."
Rômulo Batista, do Greenpeace

Em maio, Bolsonaro afirmou que a queda no número de multas ocorreu porque o seu governo preferia "aconselhar" que punir os infratores.

Ricardo Salles é alvo de duas investigações em tramitação no STF por suspeita de proteger madeireiras - Reuters - Reuters
Ricardo Salles é alvo de duas investigações em tramitação no STF por suspeita de proteger madeireiras
Imagem: Reuters

Nem mesmo a mudança de ministro do Meio Ambiente, com a queda em junho de Ricardo Salles (que é investigado por facilitar a vida de madeireiros na Amazônia), mudou o cenário. No seu lugar, assumiu Joaquim Álvaro Pereira Leite, que era da Secretaria da Amazônia e Serviços Ambientais.

"O atual ministro não mostrou nada a que veio. Claro que ainda é [uma posse] recente, mas a gente não viu efetivamente nada para desfazer a 'boiada' que o Salles abriu a porteira para passar", afirma.

Meio Ambiente