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Assédio, nazismo e corrupção: as trocas que atingiram em cheio Bolsonaro

Bolsonaro posa com Pedro Guimarães em evento - Antonio Cruz/Agência Brasil
Bolsonaro posa com Pedro Guimarães em evento Imagem: Antonio Cruz/Agência Brasil

Abinoan Santiago

Colaboração para o UOL, em Florianópolis

02/07/2022 04h00

Acusado de assédio moral e sexual por funcionárias, o economista Pedro Guimarães pediu demissão na quarta-feira (29) da presidência da Caixa Econômica Federal. Ele estava à frente do banco desde janeiro de 2019, sendo um dos únicos que ainda continuava em cargo de comando desde o início da gestão do presidente Jair Bolsonaro (PL).

Guimarães nega as acusações, mas decidiu pedir demissão do cargo após sua situação na Caixa ficar insustentável a partir de relatos de funcionários do banco dando conta de que o economista "tocava em partes íntimas" de servidoras, causava constrangimentos e até mesmo colocava pimenta na comida dos que o acompanhava em viagens pelo Brasil. As acusações são investigadas pelo MPF (Ministério Público Federal) e MPT (Ministério Público do Trabalho).

Essa não é a primeira vez que um aliado próximo a Bolsonaro deixa o comando de alguma pasta ou estatal em meio a polêmicas.

Além de casos de assédio atribuídos a Guimarães, o presidente teve de lidar com demais polêmicas envolvendo a escolha de gestores do seu escalão.

Bebianno foi o primeiro a sair

Antes de completar dois meses de mandato, Bolsonaro demitiu o seu primeiro ministro. O então chefe da Secretaria-Geral da Presidência, Gustavo Bebianno, foi exonerado após ter o nome envolvido em um esquema de candidatura "laranja" do PSL.

Bebianno morreu em março de 2020, aos 56 anos, após passar mal em seu sítio, na Região Serrana do Rio de Janeiro.

A troca do ministro foi a terceira mais rápida desde a redemocratização, em 1989. Só ficou atrás de Romero Jucá, que esteve apenas 12 dias no governo de Michel Temer (MDB), e de Joaquim Roriz, que permaneceu por 14 dias, em 1990, no governo de Fernando Collor.

MEC, o principal problema para Bolsonaro

Pasta com um dos maiores orçamentos do governo, o MEC (Ministério da Educação) foi onde Jair Bolsonaro mais trocou de ministro.

Colombiano naturalizado brasileiro, Ricardo Vélez Rodriguez foi o primeiro que acabou demitido após não suportar a pressão pela disputa de poderes dentro da pasta entre as alas de militares e dos adeptos às ideias de Olavo Carvalho, guru bolsonarista que morreu em janeiro deste ano.

No lugar de Vélez, assumiu o economista Abraham Weintraub, ligado ao bolsonarismo da turma de Olavo. Ele ficou no cargo até 18 de junho de 2020, quando a sua demissão foi confirmada após defender a prisão dos ministros do STF.

"Eu, por mim, colocava esses vagabundos na cadeia. Começando pelo STF", declarou em uma reunião ministerial de 22 de abril daquele ano.

18.jun.2020 - Jair Bolsonaro e Abraham Weintraub - Reprodução/Facebook - Reprodução/Facebook
18.jun.2020 - Jair Bolsonaro e Abraham Weintraub
Imagem: Reprodução/Facebook

O seu antecessor, contudo, também enfrentou problemas, mesmo antes de assumir o cargo. Carlos Alberto Decotelli entregou carta de demissão após a descoberta de inconsistências em seu currículo, como curso de doutorado não realizado no exterior e acusações de plágio em sua dissertação do mestrado.

O MEC, então, passou a ser comandado por Milton Ribeiro. Ele ficou no cargo até 28 de março de 2022, deixando a pasta após ter o nome envolvido em um esquema de pagamento e recebimento de propinas para liberação de verbas através do FNDE (Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação), o que até resultou em sua prisão, em 23 de junho.

Na Saúde, polêmicas devido à pandemia

A pandemia do novo coronavírus no Brasil se tornou o principal motivo para as trocas no comando no Ministério da Saúde durante o governo Bolsonaro.

Luiz Henrique Mandetta, o primeiro a deixar a pasta, em 16 de abril de 2020, foi demitido por divergências com Jair Bolsonaro sobre as estratégias de combate à pandemia. O médico defendia o isolamento social enquanto o presidente já falava em flexibilização das medidas.

Para substituí-lo na Saúde, Bolsonaro escolheu o oncologista Nelson Teich. O médico, contudo, não durou muito tempo. Ele ficou menos de um mês e pediu demissão em 15 de maio após ser criticado por deixar de defender o uso de medicamentos sem eficácia contra a covid-19 e por não ser consultado pelo presidente sobre medidas de flexibilização.

Ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello durante o depoimento à CPI da Covid, no Senado - Jefferson Rudy/Agência Senado - Jefferson Rudy/Agência Senado
Ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello durante o depoimento à CPI da Covid, no Senado
Imagem: Jefferson Rudy/Agência Senado

O general Eduardo Pazuello assumiu a missão no lugar. O militar enfrentou o pior momento da pandemia no Brasil, mas não resistiu depois de sofrer duras críticas da oposição do governo em razão da suposta ingerência da pasta durante picos de mortes por covid-19 no país, o que gerou até uma CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito). A exoneração aconteceu em 15 de março de 2021.

Marcelo Queiroga foi o escolhido e permanece no cargo.

Moro saiu por suposta interferência na PF

Considerado até então um dos principais aliados do presidente Jair Bolsonaro, o ex-juiz federal na Operação Lava Jato, Sergio Moro, decidiu deixar o comando do Ministério da Justiça e Segurança Pública, em 24 de abril de 2020.

Ao pedir exoneração, ele acusou Bolsonaro de interferir no comando da PF (Polícia Federal) para ter acesso a investigações e relatórios da corporação, o que é proibido pela legislação. Na ocasião, Moro afirmou que Bolsonaro temia inquéritos avaliados pelo STF.

Jair Bolsonaro e Sergio Moro - Adriano Machado/Reuters - Adriano Machado/Reuters
Jair Bolsonaro e Sergio Moro
Imagem: Adriano Machado/Reuters

A saída do ex-juiz se tornou emblemática, pois era o principal nome do governo Bolsonaro. Tinha popularidade, segundo o Datafolha, mais alta que a do presidente. As taxas giravam acima dos 50% de aprovação, enquanto as do presidente patinavam abaixo dos 40%.

Cópia de discurso nazista

Outra troca em razão de polêmica foi a do secretário de Cultura Roberto Alvim, em 17 de janeiro de 2020. Ele acabou exonerado após parafrasear um discurso de Joseph Goebbels, ministro da Propaganda durante o governo totalitário de Adolf Hitler na Alemanha nazista. O ato gerou revolta de políticos e da classe artística.

Bolsonaro chegou a definir o discurso de "infeliz" e repudiou as ideologias nazistas. Alvim, por outro lado, se defendeu, na ocasião, afirmando que se tratava de uma coincidência.

Ricardo Salles e Ernesto Araújo: aliados que não resistiram às críticas

Escudeiros do presidente Jair Bolsonaro, Ricardo Salles (Meio Ambiente) e Ernesto Araújo também saíram de seus ministérios depois de estarem envolvidos em polêmicas.

No caso de Salles, seu pedido de demissão aconteceu em 23 de junho de 2021, depois que o STF autorizou a PF a investigá-lo para saber se atuou para afrouxar regras de controle do Ibama sobre a exportação de madeira.

Já Araújo entregou sua carta de exoneração após o clima para continuar no Itamaraty se tornar insustentável em razão de declarações consideradas não diplomáticas, sobretudo, como ataques à China e ao Senado.

O governo Bolsonaro teve início em 1º de janeiro de 2019, com a posse do presidente Jair Bolsonaro (então no PSL) e de seu vice-presidente, o general Hamilton Mourão (PRTB). Ao longo de seu mandato, Bolsonaro saiu do PSL e ficou sem partido. Os ministérios contam com alta participação de militares. Bolsonaro coloca seu alinhamento político à direita e entre os conservadores nos costumes.