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Iraque acusa Estado Islâmico de enterrar vítimas vivas e escravizar mulheres

Ahmed Rasheed

Em Bagdá

10/08/2014 10h05

Militantes do Estado Islâmico mataram ao menos 500 pessoas da minoria étnica iraquiana Yazidi durante sua ofensiva no norte, afirmou à Reuters no domingo (10)  o ministro de Direitos Humanos do Iraque. Mohammed Shia al-Sudani afirmou que os militantes sunitas também enterraram vivas algumas de suas vítimas, incluindo mulheres e crianças. Cerca de 300 mulheres foram sequestradas como escravas, completou ele.

"Temos evidências notáveis obtidas juntos aos Yazidis que fugiam de Sinjar e a alguns que escaparam da morte, e também imagens da cena do crime que mostram que as gangues do Estado Islâmico executaram ao menos 500 Yazidis após tomarem Sinjar", disse Sudani em entrevista por telefone, em sua primeira declaração à imprensa sobre a questão.

Sinjar é a antiga casa dos Yazidis, uma das cidades capturadas pelos militantes sunitas que consideram a comunidade "adoradores do diabo" e dizem que eles devem se converter ao Islã ou enfrentar a morte.

Entenda a violência no Iraque

  • O que está acontecendo?

    Desde que as tropas americanas saíram do Iraque, em 2011, o grupo islâmico EI vem rapidamente ocupando cidades do país. Desde junho, já tomou Mosul, segunda maior cidade e bastião da resistência à ocupação dos EUA e aliados, e partes de Tikrit, cidade de Saddam Hussein próxima da capital Bagdá

  • Quem está atacando?

    O EI (Estado Islâmico), um grupo islamita sunita que surgiu da união de diversos grupos que lutaram contra a ocupação do Iraque pelos EUA e que recentemente criou um califado nas áreas sob o seu controle no Iraque e no Levante (parte de Síria e Líbano). Seu principal líder foi Al-Zarqawi, morto em 2006. Hoje a liderança tem vários nomes, mas o principal é Al-Baghdadi

  • O que é um califado?

    É uma forma de governo centrada na figura do califa, que seria um sucessor da autoridade política do profeta Maomé, com atribuições de chefe de Estado e líder político do mundo islâmico. O Estado, que seguiria rigorosamente a lei do Islã, compreenderia a região entre o mar Mediterrâneo e o rio Tigre

  • Qual a força do EI?

    O grupo, que recebe grandes doações ocultas de dinheiro, tem milhares de militantes, inclusive "jihadistas" americanos e europeus, e se aproveita da disputa entre o governo de Maliki, apoiado pelos xiitas, e a minoria sunita para conquistar espaço. Acredita-se que seja patrocinado por governos da região. Embora seja considerado um braço da Al-Qaeda, se rebelou e foi expulso pelo líder Al-Zawahiri

  • Qual o papel dos EUA?

    Alegando risco de genocídio, o presidente dos EUA, Barack Obama, determinou o bombardeio de áreas controladas pelos militantes do EI no norte do país. Os EUA também estão fornecendo armas e munição aos curdos para que combatam o movimento

  • Quem está na mira do EI?

    Cerca de 50 mil membros da minoria yazidi, que estão isolados em montanhas no noroeste do Iraque, sem comida nem água, depois de terem fugido de suas casas, e cristãos, que chegaram a ser crucificados. Mulheres tem sido forçadas a se submeter à mutilação genital e usar véus cobrindo o corpo inteiro

  • O Iraque pode se dividir?

    Apesar de o governo central de Bagdá ainda controlar oficialmente as províncias do país, é possível que haja a fragmentação em ao menos três territórios. Isso porque a divisão do Iraque entre árabes sunitas, xiitas e curdos já está bem avançada

Acabou ao meio-dia de domingo um prazo para que 300 famílias Yazidi se convertam ao Islã ou enfrentem a morte nas mãos dos militantes. Não ficou imediatamente claro se o ministro iraquiano estava falando sobre o destino dessas famílias ou sobre outros no conflito.

"Algumas das vítimas, incluindo mulheres e crianças, foram enterradas vivas em sepulturas comuns espalhadas em e ao redor de Sinjar", disse Sudani.

As declarações do ministro podem aumentar a pressão sobre os Estados Unidos --que têm realizado ataques aéreos contra alvos do Estado Islâmico em resposta aos últimos avanços do grupo em direção ao norte-- para que forneça mais suporte.

"Em algumas das imagens que obtivemos existem filas de Yazidis mortos que levaram tiros na cabeça enquanto os combatentes do Estado Islâmico comemoram e balançam suas armas sobre os corpos", disse Sudani. "Essa é uma atrocidade cruel."

O Estado Islâmico, que declarou um califado em partes do Iraque e da Síria, levou milhares de Yazidis e cristãos a fugirem para salvar suas vidas durante seu avanço para perto da capital regional curda Arbil.

Os Yazidis, seguidores de uma religião antiga derivada do zoroastrismo, estão espalhados ao longo do norte do Iraque e fazem parte da minoria curda do país.

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