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Tragédia em Brumadinho


'Todo mundo queria trabalhar na Vale': Brumadinho teme por futuro econômico

Cadu Rolim - 2.fev.2019/Fotoarena/Estadão Conteúdo
2.fev.2019 - Novas homenagens as vítimas, no letreiro de Brumadinho Imagem: Cadu Rolim - 2.fev.2019/Fotoarena/Estadão Conteúdo

Luciana Amaral

Do UOL, em Brumadinho (MG)

2019-02-07T04:01:00

07/02/2019 04h01

Resumo da notícia

  • Quase 2 semanas após tragédia, Brumadinho teme também pelo futuro econômico
  • Prefeito da cidade estima que 35% da renda vem da mineração
  • Dentre os mortos pela lama, 55% eram empregados diretos da Vale

O rompimento da barragem da Vale em Brumadinho (MG) não deixará apenas um rastro de tragédias humanas e ambientais. Os efeitos deverão chegar também à economia do município de 40 mil habitantes, extremamente dependente dos royalties da mineração e dos empregos gerados pela mineradora.

"Pagava em dia, tinha plano de saúde. Todo mundo queria trabalhar lá [na Vale]. Fico até arrepiada em dizer, mas era um emprego que muita gente quis e quem saiu é porque brigou, mas depois se arrependeu", diz Bruna Aquino, farmacêutica na cidade.

Ela expressa algo que se ouve pela cidade. Dentre as mais de 150 vidas ceifadas pela lama da barragem, foi embora muita gente que tinha carteira assinada e salários relativamente bons -- os empregados da Vale.

"[Os funcionários] podiam pagar escola particular para o filho, tinham um carro melhor", diz Bruna.

Com a tragédia, ela cogita ter de se mudar de cidade. O marido é empresário e não sabe como será o futuro.

"Tem que ver o que vai acontecer na empresa dele, né? Se vai abalar, se vai afetar", disse.

Em uma pousada de Brumadinho, o recepcionista ecoava sentimento parecido. Ele disse que pela primeira vez deu "graças a Deus" por não trabalhar na Vale.

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Empregados da Vale são maioria das vítimas

Dos 134 corpos resgatados da lama de Brumadinho e identificados até a última quarta-feira (6), 75 eram empregados diretos da Vale. Mas o número de vítimas ligadas à mineradora, uma das maiores do mundo, é ainda maior, já que havia trabalhadores terceirizados.

A Vale calcula que havia cerca de 600 pessoas trabalhando na Mina do Feijão quando a barragem 1 se rompeu. 

"Conheço pai de família que morreu. Conheço uma mulher que era funcionária da Vale, separada e deixou duas filhas pequenas. É muita gente assim. Todos vão ficar sem sustento", diz Daiana Silva, funcionária de uma loja de produtos esportivos numa das principais ruas de Brumadinho.

"A doação dos R$ 100 mil da Vale pode até ajudar num primeiro momento, mas como fica a economia daqui a dois, três anos? E as empresas que não vão mais existir aqui?", completa.

A mineradora anunciou que paga R$ 100 mil para famílias que tiveram algum ente morto ou desaparecido depois da avalanche de lama que tomou a cidade. E também afirmou que repassará R$ 80 milhões ao longo de dois anos ao município, como tentativa de compensar a queda de arrecadação de impostos.

O UOL perguntou à prefeitura de Brumadinho se o valor é suficiente, mas não teve resposta. No começo do mês, Avimar Barcelos (PV), prefeito da cidade, havia dito que sem a mineração, a cidade não conseguiria pagar pelos serviços essenciais. Ele estima que 35% da arrecadação da cidade venha dessa atividade.

Parte dos moradores dos bairros Parque da Cachoeira e Córrego do Feijão teve hortas e galinheiros destruídos pela lama de rejeitos. Agora, eles dependem da ajuda de vizinhos e de doações de terceiros. O cadastro da Vale para o pagamento de R$ 45 mil e R$ 15 mil a pessoas cujas rendas foram afetadas pela avalanche não foi iniciado.

Ontem, o presidente da Vale voltou a Minas e disse que pretende "fechar rapidamente um acordo com as autoridades para que possamos acelerar as indenizações (de forma extrajudicial)".

Perdeu valor

Dono de uma serralheria no centro da cidade e de um sítio no Parque da Cachoeira, José do Maciel, se preocupa também com a desvalorização dos imóveis na região.

"Um sítio que antes valia R$ 800 mil agora deve valer R$ 500 mil ou menos. Eu mesmo não volto lá nunca mais, nunca mais. É triste você passar por aquela lama todo dia e se lembrar dos amigos que foram embora. Foram muitos", disse.

A veterinária e dona de pet shop, Érika Olandim, relata que perdeu amigos, clientes e pacientes. Ela avaliou que o comércio na cidade já sofria antes da tragédia.

"Aqui é muito pequeno, então um é cliente do outro. Vai estar aquecido neste primeiro ano [devido ao auxílio da Vale]. Mas, depois, a mineração é praticamente a fonte de renda do município. Não foi criada nenhuma outra alternativa. A gente fica só em minério, minério, minério", afirmou.

Para Érika, uma das soluções é explorar melhor o potencial turístico da região. 

"A região é muito bonita. Isso seria uma das alternativas. O poder público tem de agora procurar alternativas. Isso [o rompimento] foi para mostrar que o minério não pode ser a base, a fonte", sugere.

O vice-governador de Minas Gerais, Paulo Brant (Novo), concorda. Ele afirmou que é preciso organizar projetos para repensar a economia da cidade. Somente a renda gerada pelo turismo ao museu Inhotim - que não foi atingido pelo rompimento e reabrirá nesse sábado (9) - não é suficiente.

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