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O que se sabe até agora sobre as mortes em baile em Paraisópolis?

Nathan Lopes*

Do UOL, em São Paulo

02/12/2019 11h15Atualizada em 04/12/2019 13h51

Resumo da notícia

  • Ação da PM no Baile da 17 terminou em nove mortes
  • Polícia diz que suspeitos fugiram em direção ao baile

Nove pessoas morreram pisoteadas em Paraisópolis, na zona sul de São Paulo, após uma ação da PM (Polícia Militar) realizada em um baile. Chamado de baile DZ7, o evento aconteceu na madrugada de domingo (1º), e reunia milhares de pessoas durante o ocorrido.

Paraisópolis fica ao lado do Morumbi, bairro nobre da capital paulista na zona oeste, e possui cerca de 100 mil moradores. Confira o que se sabe até o momento sobre o caso:

O que aconteceu?

Uma ação da PM para dispersar uma multidão que participava no baile gerou um grande tumulto e pânico. Na correria, nove pessoas morreram pisoteadas e outras 12 ficaram feridas, segundo a prefeitura.

    O que diz a PM?

    Segundo a polícia, agentes do 16º Batalhão de Polícia Militar Metropolitano realizavam a Operação Pancadão na região. Durante ela, dois homens em uma motocicleta atiraram contra os policiais.

    A PM diz que os suspeitos fugiram em direção ao baile efetuando disparos. Isso teria ocasionado um "tumulto generalizado" entre os frequentadores do evento. A polícia diz que duas viaturas foram depredadas. Ninguém foi preso. Os seis agentes da PM envolvidos no caso foram afastados.

    O que dizem os frequentadores do baile?

    Frequentadores do baile deram outra versão. Eles disseram que não viram essa motocicleta com criminosos e relataram que a PM cercou todas as saídas do local. O cerco teria levado quem estava na rua a correr para uma viela, causando o tumulto.

    A Polícia Militar nega ter encurralado os frequentadores. "Eles fecharam dos dois lados, e todo mundo correu para uma viela de três metros de largura. Quem estava na frente caiu", afirmou o estudante de direito Luiz Henrique, 26, que estava no local.

    Houve abuso da PM?

    Um vídeo mostra policiais dando socos, pontapés e pisando em dois garotos que já estavam dominados. Outras imagens apontam um agente agredindo pessoas que estavam sendo dispersadas do baile; elas foram atingidas com golpes de cassetete na cabeça e nas costas. Cenas divulgadas também mostram correria e a PM usando bombas contra os frequentadores.

    Uma das vítimas disse que foi agredida por um policial com uma garrafada na cabeça e com cassetete nas costas.

    Porta-voz da PM, o tenente-coronel Emerson Massera disse ontem à imprensa que as imagens "sugerem excessos" por parte da polícia. "Evidentemente, o rigor vai responsabilizar quem cometeu algum excesso, algum abuso."

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    TV Folha

    Bombeiros prestaram socorro?

    Não. Um pedido de socorro feito por uma jovem por telefone foi cancelado por um soldado da corporação, que afirmou que a Polícia Militar já havia oferecido assistência às vítimas. "Fomos acionados e acionamos o Samu [da Prefeitura] pelo número grande de vítimas, e quando a nossa viatura estava perto, na Av Hebe Camargo, foi informada pelo Cobom [Centro Operações do Corpo de Bombeiros] que as equipes do policiamento já haviam socorrido as vítimas. Então as viaturas de resgate foram empenhadas em outra ocorrência, e o Samu também", disse o porta-voz do Corpo de Bombeiros, capitão Marcos Palumbo.

    Quem está investigando?

    A PM instaurou um IPM (Inquérito Policial Militar) para apurar o caso, que foi registrado no 89º Distrito Policial. O ouvidor das polícias, Benedito Mariano, porém, afirmou que vai oficiar para que a Corregedoria da Polícia Militar de São Paulo fique à frente da investigação interna sobre o caso.

    "Já telefonei ao corregedor da PM, coronel Marcelino Fernandes, para que seja a Corregedoria responsável pela investigação e não o batalhão onde atuam os policiais militares envolvidos neste caso gravíssimo."

    O MP (Ministério Público) qualificou o ocorrido no domingo como "homicídios".

    O que disse o governador?

    Até o final de domingo, o governador paulista, João Doria (PSDB), havia se manifestado com uma nota divulgada em suas redes sociais. Ele disse lamentar o ocorrido e que determinou a "apuração rigorosa dos fatos para esclarecer quais foram as circunstâncias e responsabilidades deste triste episódio". Em evento no Rio, Doria também elogiou a PM.

    O que é o baile DZ7?

    Conhecido como DZ7, o baile é um evento que reúne entre 3.000 e 5.000 pessoas nos últimos dias da semana na rua Ernest Renan. O principal dia é de sábado para domingo. Parte dos frequentadores é de fora da região de Paraisópolis, inclusive de outras cidades.

    Segundo a BBC, o número 17 é uma referência a um bar de drinques que existia na favela. A festa, teria surgido como um pagode em frente a esse boteco, mas, nos intervalos, os frequentadores ouviam funk em carros estacionados na rua.

    O alto barulho, no entanto, fez com que moradores se mudassem da área, dando espaço para estabelecimentos comerciais voltados aos frequentadores, como tabacarias e bares. Parte do baile é bancada por esses comerciantes.

    Como era a relação entre a PM e a comunidade?

    Segundo o site Ponte, há um mês, policiais militares fazem ameaças diárias aos moradores de Paraisópolis. A ação seria por causa da morte do sargento PM Ronald Ruas Silva, ocorrida na região em uma troca de tiros em 1º de novembro. Há relatos de ameaças e agressões feitas por policiais.

    A PM diz que "faz rondas diárias na região da ocorrência para aumentar a sensação de segurança da população e como medida de prevenção às práticas criminosas".

    Quem são os mortos?

    • Dennys Guilherme dos Santos Franca, 16
    • Denys Henrique Quirino da Silva, 16
    • Marcos Paulo Oliveira dos Santos, 16
    • Gustavo Cruz Xavier, 14
    • Bruno Gabriel dos Santos, 22
    • Eduardo Silva, 21
    • Gabriel Rogério de Moraes, 20
    • Luara Victoria de Oliveira, 18
    • Mateus dos Santos Costa, 23

    Quais foram as causas da morte?

    O UOL teve acesso a atestados de óbito de quatro das nove vítimas. Moraes teve "asfixia mecânica por 'enforcação indireta'"; Luara Victoria, "asfixia mecânica por sufocação indireta"; Costa, "trauma raquimedular por agente contundente"; Bruno Gabriel dos Santos, "a determinar"

    *Colaboraram Wanderley Preite Sobrinho, Bernardo Barbosa, Cleber Souza, Flávio Costa e Luís Adorno, do UOL, em São Paulo

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