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Supremo julgará mensalão indiferente a acusação de Mendes a Lula, diz magistrado

Maurício Savarese

Do UOL, em Brasília

28/05/2012 18h15Atualizada em 28/05/2012 20h18

A temperatura política subiu na capital federal depois de o ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF), acusar o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva de pressioná-lo a adiar o julgamento dos envolvidos no escândalo do mensalão neste ano eleitoral. Para Nelson Calandra, presidente da AMB (Associação dos Magistrados Brasileiros), o entrevero gerado entre governistas e oposicionistas não influenciará a decisão da corte sobre o caso.

Em entrevista ao UOL, Calandra afirmou que juízes “sempre recebem pressões, de várias partes”. Ele disse ainda que “cabe ao ministro Gilmar representar criminalmente contra o ex-presidente Lula se achar que deve”. O julgamento do mensalão ainda não tem data para começar. Governistas temem a influência do tema nas eleições municipais, enquanto oposicionistas pedem celeridade à mais alta corte do país.

Na edição que chegou às bancas no último final de semana, a revista “Veja” afirma que Lula sinalizou a Mendes saber de um voo dele com o senador Demóstenes Torres (ex-DEM-GO) a Berlim, em um avião supostamente pago pelo bicheiro e empresário Carlinhos Cachoeira. O ministro disse à publicação que pagou sua viagem. Ainda no fim de semana, os ministros Celso de Mello e Marco Aurélio Mello deram crédito ao colega em entrevistas e acusaram o ex-presidente de tentar intimidar o Supremo.

Para o presidente da AMB, “se a insinuação aconteceu, tem que ser dado um desconto. Não podemos confundir comentário desastrado com outra coisa”. “O ex-presidente já falou coisas chocantes, sim. Mas ele serviu bem o Brasil por oito anos, está convalescendo de uma doença grave. Se aconteceu assim, é claro que é desagradável e deselegante. Mas o Supremo não se impressionaria com isso. E nós magistrados estamos sujeitos a ter a vida devassada”, afirmou.

Reunião a três

A reunião no fim de abril aconteceu no escritório do ex-ministro da Defesa e do Supremo Nelson Jobim, que, no entanto, negou ao jornal “O Estado de S.Paulo” o teor das acusações. “De maneira nenhuma se falou disso”, afirmou.

O encontro, de acordo com o peemedebista, se deu porque Lula lhe fazia uma visita. Jobim descartou o relato da revista “Veja” de que o ministro e o ex-presidente conversaram a sós. “Durante todo o tempo ficamos juntos”, disse.

Nesta segunda-feira (28), oposicionistas se revezaram na tribuna do Senado para criticar o ex-presidente e endossar a acusação do ministro do STF. Eles também prometem pedir abertura de uma investigação na Procuradoria-Geral da República. “Mas a verdade é que só o ministro e Lula sabem o que foi realmente dito entre eles”, disse Calandra. “E o que há até agora é fogo demais para pouca gasolina.” Lula ainda não se manifestou sobre o caso.

O relator da CPI do Cachoeira, deputado Odair Cunha (PT-MG), negou que até agora haja nas investigações da Polícia Federal indícios de envolvimento de Mendes com Cachoeira. O bicheiro está preso em Brasília e tinha Demóstenes como seu principal braço para influência política. Em 2009, Mendes, então presidente do Supremo, e Demóstenes denunciaram que uma conversa entre os dois teria sido grampeada. Foram publicadas apenas transcrições das conversas entre os dois, mas o áudio do suposto grampo ilegal nunca foi divulgado. A Polícia Federal fez buscas do gabinete de Mendes, mas não encontrou indícios de escuta.

A revista teve Cachoeira como uma de suas fontes em denúncias de corrupção de membros do governo Lula. Por conta disso, membros da CPI do Cachoeira vêem uma relação ilegal do contraventor com o chefe da sucursal da “Veja” em Brasília, Policarpo Júnior. Até agora, no entanto, o relator da CPI admitiu que não foi descoberto nenhum crime na relação entre a publicação e o bicheiro.

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