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Jornalista que trabalhou para Perillo oferece à CPI quebra do seu sigilo fiscal, bancário e telefônico

Camila Campanerut

Do UOL, em Brasília

27/06/2012 12h19Atualizada em 27/06/2012 15h49

O jornalista Luiz Carlos Bordoni ofereceu à CPI que investiga o contraventor Carlos Cachoeira a quebra dos sigilos fiscal, bancário e telefônico dele próprio e da filha. Ele presta depoimento nesta quarta-feira (27) para explicar a acusação que fez contra o governador de Goiás, Marconi Perillo (PSDB), de que gastos de campanha foram pagos com dinheiro de Cachoeira. Bordoni informou que trabalhou nas campanhas de Perillo desde 1998.

Sobre a acusação de que teria ameaçado e achacado Cachoeira, Bordoni respondeu: "Que poder que tenho eu de submeter o Capone do cerrado", disse, referindo-se a Cachoeira.

O clima chegou a esquentar na CPI quando, durante o depoimento, o deputado Carlos Sampaio (PSDB-SP) o interrompeu e disse que o jornalista estava fugindo do tema. O deputado Silvio Costa (PTB-PE) interveio e afirmou que Bordoni estava detalhando todas as coisas que o Marconi falou e que, segundo ele, são mentiras.

Bordoni, por sua vez, disse: "Alguns senadores não estão preocupados em esclarecer coisa alguma." Alterado, Sampaio começou a gritar e falou: "Isso é molecagem. Eu não admito que Vossa Excelência fale de mim, eu não concebo que Vossa Excelência se refira a mim".

"Contrato verbal"

À CPI, Bordoni afirma que o último contrato de trabalho o governador de Goiás foi “verbal”. Segundo ele, foram acordados R$120 mil mais bônus de R$ 50 mil, caso o então candidato ganhasse. Em momentos distintos durante sua fala aos parlamentares, ele chegou a falar que o bônus era de R$ 40 mil.

De acordo com o jornalista, ele recebeu três pagamentos, totalizando R$ 80 mil e, para cobrar os R$ 40 mil restantes, foi pessoalmente obtê-lo. 

“No valor acordado, recebi três pagamentos: de R$ 40 mil das mãos dele [Perillo], outro no dia 21 setembro [de 2010], de R$ 30 mil pagos pelo financeiro [da campanha] e um terceiro de R$ 10 mil pelo senhor Jayme Rincón no escritório”, detalhou.

Quando faltava o pagamento dos R$ 90 mil finais, o jornalista contou que conversou por telefone com Lúcio Fiúza, ex-assessor de Perillo, para receber o restante.

O pagamento foi feito em dois depósitos de R$ 45 mil cada na conta da filha, um no dia 14 de abril e outro no dia 18 de maio 2011. Segundo Bordoni, esses pagamentos vieram de empresas fantasmas ligadas a Cachoeira: a Alberto & Pantoja Construções e a Décio e Rafael Construção e Terraplanagem. A primeira já teve o seu sigilo quebrado e, nesta quarta, a CPI também exigiu a quebra do sigilo da segunda.

Na avaliação de Bordoni, ele teria começado a desagradar o grupo de Cachoeira quando usou seu programa de televisão em Goiás para criticar o alto preço dos equipamentos de rua para a fiscalização de velocidade (pardais) contratados pela empresa Delta.

"Eu deixei de ser o cara, o bom, o pé quente, para ser (...) o desequilibrado mental", afirmou. Bordoni admitiu que o pagamento em dinheiro que recebeu de Perillo não foi declarado à Receita. Por conta disso, o deputado Carlos Sampaio pediu que a CPI contatasse a Receita Federal para apurar “crime contra a ordem tributária”. Em resposta, Bordoni disse que estará "pronto para responder à Receita o que me couber."

Bordoni afirmou que recebeu dinheiro por fora em todas as campanhas. "Nós trabalhamos para o patrão [Perillo] que sabe, que luta para arrecadar recursos de campanha." Segundo Bordoni, um instituto de pesquisa também foi pago com dinheiro da Alberto & Pantoja.

"Mentiras"

O jornalista afirmou ainda que Perillo mentiu em mais de uma vez quando depôs na CPI. Entre os pontos que rebateu, Boroni afirmou que a relação de Perillo com Cachoeira era próxima e que a ex-chefe de gabinete, Eliane Pinheiro, e o ex-vereador Wladimir Garcez eram "braços políticos de Cachoeira" dentro do Palácio das Esmeraldas, sede do governo estadual goiano.

Ele disse que só chegaram no nome dele porque a filha Bruna foi contratada pelo senador Demóstenes Torres (sem partido-GO) para ser assessora dele em 2005. Ela foi nomeada, mas não chegou a assumir porque estava doente, com hepatite C, segundo Bordoni. Como havia gravado, em 2002, um programa para Demóstenes sem cobrar nada, a nomeação da filha foi uma maneira de o Senador retribuir o trabalho.

Ele informou ainda que a mãe dela, Sonia Monteiro, trabalha no governo do Perillo, mas ele não soube informar qual função desempenha, apenas que não trabalha diretamente com o governador.

Sobre Cachoeira, Bordoni disse que nunca viu, nem conhece Cachoeira pessoalmente, nem conversou com ele. Ele disse que foi pego de surpresa ao saber da relação de Demóstenes com Cachoeira.

Campanha de desconstrução "moral e até social"

Ao chegar à comissão, o jornalista se disse vítima de uma campanha de desconstrução “moral e até social” por parte das pessoas que temem o depoimento dele. Acompanhado do seu advogado, ele afirmou que trouxe documentos e que vai abordar, em especial, os assuntos ligados ao “ex-amigo” Perillo.

O jornalista justificou que não tentou entrar na Justiça para conseguir um habeas corpus para ficar calado porque não tem nada a esconder. Bordoni ressaltou que tem 50 anos de profissão e que não iria "admitir jamais que, seja quem for, venha tripudiar sobre a minha honra para justificar caixa 2”.

Bordoni confirmou que a empresa Alberto Pantoja depositou R$ 45 mil na conta da filha dele pelo trabalho que realizou durante a campanha de 2010 para o governador.  Ele falou que o dinheiro foi passado para a conta da filha porque ele estava viajando. Segundo ele, os dados da conta da filha foram passados ao assessor do governador Lucio Fiuza. “[Com relação ao dinheiro] não tem nada a ver com extorsão, pelo contrário. É trabalho prestado limpo, decentemente, desde 1998, são quatro vitórias consecutivas do meu ex-amigo Marconi Perillo.”

Outros depoentes

Além de Bordoni, foi chamada para depor nesta quarta-feira a ex-chefe de gabinete de Perillo, Eliane Pinheiro, suspeita de repassar informações policiais a Cachoeira e o tesoureiro da campanha tucana em 2010. Ela ficou menos de um minuto na CPI: disse que foi orientada por seu advogado a não falar e foi dispensada.

O presidente da Agetop (Agência Goiana de Transportes e Obras), Jayme Rincón, acusado de receber R$ 600 mil de uma empresa do contraventor, também deveria depor nesta quarta, mas enviou um atestado médico à comissão e não deverá comparecer.

No último dia 05 de junho, o STF decidiu que ex-assessora de Perillo poderá ficar calada na CPI. O ministro Celso de Mello também garantiu que a gestora não assine nenhum termo de compromisso para falar a verdade e que não seja presa por se recusar a colaborar. O ministro também determinou que ela seja assessorada por seu advogado durante o depoimento na CPI.

Nesta terça-feira (26), a CPI ouviu três testemunhas, mas duas delas conseguiram na Justiça o direito de ficar em silêncio para não produzir provas contra si mesmas. Ao final da terça-feira, o único depoimento tomado pela comissão foi o do arquiteto Alexandre Milhomem.

Ele afirmou nesta terça-feira (26) que a mulher do contraventor, Andressa Mendonça, o contratou para decorar a casa vendida pelo governador de Goiás, Marconi Perillo (PSDB). Segundo Milhomem, ela gastou cerca de R$ 500 mil com móveis, papel de parede e outros objetos porque "gosta de tudo do melhor", além dos honorários do profissional, de R$ 50 mil.

Está marcada para o dia 5 de julho uma reunião para analisar os nomes dos novos convocados para depor à CPI. Entre eles, está o de Fernando Cavendish e o ex-diretor do Dnit, Luís Antônio Pagot.

O jornalista disse que tentaria evitar que seja usado como bode expiatório desse caso e prometeu que sua fala à CPI “não será bombástica”. “Prometo a verdade.” Ele ironizou ainda: "Agora, você já imaginou o meu poder de pressionar Cachoeira, o governador paralelo de Goiás, segundo dizem".

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