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Operação Lava Jato


MPF: Doleiros usaram Bradesco, Itaú, Santander e Caixa para lavar dinheiro

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Agência do Banco Bradesco Imagem: Getty Images

Vinicius Konchinski

Colaboração para o UOL, em Curitiba

2019-05-29T04:01:00

2019-05-29T14:24:12

29/05/2019 04h01Atualizada em 29/05/2019 14h24

Resumo da notícia

  • Doleiros que operavam esquema de Sérgio Cabral no Rio usavam 4 bancos, diz MPF
  • Contas ligadas a empresas de fachada serviam para pagamento de propinas
  • Organização criminosa contou com ajuda de bancários, aponta investigação
  • Segundo promotor, a princípio bancos não devem ser responsabilizados
  • Total movimentado em 15 contas chega a R$ 1 bilhão, relata a Lava Jato

O grupo de doleiros que colaborou com o ex-governador do Rio de Janeiro Sérgio Cabral e a construtora Odebrecht para pagamento de propinas usou contas correntes abertas nos bancos Bradesco, Itaú, Santander e Caixa Econômica Federal para lavar dinheiro.

A constatação é resultado de investigações da força-tarefa da Operação Lava Jato no MPF-RJ (Ministério Público Federal do Rio de Janeiro), que vê falhas das instituições financeiras em controlar crimes praticados com ajuda de seus serviços.

De acordo com o MPF-RJ, os doleiros conseguiram abrir contas em nome de pelo menos sete empresas de fachada em quatro dos principais bancos do país. Para isso, contaram com a falha ou colaboração de funcionários, os quais não checaram os dados cadastrais das companhias falsas ou mesmo receberam propinas em troca das facilidades vendidas à organização criminosa.

Essas contas bancárias eram usadas por doleiros como entreposto para o dinheiro que circulava nos esquemas de pagamento de propinas dos quais eles participavam. Uma conta em nome de uma companhia de fachada poderia receber depósitos sem que o real dono do saldo fosse identificado, por exemplo. Os valores depositados ali também poderiam ser usados para pagamentos em que o destino do dinheiro nunca era revelado.

Grupo operava 15 contas, aponta Lava Jato

Ao todo, segundo investigação da Lava Jato no Rio, ao menos 15 contas correntes foram operadas pelo grupo de doleiros, que já foi alvo de fases anteriores da Lava Jato como a operação "Câmbio, Desligo". Ao todo, essas contas movimentaram mais de R$ 1,1 bilhão. Desse total, R$ 989 milhões --cerca de 90% do total-- circularam pelo Bradesco.

Na terça-feira (28), dois gerentes do banco foram alvo de mandados de prisão temporária. Tânia Maria Aragão de Souza Fonseca, que já chefiou uma agência do Bradesco na Barra da Tijuca, e Robson Luiz Cunha Silva, que foi gerente-geral da agência do banco em Vila Isabel, são suspeitos de receber uma mesada de doleiros para ajudá-los na abertura de contas no banco.

Gerente bancária é presa em desdobramento da Lava-Jato

Band Notí­cias

Movimentação em contas bancárias usadas por doleiros:

Bradesco

  • Agil 2011 Assessoria em Gestão - R$ 281 milhões
  • Sags Participações e Serviços - R$ 250,7 milhões
  • Maraba Celios Indústria e Comércio - R$ 167,6 milhões
  • Alfat Serviços de Cobrança - R$ 112,7 milhões
  • IEC Comércio e Importadora - R$ 78,5 milhões
  • Presto Service 2015 - R$ 71,9 milhões
  • AGB 3 Comércio de Roupas - R$ 26,5 milhões

Total - R$ 989,6 milhões

Itaú

  • Alfat Serviços de Cobrança - R$ 87,6 milhões
  • Sags Participações e Serviços - R$ 6,8 milhões
  • AGB 3 Comércio de Roupas - R$ 2,61 milhões

Total - 94,5 milhões

Santander

  • Alfat Serviços de Cobrança - R$ 18,1 milhões
  • IEC Comércio e Importadora - R$ 844 mil
  • Maraba Celios Indústria e Comércio - R$ 532 mil

Total - R$ 19,5 milhões

Caixa Econômica Federal

  • IEC Comércio e Importadora - R$ 2,3 milhões
  • Maraba Celios Indústria e Comércio - R$ 1,8 milhão

Total - R$ 4,1 milhões

Google Street View/MPF-RJ
Endereço da Presto Service, no Rio, empresa de fachada que movimentou R$ 71 milhões, segundo o MPF Imagem: Google Street View/MPF-RJ
Controle de bancos não funcionou, diz procurador

Para o coordenador da Lava Jato no Rio de Janeiro, o procurador da República Eduardo El Hage, a quantidade de contas abertas e principalmente a movimentação delas mostra que o sistema de controle de crimes adotado por bancos não funcionou. Segundo ele, regras internacionais e leis brasileiras de combate à lavagem de dinheiro determinam que instituições bancárias conheçam seus clientes, saibam da fonte dos seus recursos e monitorem transações suspeitas. Isso, disse ele, não ocorreu.

"Os bancos têm que fazer diligências para verificar dados cadastrais de clientes", explicou, em entrevista ao UOL.

Se isso [apuração de dados] tivesse sido feito, eles [os bancos] saberiam que muitas empresas que movimentam milhões em suas contas funcionam em endereços incompatíveis com suas vultuosas transações.
Eduardo El Hage, coordenador da Lava Jato no Rio

El Hage afirma que o caso do Bradesco chama ainda mais atenção. De acordo com o procurador, doleiros que fizeram acordos de delação premiada no âmbito da Operação Lava Jato afirmaram em seus depoimentos que procuravam abrir contas no banco justamente porque sabiam que ele tinha um controle menos rígido.

Para El Hage, isso é um sinal de que a instituição não só foi omissa no cumprimento de suas obrigações como se beneficiou do esquema de lavagem de dinheiro montado por criminosos.

O banco [Bradesco] deixou de gastar com sua área de controle e também lucrou com toda essa movimentação em suas contas. É uma despesa menor e um lucro maior.
Eduardo El Hage, coordenador da Lava Jato no Rio

No pedido de prisão temporária dos dois funcionários do Bradesco, o MPF incluiu dados sobre o lucro do banco. Em 2018, o Bradesco lucrou mais de R$ 19 bilhões -- 30% a mais do que em 2017.

Cooperação com Coaf e Banco Central

El Hage disse que o MPF-RJ já compartilhou com o Banco Central e o Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) provas e outros dados da investigação da Lava Jato no Rio. Segundo ele, os órgãos poderão analisar as condutas das instituições financeiras e puni-las se necessário.

A Lava Jato também pretende discutir com bancos medidas para melhoria de seus controles internos. El Hage disse que não vê, por ora, possibilidade de a Lava Jato buscar punição aos bancos envolvidos no esquema de lavagem de dinheiro investigado na operação.

O Banco Central informou ao UOL que não comenta possíveis investigações em curso na instituição.

A defesa de Sérgio Cabral afirmou que "O ex-governador está a disposição das autoridades para esclarecer qualquer assunto relacionado ao seu governo, como também reparar os danos".

Procurado pelo UOL, o Bradesco informou que soube da ação contra Tânia e Robson Luiz pela imprensa, nesta manhã. Segundo o banco, o caso será apurado internamente.

"Como sempre, o Bradesco se coloca à disposição das autoridades no sentido da plena colaboração e esclarecimento sobre as apurações que estão sendo realizadas", declarou o banco. "O Bradesco reitera que cumpre rigorosamente com as normas de conduta ética e governança vigentes para a atividade."

O processo em que o MPF pede a prisão temporária de Tânia e Robson Luiz corre em segredo de Justiça. Por isso, o UOL não conseguiu informações sobre os advogados dos funcionários do Bradesco para ouvi-los acerca das suspeitas contra ambos.

O Itaú informou que, há dois anos, encerrou sua relação com empresas de fachada citadas na investigação da Lava Jato e adotou as providências legais junto às autoridades. O banco declarou ainda que "está comprometido com as melhores práticas de prevenção à lavagem de dinheiro e adota com rigor todas as medidas necessárias buscando evitar transações ilícitas no sistema financeiro".

O Santander informou que está disposto a colaborar com a investigação. Declarou também que "adota políticas rigorosas de compliance e cumpre estritamente a legislação e as normas de prevenção à lavagem de dinheiro"

A Caixa Econômica Federal declarou que "atua em constante colaboração com os órgãos de investigação e adota permanente monitoramento para prevenção à lavagem de dinheiro". Segundo o banco, movimentações atípicas são comunicadas às autoridades competentes conforme manda a lei.

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